Um presente para a cidade: Morro do Mocotó celebra sua história no aniversário de Florianópolis

Na semana do aniversário da capital catarinense, o Rolê do Mocotó, circuito turístico de base comunitária, integrou pela primeira vez a programação da Maratona Cultural da cidade

Reportagem de Rodrigo Barbosa

A história de Florianópolis é uma. A do Morro do Mocotó é outra. No caminho, elas se encontram. 

No coração da capital catarinense, um palácio começou a se erguer morro acima entre o final dos anos 1800 e o começo dos anos 1900. Formado por remanescentes quilombolas, o Mocotó nasceu como território de resistência e luta na capital mais branca do Brasil. 

O governo nunca os quis ali. Desde o começo da ocupação, o castelo foi alvo do Estado. Segue assim até os dias de hoje, com frequentes e violentas operações policiais, além da falta de acesso a uma série de direitos fundamentais.

Mas a resistência também segue presente. Mais de 100 anos após o começo de sua ocupação, o Mocotó é referência de cultura periférica em Florianópolis. Entre becos estreitos e escadarias, o território manifesta sua ancestralidade diariamente. Só não enxerga a beleza do Moca quem não quer. A própria comunidade faz questão de se mostrar para o mundo.

O Rolê é uma quebra de fronteiras. A gente faz acontecer, mas são vocês que vão fazer o Rolê ser visto lá fora. Vocês vão ajudar a quebrar o paradigma que a favela é só violência, e não um lugar de paz. É muito importante pra gente, a gente fica muito feliz de ter pessoas que querem realmente conhecer a nossa história”, disse Michel Costa ao se apresentar a um grupo de cerca de 40 turistas. 

40 é também o número de vezes que Michel, cria do Morro do Mocotó, subiu as ladeiras do morro onde nasceu como guia turístico. Aquele, porém, era um grupo de visitantes maior do que o normal. O Rolê do Mocotó, projeto de turismo de base comunitária do território, integrou pela primeira vez, em 2026, a programação da Maratona Cultural da cidade. Na véspera do aniversário de 353 anos de Florianópolis, o asfalto subiu o morro para conhecer quem, de fato, fez nascer a Ilha da Magia. 

Michel Costa guia grupo de cerca de 40 turistas pelos becos do Morro do Mocotó, comunidade onde nasceu. Foto: Warley Alvarenga

Rolê no morro

O Rolê do Mocotó foi criado há pouco mais de um ano e meio. A ideia surgiu durante uma conversa entre moradores no topo do morro. “A história do morro precisa ser contada como realmente é”. Àquela altura, iniciativas de turismo guiadas por moradores já aconteciam em pelo menos outros dois territórios do Maciço do Morro da Cruz – o maior e mais antigo agrupamento de favelas de Florianópolis, localizado na região central. 

Desde meados de 2023, há um circuito turístico bem estabelecido no Morro da Caixa. Chamado Viva Monte Serrat, o projeto oferece atualmente três roteiros diferentes pela comunidade da Caixa – todos eles guiados por moradores do território, como a liderança comunitária Sandra Nascimento. No Morro da Mariquinha, um projeto foi lançado em novembro de 2021 também com o intuito de apresentar o morro à cidade através de passeios conduzidos por moradores como Alex Correia.

No Mocotó, o roteiro foi sendo criado aos poucos. Sem experiência prévia com turismo, os organizadores da iniciativa recorreram ao projeto Cidades Invisíveis – ONG com sede no asfalto que atua em parceria com territórios vulnerabilizados da cidade, realizando ações de cultura, lazer e educação. 

Foram feitas pequenas melhorias em acessos da comunidade, bem como a instalação de um balanço “instagramável” que fez sucesso entre a criançada no topo do morro. O projeto começou a ganhar forma: criaram uma logo, uma página no instagram e começaram a divulgar a ideia. Em 24 de junho de 2024, subiram o morro com o primeiro grupo de turistas, formado por cerca de 20 pessoas.

Nos primeiros Rolês a gente não tinha experiência alguma. A gente só sabia das paradas do morro, um pouco das histórias que a gente ouvia das pessoas com mais idade. Pesquisamos os materiais que tem nos arquivos referente ao Mocotó também. Mas a gente não tinha essa experiência como guia, a gente aprendeu tudo na prática. No começo, teve Rolê que a gente pegava o celular pra lembrar”, conta Michel. 

