Retomada ancestral: escolas de samba resgatam raízes negras do Carnaval em Florianópolis 

Sediadas no Maciço do Morro da Cruz, Dascuia e Protegidos da Princesa trazem enredos que celebram a potência das periferias na capital catarinense

Reportagem e fotografias de Rodrigo Barbosa e Warley Alvarenga

No auge de seus 90 anos, Valdeonira Silva dos Anjos tem olhos e memória de dar inveja a muito jovem. Em meio à correria para o Carnaval de 2026, um dos mais agitados de sua vida, transforma cada entrevista que concede em uma verdadeira aula.

Nas páginas de uma agenda de capa azul, transcreveu parte de um texto chamado Antigos Carnavais. O fragmento do livro foi achado no lixo por uma amiga de Valdeonira e, desde então, tornou-se um de seus tesouros mais recentes. 

Antes de começar a falar sobre a sua própria vida, Dona Val faz questão de falar sobre a história da festa que ela hoje protagoniza. Cerra os olhos e começa a ler o que transcreveu de próprio punho – num ritmo calmo, natural de uma eterna professora. 

Conta que, há 10 mil anos, camponeses contentes festejavam sua colheita com rituais coloridos e movimentados, usando máscaras e fantasias. Diz que o efeito dos corpos e almas atravessaram tempos e culturas, tornando-se tradições de todas as sociedades. Festejos comemoravam todo evento que justificasse um Carnaval.

Em seguida, a matriarca lamenta o rumo que parte dessa história levou. Lembra que a Igreja quis ditar as regras e mudou o caráter da festa pagã, que passou então a ser comemorada sete domingos antes da Páscoa. O Carnaval tornou-se elitizado – até que chegou no Brasil.

E foi num desses domingos que o carnaval chegou ao Brasil. De Angola e do Congo vieram o samba. E o maracatu. O samba, derivado do batuque africano que era dançado em roda para o centro. Ia um homem e uma mulher, executava alguns passos ao som dos tambores e ao ritmo das palmas. Por fim, escolhia outro participante para substituí-lo. O sinal da troca era a umbigada. Na época do Brasil colônia, os africanos faziam lá nos quilombos.“, conta Valdeonira. 

O Carnaval brasileiro tem raiz na negritude. Os desfiles das escolas de samba, em especial, remetem diretamente a batuques realizados por pessoas escravizadas, e seus descendentes, para os orixás que cultuavam.

Colocar o bloco na avenida para contar a história de seu povo é um formato de arte próprio da negritude brasileira – porém, com o passar dos anos, as raízes da festa mais popular do país foram invisibilizadas pela História.

O momento, entretanto, é de retomada – como simbolizado neste Carnaval em Florianópolis, quando o carro abre-alas com uma enorme escultura de Dona Val passou na avenida onde o Nego é “Quirido” para que a Dascuia, escola de seu coração, pudesse desfilar.

Vai passar nessa avenida onde o Nego é Quirido

Pisa forte, vem Dascuia, os herdeiros de Altamiro

Sou resistência, matriarca da igualdade

O meu lar é altaneiro, onde mora a liberdade

A menina que descia a ladeira

Não se vira enredo de escola de samba do dia para a noite. Os primeiros passos da menina Valdeonira foram íngremes, subindo e descendo as ladeiras do Morro da Caixa – comunidade da região central de Florianópolis, uma das mais antigas da cidade.

Por ali, lavadeira é título de nobreza. Contrariando a lógica do asfalto, as matriarcas negras do Maciço do Morro da Cruz tornaram-se rainhas daquele território, há mais de um século, mesmo tendo pouco além do que comer. Mais nova de uma família de oito irmãos, Valdeonira é filha de rainha. 

Maria Martinha, mãe de Valdeonira dos Anjos. Foto: Rodrigo Barbosa

A pequena Val contou com o apoio do pai, que era pintor, e dos irmãos mais velhos, que vendiam pinhão, para que pudesse ser a primeira da família a se dedicar exclusivamente aos estudos. Cada passo morro abaixo era dado na tentativa de quebrar o ciclo de pobreza e racismo que marcou a vida de seus ancestrais.

