Polícia Militar de Santa Catarina mata cachorro com tiro de fuzil na Favela do Siri, em Florianópolis

Crime acontece em contexto de escalada da repressão policial na comunidade após demolições sumárias e reacende debate sobre maus-tratos

Reportagem de Gabriele Oliveira e Rodrigo Barbosa

Orelha era um cão comunitário que vivia na Praia Brava, no norte de Florianópolis, há quase uma década. No início de janeiro deste ano, o cachorro ficou desaparecido por dias, até ser encontrado por uma moradora, caído e agonizando. Apesar de ter sido socorrido, devido a gravidade de seus ferimentos, Orelha foi submetido à eutanásia.  

Denúncias apontam que o cachorro foi atacado por um grupo de adolescentes que o espancaram e torturaram. A gravidade do caso gerou comoção nacional: centenas de artistas se juntaram ao movimento #JustiçaPorOrelha, que mobilizou manifestações em diversas cidades brasileiras. 

O caso Orelha coloca a violência de adolescentes em discussão, aprofundando um crescente debate sobre como a crueldade é normalizada, e até mesmo estimulada, na criação de meninos. Expõe, também, pelas falhas em sua investigação, as engrenagens engessadas de um sistema judiciário que opera em servidão ao Estado – este, regido por políticas violentas. 

Mas o que acontece quando esta violência está nas mãos armadas do próprio Estado? Quando ele age como júri e executor? Quando o Estado não é apenas o cúmplice, mas sim o autor da crueldade? 

A quem recorrer quando quem devia servir é proteger é quem causa a dor? 

Cria do Siri

Alemão era uma mistura de pitbull e vira-lata caramelo. Pet cria de quebrada. Vivia numa casa que, além dos tutores, abrigava mais quatro cães e seis gatos. Mas era comum vê-lo fora dos limites de sua residência.

O temperamento dócil do filhote de um ano e meio fazia com que sua família o deixasse solto a maior parte do tempo. Quando algum morador da casa ou criança da vizinhança ia ao mercado, Alemão ia junto. 

Ele era muito mansinho, a comunidade inteira brincava com ele. Eu deixava ele solto porque ele ia com as crianças, brincava e voltava”.

Alemão era um filhote de um ano e meio de idade. Foto: Arquivo pessoal

O último passeio de Alemão aconteceu na última quarta-feira. Eram pouco mais de 22h quando sua tutora pediu para o filho ir ao mercado comprar ingredientes para a festa de aniversário de um vizinho, que aconteceria no dia seguinte. Alemão logo seguiu o jovem, que foi ao mercado acompanhado de mais um amigo. 

As ruas do Siri ainda estavam movimentadas perto das 22h30. A onda de calor do verão de Santa Catarina tem feito a sensação térmica superar os 40º na cidade de Florianópolis. No Siri a situação costuma ser ainda pior. O calor da areia quente, a falta de isolamento térmico na maioria das construções e os constantes cortes de água e luz fazem com que parte dos moradores aproveite a brisa noturna do litoral para só entrar em suas casas quando chega a hora de dormir.

Ou, quando chega a polícia – como aconteceu naquela noite. 

A rua tava bem tranquila. Tava muito quente, tinha bastante gente caminhando na rua, na frente das suas casas. Não teve como ninguém filmar porque foi muito rápido. Do nada, a viatura entrou metendo bala”.

Uma viatura marrom da Polícia Militar chegou à Servidão Floresta, uma das principais vielas do Siri, em alta velocidade. Policiais desceram do veículo com os rostos cobertos por balaclavas. A rua cheia e a presença de crianças não importaram. Munidos de fuzis, abriram fogo contra a população. 

Todos saíram correndo em desespero, incluindo o tutor de Alemão e seu amigo. O cachorro acompanhou a dupla. Naquela noite, como em várias outras, meninos jovens eram o alvo da guarnição. 

Como teve a viatura dando tiro, as crianças correram e o cachorro correu junto. Só que esse tiro era pra acertar no filho da minha amiga. Errou e pegou nele. O tiro era pra acertar na perna dos meninos, não seria o primeiro que iria acontecer isso“.

Enquanto continuava a perseguição da polícia a jovens da comunidade, o pequeno corpo do cachorro seguia imóvel no chão de areia. Atingido na barriga por um disparo de fuzil da Polícia Militar de Santa Catarina, Alemão morreu na hora. 