A falta de experiência no começo do processo não interferiu muito no sucesso do passeio. No último ano e meio, 500 pessoas, de todo o mundo, já passaram pelos becos do Moca em atividades do Rolê – incluindo, além de grupos convencionais de turistas, passeios com turmas escolares, universitárias e com presença de autoridades.

Durante este período, melhorias estruturais pontuais foram realizadas pela comunidade – bem como a reforma e a criação de novos estabelecimentos comerciais que auxiliam no atendimento aos turistas. Entre outubro de 2025 e fevereiro de 2026, uma série de murais de graffiti foram pintados no território, colorindo ainda mais o trajeto do Rolê e dando origem à Galeria de Arte do Morro do Mocotó – uma das maiores galerias a céu aberto do Sul do Brasil. 

Trajeto do Rolê acontece em meio à Galeria de Arte do Mocotó. Foto: Warley Alvarenga

A participação na Maratona Cultural veio a convite da própria organização do evento. O convite foi bem recebido, mas quem presenteia aqui é o Moca. Integrante da programação da Maratona, é o palácio quem presenteia a cidade com a sua potência.

Eu me emocionei. A gente começa a compreender que tá começando a alcançar outros fragmentos da cidade, a gente tá sendo visto. Floripa é banhada por morro. A gente estar conseguindo hoje ser participativo, a gente entrega um presente pra cidade”.

Para os organizadores do circuito, o convite para integrar a programação da Maratona pode significar um novo passo na consolidação do roteiro turístico. História para contar é o que não falta.

De mãos em mãos

O Mocotó não nasceu com esse nome. Sua ocupação por remanescentes quilombolas desagradou o asfalto – que aproveitou o fato de a maior parte daquelas terras serem originalmente públicas para se referir ao território como “Morro do Governo”. 

As primeiras casas da comunidade foram construídas a partir de restos de obras do Poder Público, em especial da Marinha. O material era levado até os pés da comunidade, onde se formava uma enorme fila de moradores morro acima. De mãos em mãos, o material subia as ladeiras. Apesar da união comunitária, o trabalho era denso: se hoje a infraestrutura do morro – marcada por becos estreitos de concreto e escadarias irregulares – deixa a desejar, no passado era pior. 

Meu pai contava muito que a maioria dos moradores que vinham pra cá não tinham calçado. Botavam um pedaço de sacola no pé. Vinha o material, botava sacola no pé pra poder subir. Vocês pensam subir isso aqui sem ter o mínimo de possibilidade de um calçado. Chão batido, totalmente com barro. Todas as vezes que chovia e o pessoal passava naquele bequinho que a gente passou, perdia muito material”, contou Michel em uma das primeiras paradas do Rolê. 

Turistas sobem pela viela de entrada do Morro do Mocotó, que antigamente não contava com nenhum tipo de calçamento. Foto: Warley Alvarenga

O nome inicial do território não significava que o governo tinha qualquer apreço por aquele local. Além de também rejeitarem a ideia de uma população majoritariamente preta e pobre no coração da cidade, o reaproveitamento do material de construção foi considerado roubo pelo Estado. Desde o seu começo, o morro conviveria com a presença violenta das forças de segurança. 

A perseguição era contínua e foi piorando com o decorrer dos anos. Até o morro ter estrutura de mais casas, a força militar não parava. O Estado entrou em conflito com a gente”, disse Michel, se referindo às batidas policiais e demolições das quais os moradores do Mocotó eram vítimas no começo da ocupação do morro. O guia apontou outro fator que teria feito com que o governo se revoltasse ainda mais com a comunidade: a mudança no nome. 

Os moradores do então Morro do Governo, ainda no começo do século XX, desciam a comunidade diariamente para trabalhar nas diversas obras que deixariam o Centro de Florianópolis com as estruturas que tem hoje – como as construções do Mercado Público, da Ponte Hercílio Luz e do Hospital de Caridade, bem como a canalização do Rio da Bulha. 

Eram esses moradores os responsáveis por espalhar a notícia entre os demais trabalhadores do Centro: aos pés de sua comunidade, pelas mãos de mulheres negras, era servido caldo de mocotó. Através da culinária tradicional do povo preto, o morro se tornou ponto de encontro de marinheiros, trabalhadores da construção civil e pessoas empobrecidas que buscavam saciar a fome. Além de alimentar os trabalhadores da cidade, o caldo também era servido em festas da comunidade, como no Dia dos Pais.

Estabelecido como território de acolhimento para a periferia da região central da cidade, faltava ao morro tomar seu próprio nome para si. Aos poucos, pela ação direta de moradores, o território passou a ser reconhecido como Morro do Mocotó. 

