Demolição sumária: Prefeitura de Florianópolis destrói nove casas na Favela do Siri

Ação articulada do município ocorreu sem aviso prévio para os moradores e contou com forte repressão policial 

Reportagem de Gabriele Oliveira e Rodrigo Barbosa

Quinta feira, 29 de janeiro, 13h, cerca de 34ºC. Fluxo intenso de carros na Estrada Dom João Becker, uma das principais vias dos Ingleses, bairro localizado no Norte da ilha. Motos e bicicletas avançam pelos corredores, dezenas de pedestres circulam nas calçadas. Entre moradores locais e turistas, o traje de banho é o dress code

Naquele dia, enquanto a vida no asfalto seguia a normalidade, alguns detalhes sinalizavam divergência. Entre a multidão de carros, viaturas da Polícia Militar de Santa Catarina destoavam do cenário. Em meio ao trânsito, se destacavam veículos das Táticas da PMSC, da Polícia Civil, Guarda Municipal e Batalhão de Choque.

No ar, um helicóptero com plotagem nas cores da bandeira do Estado sobrevoava a região. Em uma rua lateral à Estrada principal, um caminhão da Cavalaria estava estacionado. Nada disso impactou os moradores do asfalto. Mas, a poucos metros dali, aquela quinta-feira cotidiana se transformou em marco de medo e violência para milhares de pessoas.

Caminhando pela rua Ruth Pereira, a cada passo, vemos a utópica Ilha da Magia dar lugar a uma Florianópolis real e concreta, onde o preço do metro quadrado disputa com a comida no prato do trabalhador. As pousadas e hostels enfeitados vão, aos poucos, dando lugar à simplicidade das casas cor de cimento e telhados de brasilite. 

Ali, a presença de cada viatura foi sentida. A cada rua que entramos, vizinhos e familiares estavam reunidos, partilhando o mesmo olhar de tristeza e raiva. Ao redor, pilhas de madeira e alvenaria eram tudo que sobrou de suas casas.

Enquanto os moradores do asfalto iam e voltavam da praia, os moradores da  Favela do Siri viam o aparato de segurança pública do Estado levar ao chão, sem aviso prévio, os sonhos de dezenas de famílias. 

A comunidade do Siri após ação de demolição sumária da Prefeitura de Florianópolis. Foto: Rodrigo Barbosa

Histórico de opressão

No verão, o Norte da Ilha fala espanhol. A região é a favorita dos centenas de milhares de turistas estrangeiros que visitam a alta temporada de Florianópolis todos os anos. 

Por conta das praias, resorts e condomínios, é comum que a região seja relacionada à riqueza. Um prato cheio para a especulação imobiliária – que avança com prédios de luxo em meio às dunas e áreas de restinga da região.

Mas para que os turistas se divirtam, é necessário quem trabalhe. Do outro lado da areia, a realidade é outra. Sem acesso a direitos fundamentais e constantemente ameaçada pelo Estado, a Favela do Siri resiste há 40 anos aos pés das dunas dos Ingleses. Diariamente, enxergam de suas janelas aqueles que não os desejam ali.

Esse pessoal, aqueles rico lá, não quer essa vila aqui. Essa é a real. O pessoal dali tá lutando pra tirar a gente daqui. Tu vê os condomínio lá”.

As políticas públicas seguem o dinheiro. De acordo com moradores, o Siri é lar de cerca de 3 mil famílias, o que a torna uma das maiores favelas do Norte da Ilha. Mas isso não faz com que o governo dedique parte de sua atenção para aquelas pessoas. O Poder Público nega água, energia elétrica e saneamento básico. Não há projetos da Prefeitura para atender nem mesmo as crianças do Siri, que encontram dificuldade em achar vagas na creche no bairro. 

O único braço do Estado presente no território é aquele que está presente em todas as outras favelas da cidade de Florianópolis: a polícia. Além de ter, ano após ano, seus direitos fundamentais negados, a comunidade do Siri viu oito jovens serem mortos pelo Estado em seu território desde 2016 – e segue, diariamente, convivendo com batidas e operações policiais.