Sua tutora saía para o trabalho quando tudo aconteceu. Ouviu os disparos assim que chegou na divisa entre a favela e o asfalto. Voltou correndo e encontrou o cadáver de seu cachorro na rua. A guarnição de Patrulhamento Tático do 21º Batalhão, responsável pela morte, havia desaparecido da cena do crime com a mesma velocidade em que apareceu.

Sem saber a quem recorrer, restou à família enlutada enterrar o cachorro. 

Estamos tristes. O que vamos fazer? Não tem a quem recorrer, não tem o que fazer. A gente vai lá fazer alguma coisa, falar alguma coisa, eles riem da nossa cara. Não tem onde recorrer“.

Estado de Retaliação 

A operação policial da noite de quarta-feira não foi uma ação isolada. A Favela do Siri é uma das mais afetadas pela opressão do Estado na cidade. Oito jovens foram mortos desde 2016 naquele território, que também já havia visto um cachorro ser morto atropelado por uma viatura que chegou em alta velocidade na comunidade anos atrás.

Mataram o cachorro de uma amiga, atropelando. Eles vêm com a viatura muito rápido. Comunidade geralmente tem criança e tem cachorro no meio da rua. Eles vêm muito rápido, não estão nem aí. Como eles falam, se atropelar, morrer, morreu”.

Porém, apesar de ser constante no território, muitos moradores acreditam que a violência nesse começo de 2026 intensificou-se após uma manifestação pacífica realizada pela comunidade. 

No fim da tarde de 29 de janeiro, dezenas de moradores vestiram camisas brancas e ocuparam o “centrinho” do bairro dos Ingleses, uma das áreas mais turísticas de Florianópolis, para reivindicar paz e moradia digna. Naquela mesma manhã, haviam sido vítimas de uma ação de demolição sumária que deixou quase uma dezena de famílias sem casa e a comunidade inteira sem luz e água.

Demolição sumária no Siri em 29 de janeiro. Foto: Rodrigo Barbosa

A operação de demolição, realizada pela prefeitura, contou com um enorme contingente policial e deixou vários moradores feridos. Há registros de moradores sendo agredidos no chão, mulheres recebendo spray de pimenta no rosto e de disparos de borracha sendo feitos contra a população. Uma mulher foi baleada pela polícia na manhã de 29 de janeiro. 

A população do Siri foi novamente vítima de violência durante sua manifestação pacífica – que foi reprimida por agentes de segurança, no final daquela tarde. O protesto foi acompanhado por policiais munidos de fuzis e por um helicóptero da PM. Os moradores do Siri foram expulsos do local à base de spray de pimenta. Desde então, registros feitos por policiais na manifestação estariam sendo mostrados por agentes a moradores como forma de intimidação. 

Todo mundo tava na manifestação! Vão matar a comunidade inteira? Porque todo mundo quer um pouco de paz. É complicado, depois da manifestação a nossa situação está crítica“.

As semanas seguintes foram marcadas por ameaças, enquadros violentos e invasões domiciliares. Segundo fontes ouvidas por nossa reportagem, a comunidade do Siri tem convivido com até dez batidas policiais por dia. Como há apenas uma entrada para o território, isso tem impactado fortemente a rotina de seus moradores. 

Na noite em que Alemão foi morto, um jovem de 19 anos foi espancado e preso – segundo testemunhas, sem ter nada de ilícito consigo. Disparos de fuzil foram realizados no interior de uma casa onde vivem uma mãe e três crianças – uma delas, autista. Uma outra moradora foi ameaçada de morte com uma arma na cabeça. 

Chamaram ela de vagabunda, é bem essas palavras. E mandaram ela se afastar porque senão iam dar um tiro na cabeça dela“.

Passaporte eleitoral

A causa animal tornou-se uma das principais áreas de interesse de políticos Brasil afora. Responsável pelos despejos sumários da comunidade do Siri, o prefeito de Florianópolis, Topázio Neto, é um exemplo disso. Antes de inundar suas redes sociais com imagens de abordagens a pessoas em situação de rua, Topázio tinha nas imagens de pets da Diretoria do Bem-Estar Animal (Dibea) um de seus principais ativos para engajar os seguidores. 