Valdeonira estudou no Colégio Estadual Dias Velho e fez o ginásio na Escola Normal Catarinense, ambas instituições localizadas na região central de Florianópolis. Dos tempos de escola, se lembra com carinho que o samba já fazia parte de sua rotina. Nos anos 40, músicas de sambistas como Geraldo Pereira embalavam a juventude preta pelos corredores das escolas manezinhas.

Eu lembro que eu cantava samba. ‘Baiana que entra na roda só fica parada’. Eu dançava aquele samba como se eu tivesse… Meu Deus, era uma loucura”. 

Em ambas instituições onde estudou, Valdeonira teve como diretora uma mulher negra que, anos mais tarde, daria nome justamente ao Colégio da infância de Dona Val: Antonieta de Barros. 

Antonieta é hoje uma referência indiscutível do movimento negro, da política e da Educação catarinenses. Jornalista e professora, foi a primeira mulher negra a assumir um mandato popular no Brasil, o de deputada estadual. Hoje, é lembrada através de várias obras de arte, pesquisas acadêmicas, premiações e homenagens. 

Dona Val e Antonieta de Barros representadas no desfile da Dascuia. Foto: Warley Alvarenga

Para Valdeonira, conversar com a diretora era como se enxergar em um espelho no futuro. Da convivência com a mestra, Dona Val se recorda principalmente do carinho da educadora negra com as suas. 

Ah, meu filho, tem tanta coisa boa pra falar sobre essa mulher… Naquela época, os recursos para as famílias pobres eram os menores possíveis, mas a gente tinha uma merenda excepcional. Quando era a formatura e a gente não podia comprar as coisas, elas davam tudo. Uniforme completo, tênis, tudo pra gente formar”, lembra a matriarca. 

Antonieta de Barros foi diretora de Dona Val até deixar o posto para assumir a cadeira na Assembleia Legislativa de Santa Catarina – onde continuou tendo na Educação sua principal bandeira. 

Dona Val se tornaria uma das várias pupilas de Antonieta que seguiram seu caminho. Ainda muito nova, tornou-se professora. Tendo os mesmos princípios da mestra, de uma Educação popular e atenciosa com jovens negros e periféricos, lecionou na rede pública por mais de quatro décadas, até sua aposentadoria, nos anos 1990.

Outro ponto em comum nas trajetórias de Antonieta e Dona Val é a militância. Embora não tenha feito carreira política, Valdeonira dos Anjos é sinônimo de luta pelo povo preto de Florianópolis. Dentre várias outras marcas, foi uma das fundadoras da Associação de Mulheres Negras Antonieta de Barros – um dos primeiros grupos organizados de mulheres negras da cidade.

No artesanato, Dona Val também é referência. Mestra na arte do fuxico, dedicou boa parte da vida para repassar seus conhecimentos para as gerações mais novas. O fuxico, assim como o samba, é uma forma de arte essencialmente preta, sendo uma sabedoria tradicional das lavadeiras do Maciço.

Na comunidade tem muita fuxiqueira. A gente transmitiu esse conhecimento ali na sala, as meninas vinham aqui. A mãe veio aprender e a filha estudava no colégio. Aí só em ver a mãe fazer, ela aprendeu. A gente ia para lá, levava a bolachinha, levava o café pronto, levava o lanche, tudo. Hoje a menina é uma professora de fuxico na comunidade”.

Desfile que homenageou Dona Val tinha fantasias feitas de fuxico. Foto: Warley Alvarenga

A contribuição de Valdeonira para a arte já foi reconhecida com diversos prêmios e reconhecimentos Brasil afora. Na Casa de Memória de Florianópolis, por exemplo, há um Espaço Afro Literário que leva seu nome. Desde 2022, ela é Mestra de Artes e Ofícios de Santa Catarina, reconhecida pela Fundação Catarinense de Cultura.

Além dos fuxicos, Dona Val também produz bonecas e é costureira de mão cheia. Durante a vida, conciliou suas habilidades com sua paixão de infância: o samba. Ao lado do esposo, passou pela Embaixada Copa Lord e pela Protegidos da Princesa, as duas escolas de samba mais tradicionais de Florianópolis. 