A promessa de regularização fundiária é antiga: várias casas da comunidade, em sua maioria feitas de madeira, já foram numeradas pela Prefeitura há anos. Desde então, os moradores do Siri vivem numa expectativa por moradia digna que até hoje não foi cumprida.

O desejo do Estado é outro.

Eu moro aqui há mais de 20 anos e sempre foi essa história aí. Vamos tirar vocês, vamos tirar vocês! A máquina vinha e derrubava. Aqui sempre foi assim. Pra dar uma mão pra gente é raro, mas pra tocar nós…”.

O mesmo Poder Público que ignora violações ao meio ambiente no Norte da Ilha cometidas por resorts, beach clubs e condomínios de luxo, escolhe a população pobre como alvo de denúncias ambientais. Despejos são comuns desde a fundação da Favela do Siri. Só em 2017, 35 residências viraram poeira de uma só vez.

Na quinta-feira, 29 de janeiro, os moradores do Siri presenciaram mais um capítulo desta história. Naquela manhã, prefeitura e polícia transformaram a comunidade num cenário de guerra.

Além de demolir, oprimem as pessoas. Não podemos nem sair de casa, ir e vir. Quem passa por lá, eles apontam a arma e mandam sair”.

Projétil disparado pela PM contra moradores do Siri. Foto: Rodrigo Barbosa

O choro de duas mães

Uma mãe solo foi uma das vítimas do Estado na ação no Siri. Vive sozinha com duas filhas menores de idade em uma casinha de madeira cuja estrutura já não oferece segurança para as três. Nos últimos meses, esticou as jornadas de trabalho até tarde da noite para que um novo lar se erguesse ao lado da antiga casa. 

Na verdade, a situação da minha casa… ela tá velha. Tá caindo, nem a porta tá segurando. Eu tava construindo aqui do lado pra poder trocar de casa. Daí, chegou hoje, eles vieram e derrubaram. Eu expliquei, mostrei a situação, mandei eles entrarem aqui dentro pra eles verem a situação de como tá essa aqui”.

A moradora ainda argumentou com Prefeitura e polícia que era registrada pelo município como uma das várias famílias do Siri a ter sua situação regularizada. A resposta de um policial veio com deboche: “Ah, fala com a minha mão”. As duas crianças da família estavam presentes durante toda a ação.

O sonho de moradia digna, construído ao longo de meses, foi destruído em minutos. “Não se importam com nada, simplesmente falaram que iam derrubar e deu. Derrubaram. E aí… Só faltava cobrir”.

Antes mesmo de chegar àquela casa, o Estado já deixava rastro de destruição pelo caminho. Aquela região do Siri não tem abastecimento de água. A solução provisória foi criada pelos próprios moradores: uma bomba conectada a uma caixa d’água localizada na região mais baixa da comunidade conseguia levar água à parte mais alta, garantindo o acesso a todos os moradores. 

Mas o Estado, além de ausente, é cruel. Além de negar o direito básico, também desmantela as estratégias de sobrevivência criadas pela articulação comunitária: no início da violenta ação de despejo, um trator destruiu intencionalmente a caixa d’água. 

Diante da destruição, a comunidade se revoltou. A resposta do Estado à reivindicação dos moradores por direitos fundamentais foi mais violência. Neste momento, dispararam tiros contra a população. Uma segunda mãe foi atingida na barriga por um disparo de borracha. 

Moradora do Siri foi atingida por tiro da PMSC. Foto: Rodrigo Barbosa

O som dos disparos foi captado em um vídeo feito por um morador. É possível ver que, antes do barulho, moradores caminhavam em direção à casa que estava sendo demolida, mas não ameaçavam as forças de segurança. De repente, ouve-se os estalos. 

Olha os tiros! Estão dando tiro! Estão dando tiro! Vamos morrer”!

Tá rolando tiro aqui, querem dar paulada, querem fazer e acontecer com as pessoas aqui. Pelo amor de Deus”. 

A população que caminhava pelas ruas da comunidade começou a correr em desespero para tentar se salvar. Os tiros não eram a primeira violência física que a comunidade sofria naquela manhã. Um adolescente já havia recebido um chute de um policial logo após ir ao chão por ter sido atingido por spray de pimenta no rosto. Uma série de moradores foram agredidos durante abordagens também realizadas pelas forças policiais.

