Cria do Morro do Horácio, Pablinho foi morto na data que celebra a luta de seus ancestrais; Aos 19 anos, jovem negro foi atingido por até 14 disparos do 4º Batalhão
Reportagem de Rodrigo Barbosa e Gabriele Oliveira
20 de novembro de 2024 marcou a primeira vez em que a luta do povo negro foi oficialmente celebrada em território nacional. Mais de 130 anos se passaram entre a suposta abolição e o primeiro feriado nacional do Dia da Consciência Negra. No país inteiro, movimentos sociais e militantes negros se reuniram para marchar pelas ruas. Os atos, que já aconteciam há anos, desta vez, partiram com a certeza de que toda a população poderia se unir a este dia que relembra séculos de luta.
Em Florianópolis, o lema da Marcha da Consciência Negra 2024 evocava justiça e investigação para jovens negros vítimas de violência do Estado. Um temporal varreu a cidade no dia 20 e a Marcha foi adiada pensando-se na segurança dos manifestantes. Quando foi realizada, quatro dias mais tarde, ganhou mais um homenageado.
No Dia da Consciência Negra de 2024, a juventude negra de Florianópolis sobreviveu até quase o fim do dia. Aos 19 anos de idade, Pablo Henrique Nunes Batista tombou por volta das dez da noite na data em que se celebrava a luta de seus irmãos e ancestrais.
Terror na rua da igreja
A Servidão Olindina da Silva é uma viela estreita onde só passa um carro por vez. Ocupada basicamente por casas, a Olindina tem seu começo marcado pela presença da maior igreja católica do Morro do Horácio – que, além dos fiéis, recebe duas vezes por semana moradores em busca de roupas em um brechó que funciona no local. À noite, quando a igreja está fechada, a servidão costuma ser um dos locais mais tranquilos do morro. Numa noite chuvosa, em especial, quase ninguém passa na rua da igreja.
Era ali que Pablo estava na noite em que tudo aconteceu. Sua família relata que ele jogava videogame na casa de um primo quando o 4º Batalhão (4BPM) chegou na comunidade, por volta das 22h. Pablo se organizava para ir para sua casa.
Foi aconselhado a ficar por ali, onde não havia boca de fumo por perto, até que os policiais deixassem o morro. Os traumas da polícia no Horácio são antigos, mas o nível de violência dos últimos dois anos era sem precedentes, com a morte de sete jovens da região em ações policiais. Quando a PM entra no morro, ninguém sai de casa.
Mas Pablo ignorou o conselho. Pouco antes das dez da noite, saiu pelo portão da casa do primo. A Servidão Olindina Lídia da Silva estava tomada por policiais. Os tiros começaram quase imediatamente.
“Ele foi passar no beco e, quando ele foi, já começaram a dar um monte de tiro nele”, relata um morador. Após os primeiros disparos, quase ninguém viu mais nada. Poucos são os que têm coragem de colocar a cabeça para fora numa viela estreita quando tiros de fuzil estão sendo disparados. Aqueles que conseguiram testemunhar o que acontecia foram ameaçados pelos próprios policiais, munidos de armas e lasers.
“Não bota a cara na janela, não sai ninguém de dentro de casa”.
Mesmo em meio ao pânico, as notícias correm. Nada acontece no morro sem que o morro fique sabendo. Para além dos gritos do próprio Pablo, a servidão foi tomada por barulhos dos disparos e o choro das crianças da vizinhança. No dia seguinte, já corria pelos becos do Maciço o que havia acontecido com o jovem:
“Jogaram ele debaixo de um assoalho de uma casa, depois puxaram ele, depois jogaram ele de um barranco, depois tiraram ele do barranco com uma corda”.
Foi debaixo do assoalho mencionado que estava o corpo de Pablo quando os disparos cessaram.
Rosto ferido, ossos quebrados, arma municiada
A água que caía do céu durante a noite não deu conta de apagar todo o sangue na cena do crime. Segundo relatos, esta tarefa seria dos próprios militares, antes da chegada da Polícia Civil.