As décadas na cena do samba ainda influenciaram diretamente a trajetória de Dona Val na pós-graduação, iniciada na Universidade Estadual de Santa Catarina (Udesc) assim que se aposentou das salas de aula. Enquanto pesquisadora, Valdeonira foi movida pela inquietude com o embranquecimento do Carnaval e pelo desejo da retomada de seu caráter popular. 

Escola-família

Nada mais justo que a família dos Anjos fique perto do Céu. Cria do Morro da Caixa, Valdeonira fez do Morro do Céu, comunidade vizinha, o lar de sua família. Chegou com o marido ainda no século passado depois de rodar uma série de endereços da região central – incluindo um apartamento conquistado como premiação da destacada trajetória pessoal e profissional de Dona Val, ainda no começo da vida adulta. 

Fizemos a casa com muito sacrifício. Pode observar que o reboco dela não é um reboco especial, lá dentro da casa e aqui fora também. Aí conseguimos fazer, graças a Deus. Daí a gente veio. Eu não nasci aqui no Céu, mas aqui eu tinha muita gente conhecida, muita gente que foi meu aluno”, diz a matriarca. 

A criação dos oito filhos da família foi marcada pelos batuques do samba. Altamiro José dos Anjos, o “Seu Dascuia”, esposo de Dona Val, foi uma das figuras de maior destaque da história do Carnaval manezinho – marcando sua trajetória como dirigente e carnavalesco das duas escolas de samba mais antigas da cidade. 

Lembranças de Seu Dascuia na parede da família. Foto: Rodrigo Barbosa

Em 2004, com os pais já mais distantes da passarela, os filhos do casal reuniram-se e criaram um bloco de Carnaval no Morro do Céu. Inicialmente chamado de “Filhos de Dadá”, o bloco reunia amigos e familiares de Seu Dascuia e Dona Val – com o tempo, foi se tornando uma das principais celebrações do Carnaval da cidade. Dois anos mais tarde, quando já levavam mais de 2 mil pessoas às ruas, começaram a participar do desfile de blocos que existia em Florianópolis naquela época. 

Os filhos de Dadá venceram o desfile de blocos em 2011, mesmo ano em que tomaram a decisão que mudaria de vez a rotina do Morro do Céu. No quintal da casa da família dos Anjos, nascia o Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba Dascuia. Uma escola-família.

Os meninos começaram a cuidar, veio o bloco, o bloco foi para o Grupo de Acesso, e a gente acompanhando. E hoje a gente está na posição que a gente está, né? No meio das grandes escolas”, conta Elizete Lima, diretora da Dascuia. Liderança comunitária da Nova Trento, Dona Zete conheceu a escola enquanto fazia campanha política no Morro do Céu, no começo dos anos 2000. Foi recebida pela família dos Anjos e nunca mais saiu dali.

Dona Zete na ala da Diretoria da Dascuia. Foto: Rodrigo Barbosa

Foi uma coisa que a dona Valdeonira sempre falou bastante pra mim: que essa escola é muito familiar. Ainda é, né? Tem uma raiz familiar muito forte”, diz Dona Zete. 

Desde a fundação da Dascuia, os filhos de Dona Val são os principais responsáveis por várias das funções-chave da escola, incluindo a presidência – hoje ocupada pela filha Edna. Colocam em prática, ano após ano, o conhecimento adquirido em décadas de convivência com os pais. 

A atual juventude do Morro do Céu nasceu praticamente junto com a escola de samba. Kauan Vicente é um desses crias. O jovem negro faz parte da Dascuia desde a infância, ocupando atualmente a diretoria da bateria. Kauan enxerga na matriarca da escola uma referência que vai para muito além dos limites de sua comunidade. 