O morro não gostava do nome. Era Morro do Governo, mas o governo nunca deu nada pra gente. Parece bobeira, mas quando teve essa mudança de nome, pro Estado foi um soco na cara. Virou Morro do Mocotó pelas vozes do pessoal do morro, e não porque o Estado inventou aquilo ali”, contou Michel. 

A partilha seria, desde então, fio condutor da comunidade – como lembra Moisés Nascimento, liderança comunitária do Mocotó e também guia do Rolê: 

Aqui não é permitido passar dificuldade sozinho, ninguém passa fome sozinho. Se tem uma senhora subindo o morro com compra, a gente larga tudo o que tá fazendo pra ajudar. Isso é comunidade”.

A atual entrada do antigo “Morro do Governo”. Foto: Warley Alvarenga

Batuque do samba e da gira

O “pó de rato”, maneira como os moradores antigos se referiam à cachaça, muitas vezes era o combustível para amenizar o esforço dos moradores que subiam carregando os fragmentos de suas casas pelas ladeiras. Mas era também uma bebida de partilha nos bailes e rodas de samba.

Honrando um legado de sua comunidade, o guia Michel representa hoje a escola de samba Embaixada Copa Lord, sendo um dos mestres-salas mais reconhecidos do Carnaval de Florianópolis. “Esse beco tem muita história. O Mocotó, apesar das suas dificuldades, é um morro conhecido por ter muitas festas. A gente diz que o Mocotó é berço de samba”, disse ele aos turistas no Beco dos Bittencourt. 

Os Bittencourt formam a maior e uma das mais tradicionais famílias do Mocotó. De pele retinta, chegaram ali ainda no começo da ocupação do morro, criando raízes em um beco onde o batuque ditava o ritmo. Era no Beco dos Bittencourt, no coração da comunidade, onde aconteciam as mais famosas rodas de samba do Mocotó no começo de sua história, regadas a pó de rato.

Foi assim, por exemplo, quando morreu Hercílio Bittencourt. Sambista histórico de Florianópolis, seu velório entrou noite adentro com a comunidade cantando samba para celebrar sua memória. Hercílio era conhecido pelo apelido de “Tranca Rua” – o guardião dos caminhos da Umbanda. Além do samba, a história dos Bittencourt e de seu território também é marcada pelos batuques da macumba.

Mãe de Hercílio, Lucimara Bittencourt era filha de lavadeira e nasceu na década de 1920, tornando-se uma das moradoras mais conhecidas do Moca. Deu à luz a 22 filhos e parou de contar o número de netos quando o 50º nasceu. Mas o número de crias do território que tiveram Dona Luci como figura materna é muito maior. 

Benzedeira, ela foi uma das várias mulheres negras do Maciço do Morro da Cruz que fez de sua casa um espaço de acolhimento e fé. “Nossas médicas curam com as mãos e a espiritualidade”, contou Michel em frente à casa onde viveu a matriarca. Além das bênçãos, ali também eram celebrados batizados, casamentos e aniversários.

A matriarca dos Bittencourt se despediu do morro em 2018, aos 93 anos de idade, em função de uma infecção nos pulmões. Foi homenageada com um graffiti no topo do morro no ano seguinte. Sua memória segue viva pelos becos que ajudou a erguer e no sangue de centenas de moradores e moradoras.

A poucos metros do graffiti de Dona Luci, fica um dos maiores legados construídos pelos descendentes da matriarca no Mocotó. Há mais de 30 anos, Ana Cristina Bittencourt, neta de Dona Luci, deu vida ao Grupo Mittos. 

Junto de seus familiares, Aninha é hoje uma das principais responsáveis por manter viva a ancestralidade quilombola do morro. Como a avó, tornou-se figura materna para boa parte da comunidade através da partilha da sabedoria tradicional de seus ancestrais.

Centenas de jovens já passaram pelo Mittos, projeto social cujas principais atividades são a dança e a música afro – mas que também tem iniciativas de educação quilombola, educação ambiental e formações para jovens aprendizes. O espaço, além de manter viva a cultura do povo preto, busca criar perspectivas de futuro positivas para os crias da comunidade.

Além de organizar eventos no próprio Morro do Mocotó, o Mittos realiza apresentações em festivais e eventos culturais por toda Santa Catarina. Escancaram a potência da negritude periférica do Maciço em diferentes palcos do estado mais branco do país. 