Mesmo não se manifestando publicamente sobre o brutal crime cometido contra o cão Orelha na Praia Brava, o prefeito resolveu prestar uma homenagem ao cachorro no fim do mês de janeiro. Ao lado da influenciadora Luisa Mell, anunciou na sede da Dibea que a cidade teria um novo Hospital Veterinário, com o nome do cachorro assassinado. 

Enquanto o prefeito grava tiktoks, a própria Dibea enfrenta uma série de denúncias de precarização e superlotação. Em junho de 2025, o Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) realizou uma vistoria para averiguar as condições de abrigo, alimentação, tratamento, higiene, estrutura e atendimento prestado aos animais acolhidos. 

Animais foram encontrados em gaiolas pequenas, sem ventilação ou luz natural – alguns, inclusive, em banheiros. No local, o MP também constatou a falta de medicamentos, além de uma série de medicações vencidas. 

Ulisses Gabriel, delegado da Polícia Civil responsável pela investigação do caso Orelha, é mais um que tem usado a causa animal como passaporte eleitoral. Pré-candidato a deputado estadual, o delegado adotou um cachorro caramelo que foi vítima de violência na mesma noite que o cão Orelha. Ganhou mais de 75 mil seguidores só no mês de janeiro. Logo depois, sua investigação passou a ser questionada a nível nacional.

Atualmente, Ulisses é alvo de um procedimento preparatório do Ministério Público que apura a conduta do chefe da Polícia Civil na investigação do caso do cão Orelha. A ação da 40ª Promotoria de Justiça busca respostas a algumas lacunas no inquérito da investigação, que resultou no pedido de internação de um adolescente. 

As novas diligências solicitadas pelo MP incluem novos depoimentos presenciais de um porteiro e um vigilante, testemunhas do caso. Entre as condutas investigadas pelo MP, estão crimes de abuso de autoridade e violação de sigilo funcional. Ulisses também deverá ser investigado por ato de improbidade administrativa, por utilizar da publicidade oficial para promoção pessoal.

As pretensões eleitorais do delegado são antigas. Ele já havia concorrido ao cargo de deputado estadual em 2018 e ao cargo de prefeito da cidade de Orleans em 2020 – mesmo ano em que chegou a ocupar uma cadeira na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) para suprir a licença de um deputado. 

Nos últimos anos, várias ações de Ulisses à frente da Polícia Civil foram apontadas como tendo interesse político. Em 21 de maio de 2025, por exemplo, o delegado foi às redes sociais e à mídia comercial denunciar que havia sido vítima de uma tentativa armada de roubo no Morro do Horácio, comunidade localizada no Maciço do Morro da Cruz, na região central de Floripa.

Dias após o circo criado pelo delegado, imagens do caso vieram à tona. No vídeo, é possível ver que o carro descaracterizado da Polícia Civil não foi abordado por ninguém, como havia sido relatado. Pelo contrário, ele passa por dois jovens e dá meia-volta. O delegado Ulisses sai do carro e começa a atirar na direção dos jovens, que saíram correndo. 

Mesmo assim, o caso segue sendo tratado pelo Estado e pela mídia comercial como um ataque de traficantes ao delegado. Desde então, o Horácio tem sido palco constante de incursões policiais oficialmente justificadas pelo suposto crime cometido contra o policial civil. Um jovem de 24 anos morreu em uma das operações policiais realizadas no período, em 24 de junho. Ao menos mais dois jovens foram presos por envolvimento no suposto crime – um deles em dezembro, mais de seis meses após o incidente.

Se por um lado, pets são utilizados como plataforma eleitoral por agentes do Estado, a violência policial contra animais não é novidade em Florianópolis. Além de Alemão e do cachorro atropelado na comunidade do Siri, há registro de um cachorro baleado no Morro do Mocotó. O caso aconteceu na noite de 4 maio de 2020, quando o 4º Batalhão da Polícia Militar disparou tiros no morro em retaliação a uma manifestação contra a violência de Estado. 

Um dia após o crime cometido contra Alemão, outro cachorro foi vítima de violência policial. Na entrada da Vila Cachoeira, comunidade localizada no bairro Saco Grande, um agente da Polícia Militar Rodoviária disparou contra um cachorro durante uma abordagem realizada a seu tutor. De acordo com a polícia, o animal não teria sido atingido.

A PMSC não respondeu nossos questionamentos acerca da morte do cão Alemão até o fechamento desta reportagem.

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