A dona Valdeonira é um poder, é uma liderança, não só dentro do Morro do Céu, não só dentro da Dascuia. É pra toda Santa Catarina. É uma mulher negra, uma professora negra de família humilde, de família de lavadeira. Eu acredito que ela é uma história de inspiração e superação não só pra gente, como pra toda Florianópolis. Então, estar carregando esse enredo hoje no peito, estar cantando o nome dela, é porque ela realmente merece e a gente só tem a agradecer”, diz Kauan.

Kauan, cria do Morro do Céu e diretor de bateria da Dascuia. Foto: Warley Alvarenga

Carnaval se faz o ano inteiro. Kauan e os integrantes da bateria passam mais de seis meses ensaiando para chegarem afinados na avenida. Além dos vizinhos, chamam amigos da faculdade e do trabalho para integrarem o coração musical da escola. 

Esse processo de preparação durante o ano se repete em várias outras alas da escola, transformando a casa de Dona Val em um espaço comunitário. Por ali, o entra e sai de pessoas e fantasias é constante.

A fachada da casa não deixa dúvidas que a sede da escola segue sendo ali até os dias de hoje. Pintada de verde e rosa, escancara que, dali pra frente, o Maciço é território da Dascuia – única agremiação de Floripa que tem relação direta com uma escola do Carnaval mais tradicional do Brasil. O verde e rosa vem de uma bênção concedida pela Estação Primeira de Mangueira, paixão carioca da família fundadora. Integrantes da Dascuia vão ao Rio para participar de eventos da Mangueira e adquirir experiências sobre o Carnaval todos os anos – e vice-versa.

Entre os integrantes da Dascuia, há também aqueles que não nasceram no Morro do Céu, mas cuja trajetória está ligada à escola desde muito cedo. Atual princesa da Dascuia, Maria Fernanda Espíndola está na agremiação há uma década, desde os nove anos de idade. Cria do Morro da Caixa, assim como Dona Val, a jovem negra se orgulha de ir à avenida para homenagear aquela que, para ela, é uma figura materna.

A Dona Val a gente fala que é a nossa avó. Porque ela recebe a gente de braços abertos. Ela vem: vamo tomar um chazinho, um café. Representar ela, essa homenagem pra ela em vida eu acho muito bonito, sendo ela quem fundou a Dascuia – e eu, fundada junto. É um orgulho, é uma alegria estar pisando na avenida com um enredo da Dona Val, a nossa vózinha da escola”, diz Maria Fernanda. 

A bailarina destaca sua escola como um ambiente acolhedor para jovens negras na cena do samba. “Foi a escola que me abraçou, me deu oportunidade. Por que não é qualquer pessoa: é uma mulher preta, negra, da comunidade que tem o seu amor pela sua trajetória e eu sou muito orgulhosa de estar aqui atualmente como Primeira Princesa da escola”

Patrícia Fonttine, primeira musa trans da história do Carnaval de Florianópolis, é mais uma mulher negra que encontrou acolhimento na Dascuia. Ela representou a escola na Corte do Carnaval de 2026, evidenciando a agremiação como espaço de pertencimento para a negritude periférica de Floripa. 

O Céu desceu

Embora ainda afetada pela falta de estrutura oferecida pelo Poder Público às escolas de samba de Florianópolis, a Dascuia vem demonstrando que acolhimento e profissionalismo podem andar lado a lado. Em 2026, quando decidiu homenagear sua matriarca na avenida, levou à Passarela Nego Quirido mais de 1700 integrantes. 

Além da produção de fantasias, que envolve uma série de moradores do Morro do Céu, parte do processo de confecção dos carros alegóricos envolveu a contratação de profissionais especializados no artesanato de esculturas do Festival de Parintins, no Amazonas. 

Os meses de preparo na casa da família dos Anjos resultaram em um verdadeiro espetáculo verde e rosa. A Dascuia já tinha sido uma das escolas cujo enredo levantou o público nas apresentações pré-Carnaval. Na Volta à Praça XV e no ensaio técnico da escola, uma Dona Val sorridente desfilou em um carro conversível. 