“Eles pegaram os baldes que estavam perto da porta dos moradores, encheram de água e limparam a cena do crime”. Durante toda a ação, moradores que tentavam observar o que se passava na Servidão foram ameaçados por PMs.
Há um documento, entretanto, que auxilia a entender o que se passou com Pablinho a partir do momento que a polícia o avistou na Servidão Olindina Lídia da Silva. O laudo cadavérico da vítima apresenta aspectos que vão de encontro às denúncias feitas por família e comunidade. Pablo tinha ferimentos no rosto e no peito, bem como ossos do braço direito e da perna esquerda quebrados. Quatorze orifícios de entrada de projéteis estavam espalhados pelos dois lados de seu corpo, cujo exame indicava sangramentos internos em diversos órgãos.
Quando viram Pablo no caixão, seus familiares quase não o reconheceram. “Eu vi ele dentro de um caixão todo quebrado, todo desfigurado. Eles não deixaram dar banho no menino. Tanto que o guri tava com a boca toda cheia de barro, com o ouvido cheio de terra vermelha, sei lá o que era aquilo. Nem limpar o menino direito eles limparam, sabe”?
O corpo de Pablo acabar debaixo do assoalho de uma casa é um dos poucos pontos de convergência entre as versões da comunidade e da polícia. Segundo a PM, policiais estariam realizando um patrulhamento pelo morro quando avistaram Pablinho. A guarnição alega que ele estaria armado e que, num primeiro momento, teria havido uma troca de tiros. Pablo teria fugido, sendo realizado um cerco ao lote em que ele se encontrava. Ao localizá-lo, segundo relatos dos próprios policiais no Boletim de Ocorrência do caso, apenas a PM disparou, tirando a vida do jovem.
No Boletim de Ocorrência do caso, há poucas informações sobre a cena do crime. Segundo o relato da única Policial Civil ouvida para a confecção do documento, sua equipe teria chegado ao local quando este já estava com “diversas viaturas da polícia militar” e encontrado o corpo de Pablo.
O documento também relata as apreensões realizadas pela Civil na noite do crime. Teriam sido recolhidas cápsulas deflagradas dos calibres 556 e 9mm, além de uma arma supostamente pertencente à vítima. A arma em questão, ainda segundo o relato da Polícia Civil no Boletim de Ocorrência, estava com o carregador municiado – ou seja, suas munições não haviam sido disparadas.
Ninguém chega perto
O estado de exceção instalado no Morro do Horácio desde o momento da morte de Pablinho durou até a madrugada. Até a saída dos últimos policiais do morro, já depois das duas da manhã, ninguém pode se aproximar do local de sua morte. Uma barreira foi formada por cerca de 20 PMs pouco acima da igreja, na esquina da viela onde Pablo morreu.
Na multidão que tentava pedir informações aos policiais, estava uma das avós do jovem. Inconsolada, se recusava a acreditar que o neto havia sido baleado. “Não é o Pablo, né? Não é…” Àquela altura, vídeos gravados após os disparos circulavam pela comunidade, afirmando que a vítima era Pablinho. Porém, a polícia não havia confirmado a identidade da vítima.
Naquela noite, uma moradora sem parentesco com a vítima, foi quem engrossou o tom do protesto. No morro, quando uma mãe perde um filho, todas as mães sentem a dor.
“Matar é a lei do Brasil pra quem mora em morro! A gente que é pessoa de bem não pode passar, a lei é essa! Que falta de respeito! Quem mora em morro é bandido agora? Todo mundo aqui? Não pode passar agora! Vocês mandam na rua? O trabalho de vocês é cumprir a lei, é fazer a coisa certa. Aqui mora pai e mãe de família, a gente também paga imposto! Aqui ninguém é bicho não, aqui também mora trabalhador que trabalha lá embaixo limpando chão de rico! Lá embaixo vocês não vão assim, com esse esculacho todo. Falaram que foi o neto dela baleado e ela não pode ir ver? Por que?”