O Mittos já foi premiado a nível municipal, estadual e nacional. Eles foram, por exemplo, um dos representantes de Florianópolis no Prêmio Periferia Viva do ano de 2024. O Periferia Viva é uma iniciativa do governo federal que reconhece o trabalho realizado por iniciativas periféricas de todo o Brasil – em 2025, o Desterro se tornou mais uma das iniciativas premiadas. 

Dona Celinha é mais uma matriarca cuja história é lembrada durante o trajeto do Rolê. Morava pouco acima de Dona Luci, num local hoje tomado por murais de graffiti e conhecido como Praça da Cinco. Mãe de santo, Dona Celinha era a responsável por organizar os maiores festejos de Cosme e Damião da comunidade. A distribuição de doces na casa de Mãe Celinha é lembrada com carinho até hoje pelas crianças que participavam da celebração – incluindo Michel, atualmente com 37 anos de idade. 

Mas em terra de macumba, geralmente há opressão do Estado. Uma das celebrações de Mãe Celinha, anos atrás, foi interrompida pela polícia. Vários jovens que curtiam o evento foram agredidos pelo Batalhão. De vestes brancas, a mãe de santo foi a responsável por bater de frente com a polícia naquele dia, encerrando o episódio de violência. 

Das mães de santo mais antigas da comunidade, Claudete (85) é hoje a principal referência viva. Filha de criação de Dona Luci, mora em um dos pontos mais altos da comunidade – mesmo lugar onde construiu seu terreiro. Dona Dete era figura de referência em manifestações que reivindicavam direitos para a população das periferias de Floripa nas décadas de 1980 e 1990, quando ainda atuava como agente de saúde.

Atualmente, Mãe Dete de Xangô é uma das guardiãs da receita do caldo de mocotó que deu nome à sua comunidade — receita essa que foi sendo passada de morador para morador através da prática, não havendo uma receita escrita do tesouro do morro. Também pelas mãos dela, é preparada a feijoada mais famosa do Moca. 

Uma das últimas paradas do Rolê do Mocotó é justamente em frente à casa de Dona Dete. Ali, a matriarca compartilha suas histórias com os turistas – naquele que é um dos pontos altos do trajeto. No dia 22 de março, a condição de saúde do marido fez com que ela não pudesse receber as quase 40 pessoas que visitavam o morro. A resenha com os turistas acabou ficando na conta de uma família vizinha, que fazia um churrasco na calçada da frente.

O Centro de Umbanda Tia Maria de Minas, terreiro de Mãe Dete, é uma de pelo menos 13 casas dedicadas à prática de religiões de matrizes africanas no Morro do Mocotó – 12 terreiros de umbanda e um de candomblé. O levantamento foi realizado por Eduardo de Souza, professor de Geografia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e morador do bairro José Mendes, aos pés do Mocotó. Ainda segundo o professor (e diversos moradores do morro), trata-se da maior concentração de terreiros por metro quadrado da cidade de Florianópolis – e uma das maiores, se não a maior, do Brasil.

Além dos terreiros, as raízes macumbeiras do Mocotó estão estampadas em uma série de obras de arte pelo morro. Assim como Dona Luci, Mãe Dete também foi homenageada com um graffiti. A obra fica no muro de sua casa e foi realizada no final de 2025, durante a produção da Galeria de Arte. 

Iemanjá, Preto Velho e Oxalá também já foram representados nos becos do Mocotó. São Jorge é celebridade por ali, com pelo menos quatro murais espalhados pela comunidade. Isso porque, em algumas vertentes da Umbanda, o Santo Guerreiro é sincretizado ao orixá Ogum. Não à toa, os Jorges do Moca têm pele preta. 

Becos que sorriem e choram

Uma das primeiras paradas do Rolê acontece no Beco da Dalva, nomeado em homenagem a uma das comerciantes mais populares da comunidade. Por ali, como em várias outras vielas centenárias, memórias positivas e negativas se misturam. “Cada lugar que a gente para, tem muita história boa. Mas também tem muita história ruim”, pontuou Michel.

A venda de Dona Dalva atende a comunidade do Mocotó há décadas e, até os dias de hoje, opera apenas com pagamentos em dinheiro. Mercadinho de quebrada raiz. Além de ter seu nome estampado na placa que dá nome ao beco onde fica seu comércio, Dalva ainda teve seu passarinho de estimação pintado no muro da esquina durante a produção da Galeria de Arte – como forma de homenagear a guardiã de uma das vielas mais antigas do morro.