Valdeonira dos Anjos meu nome

São elos de amor cravados no peito

Brindando a vida com a minha escola

Com a benção lá da Estação Primeira

Vou ver o Céu descer e festejar a noite inteira

A menção ao Céu descendo ao asfalto ganharia um significado novo no dia desfile. Uma chuva fina caía durante o desfile da Unidos da Coloninha, primeira escola da noite. Quando a família Dascuia começou a se encontrar na concentração, o Céu desceu de vez. A noite de 13 de fevereiro registrou um dos maiores volumes de chuva do começo de 2026 em Florianópolis.

Mesmo assim, o desfile foi marcado pelo sorriso. Além da enorme escultura de Dona Val no carro abre-alas, havia referências à matriarca do Carnaval manezinho por toda parte. 

Imagens de Valdeonira sorrindo compunham instrumentos da bateria e fantasias. O saber tradicional negro do fuxico fazia parte de várias das alegorias, incluindo as roupas da Velha Guarda e da ala das baianas. O artesanato também se fez presente na fantasia da rainha de bateria da agremiação: Beatrice dos Anjos, de apenas 16 anos, neta de Dona Val. 

Na comissão de frente, fantasias douradas destacavam o sangue nobre da matriarca e a apresentavam como uma griô – guardiã da tradição oral de culturas da África Ocidental. Ala a ala, a sensação dos integrantes era de orgulho por poder homenagear, em vida, uma guardiã do povo preto.

“É uma responsabilidade muito grande. Imagina, representar a matriarca! Quando recebi o convite, eu falei: Meu Deus, e agora? Como é que eu vou me apresentar? Mas assim, é uma honra pra mim representar a Valdeonira, uma matriarca que tem 90 anos”, contou Daniela Nascimento, bailarina e destaque da Comissão de Frente da Dascuia. 

No meio de várias referências à trajetória de Dona Val e de representações otimistas da história e cultura preta, a escola ainda homenageou outras figuras negras de destaque, como Antonieta de Barros e Seu Dascuia – ou “Tamiro”, como a própria Dona Val costumava chamá-lo. 

O grande momento, porém, foi guardado para o final. Mesmo na área de concentração, foi possível ouvir o tom da plateia subindo quando o último carro alegórico da escola despontou para entrar na passarela. Alas inteiras da escola se esqueceram do resto e viraram para trás para saudar o enorme carro verde e rosa que levava Valdeonira.

Sentada em um trono, Dona Val vestia dourado. À sua frente, passistas representavam os batuques africanos e os blocos de rua. Ao seu lado, em cima do carro, em formato de bolo de aniversário, mais de vinte parentes e amigos cantavam emocionados e celebravam os 90 anos da matriarca. Seu filho era um deles, dirigindo o carro. Mesmo com a chuva, Dona Val interagiu com o público da Nego Quirido do início ao fim do desfile. 

Um grito de liberdade

A Protegidos da Princesa foi mais uma escola que trouxe para a avenida um enredo com foco na negritude. Presidida por Seu Dascuia na década de 1980, a Protegidos é a mais antiga entre todas as escolas de samba de Floripa. A agremiação foi fundada há mais de 70 anos no Morro da Caixa, berço de Dona Val – mas tem no Morro do Mocotó seu reduto há décadas.

O Mocotó, assim como o Morro da Caixa, tem orgulho de suas raízes negras. Ocupado no século XVIII, é uma das favelas mais antigas da cidade – teve em remanescentes quilombolas parte de seus primeiros moradores. Em 2026, a Protegidos trouxe para a avenida um enredo que escancara essas raízes: “14 de Maio: o dia que ainda não acabou“.

Questionando o significado da abolição assinada em 13 de maio de 1888, trouxe samba, carros alegóricos e fantasias que alternavam representações dos horrores e das belezas que fizeram parte das vivências de pessoas negras no Brasil ao longo da história. Expôs à cidade que o povo preto segue resistindo às violências que lhe são impostas até hoje, mais de um século após a suposta abolição.

Clamo por justiça e igualdade

Resisto a tanto sofrimento

Em todo Maio, não há comemoração

Tua vergonha não acabou com a opressão

É um enredo muito forte. Muito, muito forte. Quando eu escuto, quando eu tô na passarela, a gente sofre. É um grito muito marcante. Porque a gente sofreu muito. A gente ainda sofre, ainda tem racismo aqui na cidade, em tudo quanto é lugar. E esse enredo veio marcante, um grito de liberdade pra nós. , diz Elizandra Cristina da Silva. 