Ó lá, estão batendo lá, ó! Estão agredindo, pra que agredir? Não precisa agressão cara, ele só tava reclamando do fio, que cortou a energia. Só porque o cara reclamou do fio”. 

Além do corte de água, a Favela do Siri ficou sem energia durante toda a quinta-feira. Há vários registros de tratores derrubando postes e fios de energia em todo o território. Na parte da tarde, quando nossa reportagem foi ao local, a destruição da rede elétrica do Siri ainda era visível. 

A justificativa dada pelos policiais presentes na ação era de que “os fios eram todos roubados”. A violência não poupou nem os mais vulneráveis: uma moradora que necessita do auxílio de aparelhos para respirar precisou ser socorrida pelos vizinhos após ficar sem energia em sua casa.

Ela tava dependendo de aparelho e eles demoliram os fios. Ainda falaram que ela ainda tinha tempo pra respirar. Os moradores tiveram que ficar correndo atrás de extensão pra conseguir ligar a extensão de uma baia na outra”.

Mãos na parede

Sentada em uma cadeira de plástico, uma jovem negra olhava para os destroços de sua casa. O sonho recém conquistado se tornou um amontoado de entulhos. Sem saber o que fazer, lamentava não ter conseguido ao menos recuperar sua geladeira e máquina de lavar – agora destruídos e amassados entre os escombros.  

Eles fizeram de propósito. Quem olha assim, parece que a minha casa era enorme, mas não era. Eles espalharam para parecer que a casa era enorme. Era só um cômodo, só um vão”.

Dois irmãos observavam a cena de dentro de casa, a dezenas de metros de distância. Seus pais já haviam saído para trabalhar. Entrar na residência foi a maneira que encontraram para tentar se proteger mão violenta do Estado. Mas, quando a destruição da casa da vizinha terminou, eles viraram o alvo. 

Nós tava aí dentro. Aí mandou nós descer. Nós tava aí dentro. Descemos e colocamos a mão na parede. E eles quebraram a casa”.

Os irmãos integram uma família recém chegada em Florianópolis. Naturais de Manaus (AM), mãe, pai e seus cinco filhos migraram para a Ilha da Magia em busca de melhores condições de vida. Chegaram no segundo semestre de 2025 e moravam de favor na casa de um pastor da comunidade, enquanto a casa própria não ficava pronta. Na quinta-feira, faltavam apenas três dias para a mudança. Os tratores chegaram antes. 

Horas depois da demolição, a voz do jovem negro de 18 anos ainda estampava o medo vivido durante a abordagem sofrida. Nem mesmo o irmão mais novo, de apenas 9 anos, escapou da polícia. 

Até ele tava com a mão na parede aqui. Eu fiquei horrorizada. Trataram como se fosse bandido, até a criança! Ainda eu fui lá ver se eu achava a mãe dele, mas a mãe dele tava trabalhando. Como eu não sou responsável, não pude vir tirar a criança”, lembra uma moradora.

Vinte minutos mais tarde, o trabalho de meses estava no chão e sete pessoas de uma mesma família ficaram sem ter onde morar. A carcaça de uma geladeira no topo da duna que fica atrás da casa era o sinal de que a mudança da família já havia começado. Entre a sexta e o sábado, colocariam as telhas e levariam o restante dos pertences. No domingo, começariam de fato sua trajetória na Ilha da Magia, tendo um espaço só para si. Com a destruição, ainda não sabem o que será do futuro dos seus.

Moradores do Siri relatam que, além das casas, o próprio Estado foi responsável por danificar áreas de restinga nessa região da comunidade. O trajeto entre a residência da jovem negra e a da família manauara foi realizado por cima das dunas, deixando um rastro de destruição pelo caminho. Poucos metros à frente, muros de contenção feitos pela comunidade e hortas de moradoras também encontravam-se destruídos. 

O tesouro da pequena

Uma das famílias atingidas pela ação de despejo é antiga moradora do Siri. Vivem ali há tempo o suficiente para que o contato com a areia, somado à umidade do mar e das chuvas danificasse o piso da residência de madeira. Quando o chão começou a afundar, a solução foi subir uma casinha de alvenaria ao lado, ainda dentro do terreno cercado da família. 