À frente da pintura do pássaro de Dona Dalva, um mural de graffiti azul e laranja homenageia Hudson Pinheiro. O adolescente foi morto pela polícia aos 17 anos de idade em 12 de dezembro de 2025, quando ia encontrar amigos no Centro da cidade para ver um ensaio da Protegidos da Princesa – escola de samba que representa o Morro do Mocotó. 

Um dos vários crias umbandistas do morro, Hudson era estudante e trabalhador da construção civil. Ele também auxiliava a mãe na entrega de marmitas do negócio da família. Preto, como o adolescente era conhecido no morro, ainda participava de vários projetos sociais da comunidade – dedicando-se especialmente à capoeira. Seu sonho era ser um MC.

Pouco acima do Beco da Dalva, mais um local nomeado a partir de um morador: a Escadaria do Dói – este, o apelido do dono da maior mercearia da região central do morro. A escadaria mais colorida da comunidade costuma ser tomada pelos barulhos das crianças. Ali, em um prédio laranja, funciona a Associação de Amigos da Casa da Criança e do Adolescente do Mocotó, a ACAM – ou, para os moradores do morro, a eterna “escolinha”.

Fundada como Casa da Criança na década de 1980 por Irmã Hedwiges Hofer (freira que morou no morro por cerca de 40 anos), a ONG se dedica a atender mais de uma centena de crianças e adolescentes com apoio pedagógico, psicossocial e uma série de oficinas – complementando a formação dos jovens do morro e dando mais segurança a mães e pais que não têm onde deixar os filhos durante o expediente de trabalho. 

No passado, além do atendimento aos jovens, a Casa da Criança também servia como espaço comunitário – ali eram realizados velórios e encontros da Associação de Moradores, por exemplo. Boa parte das mães das crianças atualmente atendidas pela ACAM frequentou o espaço em suas infâncias. As avós conviveram de perto com uma Irmã Hedwiges ainda jovem pelos becos do morro.

O Padre Vilson Groh, morador de longa data do Morro da Caixa, é outra figura central na história da ONG. Ele frequenta o Mocotó desde a chegada de Hedwiges, sendo atualmente o presidente da Rede IVG, conjunto de ONGs a qual a ACAM é vinculada. Sua trajetória no morro é marcada pela convivência carinhosa com as mães de santo da comunidade, em especial Dona Dete.

A parada do Rolê em frente à “escolinha”. Foto: Warley Alvarenga

Mas, mesmo nos entornos da escolinha, nem todas as memórias são positivas. “A polícia já entrou aqui nesse espaço, ameaçou a equipe do projeto”, disse Michel em frente à ACAM, logo após destacar a importância do espaço para o desenvolvimento dos crias. A invasão mais recente à ONG aconteceu em setembro de 2021, minutos após o Batalhão de Choque executar Nathaniel Alves Mendes, adolescente negro de 17 anos. 

Nathan, como o garoto era conhecido, foi vítima de dois disparos pelas costas quando já encontrava-se no chão da Escadaria do Dói, cerca de 15 metros acima da ACAM. Dezenas de jovens estavam na ONG quando os fuzis da PM dispararam. 

Dois anos antes, Shila, jovem negro de 21 anos, morreu em uma operação similar, também conduzida pela PM no beco dos fundos da ACAM. A ONG teve suas janelas atingidas por disparos da polícia naquela manhã, que também era de atendimento às crianças. As câmeras corporais da polícia estavam desligadas durante o episódio. Naquele período, uma base policial estava instalada no topo da comunidade, a poucos metros da sede do Grupo Mittos.

O próprio Michel, que foi educador da ACAM antes de ser guia do Rolê, já sofreu com a violência policial. Uniformizado, ele foi agredido com um tapa no rosto por policiais durante a distribuição de cestas básicas na época da pandemia. Uma iniciativa de Educação para Jovens e Adultos (EJA) da ACAM teve que ser encerrada pouco tempo depois por conta de ameaças de policiais a moradores e profissionais da instituição – e, desde então, nunca foi retomada.

Desde 2015, a polícia foi responsável pela morte de pelo menos 17 pessoas no Morro do Mocotó – mais de 70% destas vítimas eram jovens e/ou negros. A estatística coloca o Moca como uma das comunidades com maior número de vítimas da polícia ao longo da última década em Florianópolis, ao lado do Morro do Horácio e do Papaquara.

Comunidade do Mocotó protesta em frente à base policial instalada no morro na época do homicídio do jovem Shilaver Lopes, em 2019. Foto: Rodrigo Barbosa

Passado, presente e futuro

Nascida na comunidade da Coloninha, Valda Costa viveu a maior parte da vida no Mocotó – onde parte de seus descendentes ainda residem. A artista pintou centenas de telas que retratavam a realidade do povo negro nas favelas e no Centro da cidade de Florianópolis durante seus pouco mais de 40 anos de vida.