Mulher negra e cria do Morro do Mocotó, Elizandra é Protegida desde a barriga da mãe, que era integrante da escola. Por um acaso do destino, acabou tendo em uma agremiação adversária as primeiras oportunidades para desfilar na passarela quando era criança. Não se adaptou e, ainda no início da adolescência, passou a integrar a escola que representa sua comunidade. 

Cria do Morro do Mocotó, a passista Elizandra Cristina da Silva representa a Protegidos da Princesa há quase vinte anos. Foto: Warley Alvarenga

Desde então, ganhou destaque na cena do samba manezinho, realizando apresentações em clubes, concursos e eventos corporativos. Desfila também pela Acadêmicos do Sul da Ilha, que representa a comunidade da Tapera. Passista de corpo e alma, Elizandra vive o samba o ano inteiro. Mas é quando a Verde, Vermelha e Branca entra na avenida que o coração bate mais forte. São quase vinte anos de samba no pé e sorriso no rosto pela Protegidos da Princesa.

Minha mãe queria que eu fosse mestre-sala e porta-bandeira com o meu irmão, mas eu não gosto de ficar girando. Eu preferi sair na ala de passistas porque eu adorava ver aquelas meninas sambando. A Protegidos pra mim não tem explicação, é um amor sem fim, minha segunda família”.

Elizandra carregou a responsabilidade de ser a Cidadã do Samba de sua segunda família por quatro anos, retornando à ala das passistas para o Carnaval de 2026. Com uma fantasia decorada com grafismos africanos, manteve o ritual de tocar a linha amarela que marca o começo da avenida e pedir proteção divina para desfilar pela Nego Quirido. Antes mesmo do desfile, já sabia que iria às lágrimas ao cantar o samba que remete diretamente à sua negritude.

Elizandra emocionada na avenida durante o desfile da Protegidos, escola do coração. Foto: Warley Alvarenga

Alguns metros atrás, com uma das fantasias mais coloridas de todo o desfile, a ala das crianças representava um futuro esperançoso para o povo preto. Nicolly (11) fazia seu primeiro desfile pela Protegidos. Filha de Elizandra, a menina leva jeito para a arte não apenas na avenida. É figurinha carimbada nas apresentações de teatro e dança de dois dos principais projetos sociais do Morro do Mocotó: o Grupo Mittos e a ACAM. 

Apesar do talento nato, sua entrada no mundo do samba não aconteceu sem uma dose de insistência da mãe, anos atrás. “Ela não queria antes. E eu insistia, mas ela queria ficar sentada. Eu peguei e joguei ela numa ala de passista mirim pra poder se soltar”, lembra Elizandra. 

Naquela época, em 2019, a Protegidos da Princesa não contava com uma escolinha de passistas mirins – iniciativa realizada por diversas agremiações para formar novos sambistas nas comunidades de Floripa. A solução foi levar a filha à escolinha da Copa Lord, no Morro da Caixa. Assim como a mãe, Nicolly começaria sua trajetória no samba em uma escola concorrente à de sua família. 

No comecinho, quando ela começou lá, eu chorava. Eu não era Copa Lord, mas tava lá seguindo ela. Eu levava ela pros ensaios, com o braço cruzado, e ela ali sambando horrores. Eu chorava pela filha, não era pela escola. Pela escola, só pela minha”.

Na preparação para o Carnaval 2026, Nicolly acompanhou a mãe em uma série de eventos da Protegidos, como ensaios e desfiles abertos ao público que são realizados pelas escolas todos os anos. Além disso, elas foram duas das artistas de destaque do videoclipe do samba enredo da Protegidos, gravado no Morro do Mocotó. Nicolly também participou da Benção da Passarela – celebração realizada uma semana antes do Carnaval, e que reúne mães e pais de santo na Nego Quirido.