Pô, cara, ao invés de derrubar a minha casa, derruba essa casa de madeira aqui. Meu piso tá todo afundando, como é que eu vou ficar com a minha família dentro de uma casa daquela ali? Eu fiz essa nova pra ficar nessa aqui”.

A casa possuía quatro pequenos cômodos: um quarto para o casal, um para sua filha, um banheiro e uma sala/cozinha. Ao contrário do que afirmou a Prefeitura, tratava-se de uma residência já habitada. O braço de um sofá marrom em meio aos escombros era a evidência mais visível. Foi por aquela pequena fresta que o pai começou a procurar pelos pertences da filha. 

Os braços que ergueram aquela casa agora retiravam, fragmento a fragmento, os tijolos e telhas que custaram anos de trabalho. Suas mãos e pés estavam tingidos de branco, provavelmente numa mistura entre a areia das dunas e a poeira da destruição. “Olha a bolsa ali”. Com cuidado, retirou as últimas pedras que ainda escondiam uma mochila de couro preta empoeirada. Ao abri-la, um tesouro cor-de-rosa se revelou.

Pra tu ver. Como é que não morava ninguém? Os brinquedo da minha filha aí. Deve ter mais aqui embaixo”. 

Para aquela família, o primeiro passo da reconstrução é tentar resgatar o que não foi destruído quando as paredes da casa nova desabaram. Durante a demolição, a antiga casa de madeira da família também foi danificada por um trator. Além do piso, agora também a parede está quebrada e os moradores dali, incluindo a criança, terão que conviver com ainda mais água e areia. 

Parede danificada durante a demolição. Foto: Rodrigo Barbosa

O segundo passo é recomeçar do zero. Reconstruir, sem a certeza de conseguir ocupar. 

A outra moça ali não deixaram também nem pegar o documento pra mostrar da dela ali. Chegaram na arrogância, né, cara? A gente vive no sacrifício. Eu tenho que trabalhar de novo, irmão. Trabalhar de novo e reerguer a casa. A comunidade ajuda”.

Vinte dias

No Siri, como em qualquer outra favela, partes de uma mesma família se espalham por diferentes casas do território. Um dos becos do Siri é ocupado praticamente por uma única família há cerca de dez anos. Bem no coração desta região, uma casa também ficou pelo caminho. 

Aquela foi uma das primeiras casas a serem demolidas na operação no Siri, ainda antes das 10h da manhã. Boa parte da família encontrava-se no local. “Nós tava todo mundo aqui, cara. Até quem tava saindo pra trabalhar, voltou. Geral aí. Opressão do caralho”. 

Escombros de uma casa demolida no Siri. Foto: Rodrigo Barbosa

Este foi mais um caso em que as condições de uma residência antiga motivaram a construção de uma nova com a fundação reforçada. Mas, neste caso, a nova casa estava sendo erguida exatamente em cima da antiga, que foi derrubada após ser invadida por 50 centímetros de água. Os próprios familiares eram responsáveis pela reforma. 

A demolição foi filmada por moradores. É possível ver o trator da Prefeitura esmagando o chão da residência, certificando-se que este não poderia ser recuperado depois. Ficou em farelos. Também é possível ver o trator destruindo mais uma caixa d’água. Nos escombros da residência, repousavam os fios de energia da rua que foram cortados. 

Um dos familiares chegou a dirigir-se ao repórter de uma TV que estava na comunidade durante a ação violenta. A polícia não deixou que o repórter se aproximasse. Jornalistas de veículos comerciais estavam no local vestindo coletes e acompanhavam a polícia. Segundo moradores, foram convidados pela Prefeitura para registrar sua versão dos fatos. 

A reportagem tá aqui, mas estão aqui pra fazer foto da polícia. Estão ali, a polícia tá até fazendo posezinha pra foto, com cavalo e tudo”.

A vizinhança desta casa segue em alerta mesmo uma semana após a ação de despejo realizada pela Prefeitura. Ao menos uma dezena de famílias daquela região da comunidade receberam notificações sobre supostos crimes ambientais cometidos. 