Os moradores que tentavam mais informações próximo à barreira policial denunciam que também foram violentados, havendo relatos de disparos de tiros de borracha e spray de pimenta. A comunidade conta também que uma pessoa foi atropelada por uma viatura. Além disso, houveram deboches direcionados a familiares da vítima e intimidações a moradoras: “Estão mandando tomar no cu e tudo, chamando de galinha”.
Pessoas que buscavam atendimento médico, incluindo crianças, tiveram suas saídas do morro dificultadas. A parte baixa do morro também foi cercada. Segundo moradores, uma ambulância do SAMU ficou por ali até que a polícia autorizasse sua subida.
“Deixaram o guri agonizando até a última. Desnecessário isso. Eles já estavam ali para salvar a vida. Mas um médico vai discutir com um policial armado?”, questiona um familiar.
O relato de um dos PMs envolvidos no Boletim de Ocorrência do caso confirma que o SAMU chegou ao local da morte de Pablo “após a situação controlada”. Pablinho, a esta altura, já estava morto. “Não ficaram nem um minuto lá em cima, só chegaram e desceram”, denuncia uma testemunha.
A mochila que não sobe mais o morro
Quando a polícia mata alguém, é apenas o começo da dor. A partir daquele momento, são várias as batalhas travadas pela família para compreender o que se passou com seu ente querido. Muitas destas batalhas envolvem a burocracia do Estado, sendo o acesso à documentação um grande entrave na luta por justiça. No caso de Pablo não foi diferente, mas o processo teve uma singularidade: um dos responsáveis pela produção de um desses documentos conhecia a vítima.
“Meu Deus, eu não acredito que é ele! Então é por isso que essa semana eu não vi ele subindo com a mochilinha dele. Todo dia, quando dava o horário de seis horas, ele tava subindo lá, vindo da obra”, relatou o servidor a um dos familiares.
A família de Pablinho nunca ouviu reclamações do jovem na escola, onde ele ficou até a 6ª série. Largou os estudos aos 15 anos de idade para trabalhar como servente de pedreiro – profissão que ainda exercia. Esta, aliás, é uma imposição histórica a seu território.
Boa parte dos homens do Morro do Horácio trabalham ou já trabalharam na construção civil. Foi assim com o avô, o tio e o irmão mais velho de Pablo. Era com eles que o jovem ia aos canteiros de obra. Quatro anos depois de iniciar a jornada, trabalhava também com serviços de pintura, mas o ritmo nem sempre era constante. “Tinha semana que era a semana inteira, mas tinha semana que já não tinha dois ou três dias. Mas na outra já era semana cheia de novo”, lembra sua mãe.
Pablinho viveu uma infância comum, soltando pipa e jogando bolinha de gude pelos becos do Horácio. Ao final da infância, começou a fumar maconha. Segundo relatos da família, isto acabaria culminando em um fato amplamente divulgado pela mídia comercial e pela polícia logo após sua morte: Pablo tinha passagens policiais, acusado de tráfico de drogas.
“Fui tirar ele da custódia e tinha dez reais num envelope e o isqueiro dele. Era o dinheiro que ele foi pegar a maconha dele”, conta sua mãe. Com as passagens, começou a perseguição, seguindo o modo operante da polícia nas quebradas de Floripa. Um jovem periférico que já teve as mãos algemadas nunca mais dorme em paz.
“Teve um dia que eles pegaram o Pablo chegando cansado do serviço e deixaram o guri pelado dentro do banheiro, com a mão pra cima, dizendo: ‘Avisa pra tua mãe que a próxima vez que a gente botar a mão em cima de ti, ela só vai te ver dentro de um caixão’”.
A última apreensão de Pablinho aconteceu em 27 de outubro de 2024, cerca de um mês antes de sua morte. Aquela foi também a data da ameaça final. “Quando eu tirei ele da audiência de custódia, falaram a mesma coisa, dizendo que era pra eu tirar ele do morro porque eu ia ver ele só dentro do caixão”.
Foi o que aconteceu.