O resultado deste processo foi muita desenvoltura na passarela. “Agora ela tá aí. Ela tá melhor do que eu, tá? Eu fico babando quando eu vejo ela”, diz a mãe, orgulhosa.

Instantes antes do desfile, porém, houve um último compromisso. Nicolly deu uma entrevista para um podcast na concentração da escola, ao lado dos amigos da ala das crianças. Ainda tímida diante de câmeras e microfones, afirmou ser Protegidos desde pequena e destacou estar seguindo os passos da mãe. Minutos depois, jogou a timidez para longe e sambou sorrindo pela pista da Nego Quirido, levando consigo um legado ancestral.

Quilombo Mocotó

A gente traz nesse enredo uma história, uma resistência muito forte. Tanto dos remanescentes quilombolas que vivem no Mocotó, quanto de todos que resistem a toda essa opressão”, diz Luis Fabiano.

Sete anos mais velho que Nicolly, Luis também é Protegido de berço. Filho de uma integrante da Harmonia da escola, é mais um dos crias do Mocotó que já nasceu desfilando na passarela.

Porém, 2026 trouxe uma responsabilidade a mais para ele. O sorriso no rosto antes de entrar na avenida escondia o nervosismo do jovem negro. Na semana de seu aniversário de 18 anos, integrava pela primeira vez a Comissão de Frente da maior campeã do Carnaval da cidade.

Foram anos de preparo para chegar até ali. Além dos vários desfiles dos quais participou, Luis sempre foi um dos jovens mais ativos nos projetos sociais da comunidade. Se destacava em atividades de capoeira, samba, dança afro, hip-hop e graffiti. Mais recentemente, abriu também um pequeno estúdio de tatuagem no morro. Artista de nascença, tornou-se referência para muitas crianças da comunidade ainda antes de completar a maioridade.

A performance na Comissão de Frente da escola do coração abriu a segunda noite de desfiles e foi o ponto alto da carreira do jovem artista até aqui. Entitulada “Escravizados: da Opressão à Resistência”, a primeira ala da Protegidos reunia jovens negros descalços, com cicatrizes em seus corpos e correntes em volta dos pulsos e pescosços. A coreografia iniciava-se com uma encenação visceral da desumanização imposta ao povo preto no Brasil durante a escravidão. 

Desfilar sempre foi uma tradição familiar, sempre carreguei com muito carinho. Estar na Comissão de Frente hoje carrega esse peso de trazer a escola, de abrir para todo esse povo. Me sinto muito emocionado, eu chorei muito lá no começo”, conta Luis.

A segunda parte da coreografia ilustrava a resistência e a luta do povo preto. Neste momento, um painel que mostrava uma senzala, no fundo da apresentação, se transformava num quilombo — e os artistas da Comissão de Frente celebravam sua negritude através de passos que representavam capoeira, dança e religiões de matriz africana. 

Por fim, uma última mudança de cenário. À frente do quilombo, duas faixas com os dizeres “Ninguém Cala a Nossa Voz” ergueram-se. Neste momento, todos se ajoelharam e ergueram os punhos. Ao se levantarem, caminharam a passos firmes para dar fim à coreografia e fazer a esperança renascer mais à frente na passarela. 

Luis já havia desfilado na passarela na noite anterior, integrando uma ala coreografada da Império Vermelho e Branco – escola que representa o Morro do Pantanal, e que trouxe à avenida em 2026 um enredo sobre Xangô, orixá de cabeça do jovem. Cruzar a linha de chegada na Comissão de Frente da Protegidos deu fim a meses de ensaios para os dois desfiles, mas não à sua jornada no samba.

Eu desejo ficar muitos anos ainda na Comissão. Eu vejo que o samba pode ser uma porta muito importante pra minha vida, até então eu nunca tive tanta esperança assim. Eu tô me entregando de corpo e alma”.

Ninguém Cala a Nossa Voz

Com apenas 19 anos, Gabriel Brizola é hoje diretor da Groove da Favela, bateria da Protegidos da Princesa. O ano de 2026 marcou seu 11º Carnaval na avenida – o primeiro na nova função, que demanda a responsabilidade de coordenar uma ala inteira da bateria, composta por dezenas de ritmistas. Comandado por Mestre Aranha, tirou de letra: foi um dos responsáveis pela nota máxima obtida pela Groove da Favela neste Carnaval.