O pessoal ali também assinou. Do jeito que tava, não tinha como não assinar. Cheio de polícia, como é que não vai assinar? O pessoal todo apavorado. E é aquele negócio: se não sai de dentro de casa, eles pegam as crianças pelo braço e pronto”. 

Estas famílias receberam um prazo de 20 dias para tentar regularizar suas casas frente à Fundação Municipal do Meio Ambiente (FLORAM) – sob pena de uma nova sequência de demolições. Até lá, no que depender da Prefeitura, ficarão sem água e luz. 

Se vieram te dar um papel que nem me deram, com vinte dias pra regularizar ou contratar advogado… por que que cortaram a água, cortaram a luz, deixaram nós sem isso aí”?

Moradores ainda denunciam que as casas sob nova ameaça de despejo já seriam registradas pela Prefeitura há cerca de quatro anos. Nossa reportagem constatou que, de fato, ao menos parte das residências já contava com a numeração do Município.

Estado de destruição

O dinheiro que eles investiram, toda estrutura que eles investiram pra vir aqui demolir as casas… Se tivesse catado o dinheiro e construído casa pra esse povo, eles tinham tirado esse povo daqui sem nenhum transtorno”.

Um dia antes das demolições no Siri, a prefeitura de Florianópolis pré-contratou uma empresa para executar demolições. O valor para que a empresa ficasse à disposição do município nos próximos 12 meses foi de R$ 1,58 milhão. 

O contrato prevê, além da demolição, a remoção, transporte e destinação final dos materiais resultantes das demolições executadas. Este último acordo contratual foi descumprido pelo Município, visto que os escombros resultantes da operação ficaram no Siri – cabendo inteiramente aos moradores o processo de limpeza dos locais.

A Secretaria Municipal de Segurança e Ordem Pública, responsável pela contratação, afirmou que somente “construções inabitadas, ou seja, as que não configuram moradia, são demolidas”. Não foi o que aconteceu no Siri – onde pertences de pessoas se encontravam em vários dos imóveis.

O dinheiro público, arrecadado por meio de impostos pagos por toda a população, ao invés de ser investido em políticas públicas para toda a população, é usado para destruição, negando aos moradores do Siri o direito à moradia digna. 

Segundo a Prefeitura, as casas demolidas na última semana foram mapeadas pelas forças de segurança (e não pela própria Prefeitura). O Município ainda confessa que as demolições realizadas foram sumárias – ou seja, não contaram com aviso prévio aos moradores, que, por consequência, não tiveram direito à defesa e contraditório. 

O fato de as casas estarem, na versão da Prefeitura, em Área de Preservação Permanente (APP) seria o motivo para a ausência das notificações – mesmo que as casas em questão não apresentassem risco iminente, como contaminação do solo e da água, ou áreas de encosta.

Cerca de uma semana antes da ação violenta, a Prefeitura de Florianópolis publicou um pregão com o objetivo de contratar uma empresa para realizar um Estudo Técnico Ambiental, no intuito de basear um futuro programa de regularização fundiária das famílias do Siri. A Prefeitura afirma que apenas imóveis que não ultrapassem os limites de APP serão atendidos. Não foi informado um cronograma para que a expectativa da comunidade por moradia digna seja enfim cumprida.

Até lá, para além da violência do Estado, os moradores do Siri seguirão também vivendo com o preconceito. Não é a primeira promessa da Prefeitura: entre 2004 e 2005, tentativas de realocar as 165 famílias que viviam na comunidade naquela época, foram frustradas após movimentações contrárias de moradores dos bairros onde as novas moradias seriam construídas. Um abaixo-assinado com mais de 5.000 assinaturas criticava a chegada dos moradores do Siri no bairro Vargem do Bom Jesus, localizado na entrada do balneário Ingleses. 

No momento, os moradores atingidos pelas demolições sumárias ou notificados com aviso de demolição buscam na articulação comunitária sua base na reivindicação por direitos. Ao longo da semana, setores da Câmara de Vereadores e da Defensoria Pública enviaram ofícios à Prefeitura de Florianópolis cobrando explicações e requerendo os documentos que basearam a ação violenta praticada em 29 de janeiro.

Colaborou com esta produção Paulo Batistella, da Ponte Jornalismo

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