Mas nem só de ritmo é feita a relação de Gabriel com a Protegidos, o samba e o Morro do Mocotó. Nascido e criado na comunidade, o jovem frequenta os ensaios da Groove com primos e tios desde que se entende por gente e enxerga no samba uma maneira de a periferia se expressar.

Eu acho que não tem como a gente falar de samba e ignorar o cenário socioeconômico que acompanha nossa comunidade. O samba é isso, é resistência, a gente tem que retratar no samba todas essas pautas que são negadas pelas vozes políticas”, afirma Gabriel.

No começo de 2026, o enredo da Protegidos ganhou ainda mais relevância quando o Morro do Mocotó foi alvo de ataques. Chamada de “lixo” por políticos de extrema-direita em um vídeo onde estes apoiavam o controle migratório em Florianópolis, a comunidade se organizou para mostrar à cidade a beleza daquele território. 

Em 25 de janeiro, lideranças, moradores e projetos sociais se reuniram aos pés da comunidade no Ato Cultural em Celebração ao Morro do Mocotó. O evento durou um dia inteiro e contou com grande participação dos moradores – incluindo Elizandra, Nicolly, Luis Fabiano e Gabriel.

A Protegidos da Princesa foi convidada pelos organizadores do ato para participar da celebração da comunidade que a acolheu décadas atrás. Levaram a Groove da Favela e abriram o evento tocando o samba desse ano. Gabriel assumiu o tamborim.

Vai renascer a esperança

Do quilombo Mocotó, minha herança

Essa luta é de todos nós

Protegidos da Princesa, ninguém cala a nossa voz!

Devido a um segundo compromisso no mesmo dia, a maior parte dos ritmistas que se apresentaram naquele domingo no Moca teve de deixar o evento pouco após a apresentação inicial. Não foi o caso de Gabriel. 

Cria do território, sentiu na própria alma os insultos contra sua comunidade. Prestigiou a apresentação seguinte – a dança afro das crianças e adolescentes do Grupo Mittos – e participou de outras duas: uma roda de capoeira e uma segunda bateria, organizada quando o projeto Bairro Educador ainda funcionava na comunidade. Permaneceu com os seus até o fim do evento, já no começo da noite.

“A gente vai em busca disso, a gente vai em busca de voz pra nossa gente, de tratar os problemas que a gente tem na nossa comunidade, que o contexto geral da cidade acaba virando as costas”.

Integrantes de outras escolas de samba da cidade, como a Consulado (atual bicampeã do Carnaval manezinho) e a Jardim das Palmeiras também prestigiaram o evento em homenagem ao Mocotó, numa demonstração do caráter periférico do samba. 

De volta às raízes

Enredos que remetem às raízes pretas e periféricas do samba têm sido cada vez mais comuns em vários Carnavais pelo Brasil, num movimento de resgate da ancestralidade dos desfiles.

Em Florianópolis, não é diferente. As escolas Protegidos e Dascuia são reconhecidas por homenagear suas raízes de forma recorrente. Não à toa, ambas vêm de anos consecutivos tendo a racialidade como tema central de seus enredos. 

A homenagem a Dona Val realizada pela Dascuia aconteceu um ano depois da agremiação do Morro do Céu homenagear a princesa angolana Zacimba Gaba, precursora da resistência quilombola no Brasil. 

Em 2025, o enredo da Protegidos contava a história das lavadeiras do Rio da Bulha – mulheres negras, expulsas da região central de Florianópolis no passado, que tornaram-se as primeiras matriarcas do Maciço do Morro da Cruz, aglomerado de favelas onde estão os Morro do Céu e do Mocotó.

Juntas, Protegidos e Dascuia são prova viva de que, ano após ano, o povo negro e periférico de Florianópolis une seu passado, presente e futuro para protagonizar a maior festa popular da cidade. 

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