Valda faleceu em 1993, empobrecida e sem o devido reconhecimento por seu trabalho – sendo o racismo elemento fundamental para isso. Hoje em dia, é considerada uma das maiores pintoras da história de Santa Catarina e tem obras avaliadas em milhares de reais. O ponto final do Rolê do Mocotó é em frente a um graffiti em homenagem à artista – que, assim como o mural de Hudson, o de Dona Dete e o do passarinho de Dona Dalva, também foi produzido durante uma etapa da Galeria de Arte do morro.

Homenagem a Valda Costa, pintora que viveu no Morro do Mocotó. foto: Rodrigo Barbosa

Hoje estamos fazendo um passeio pelo nosso passado, pelo nosso presente, mas também por um pouco do que a gente quer para o nosso futuro”. 

A frase foi repetida por Michel aos turistas diversas vezes durante o trajeto. O Mocotó é um território centenário que mantém suas tradições vivas, mesmo estando em constante mudança. O mural em homenagem a Valda é prova viva dessa mistura dos tempos. 

A artista do morro está estampada no muro de entrada do Pico do Mané, estabelecimento comercial do Mocotó mais reconhecido no asfalto atualmente. O bar foi inaugurado em março de 2022 e comemorou quatro anos no dia em que o Rolê integrou a Maratona Cultural da cidade. A celebração contou com um evento especial, com apresentações artísticas, rodada dupla de chopp e presença da matriarca da família que é dona do estabelecimento.

Mas, da inauguração até a grande festa, muita coisa mudou. O Pico nasceu como uma pequena mercearia no quintal da avó de Karen Borges, dona do estabelecimento. A vista da varanda de madeira do local, que fica próximo ao topo do morro, sempre foi um dos principais atrativos do espaço – que foi recebendo cada vez mais pessoas. Aos poucos, foi se transformando em um “bar favela”, como eles mesmos se definem, aprimorando o cardápio e apostando na divulgação do estabelecimento na internet. 

Vista da parte alta do Morro do Mocotó é uma das mais bonitas da cidade. Foto: Warley Alvarenga

O sucesso foi instantâneo e continua fazendo o bar crescer. O Pico do Mané tem hoje quase 30 mil seguidores nas redes sociais. A obra mais recente realizada no espaço, em estágio final de conclusão, mais que dobrou a capacidade do bar em atender clientes. A proprietária Karen é uma das moradoras que contribui na organização do Rolê do Mocotó desde o começo do projeto – assim como outras lideranças e instituições do morro, como a Frente Juventude Vozes da Favela e o Instituto Taffarel Lopes.

A empreendedora faz questão de receber cada grupo de turistas que chega na porta de seu bar. Com sorriso no rosto e lágrimas nos olhos, conta como o negócio mudou o presente e o futuro de sua família, e celebra como o Pico e o Rolê têm contribuído para que mais pessoas conheçam a beleza do palácio onde nasceu e cresceu. Seu grande objetivo é que o Pico se torne um dos principais pontos turísticos da ilha.

Em algumas ocasiões, a parada final do Rolê no Pico do Mané conta a apresentação de uma bateria formada por adolescentes do Mocotó, trazendo o samba para ainda mais perto dos turistas. Além do Pico, outros estabelecimentos do morro passaram por reformas ou foram inaugurados ao longo dos últimos anos, ampliando o número de alternativas de lazer e gastronomia para moradores e turistas – como o Bar Sete Goles e o Restaurante Tempero&Art, ambos também localizados na parte mais alta da comunidade. 

O Rolê da Maratona foi um sucesso entre os turistas, que sorriam a cada beco ao ouvir histórias de um dos territórios culturalmente mais ricos da cidade. “O tempo passou voando. Os guias são moradores, conhecem realmente o lugar, respondem todas as perguntas, contam a história, tudo com muito humor e respeito. A vista lá de cima é linda, um encerramento perfeito pro rolê”, relatou Crisley Raitz, moradora da cidade de São José que nunca havia subido o Morro do Mocotó até aquele dia. 

Para Michel e os demais organizadores do circuito, o sentimento é de alegria com a evolução do Rolê e do morro. Animado, o guia pontua que ainda há muito chão pela frente no caminho de melhorar a realidade do Mocotó para que as Lucis, Claudetes e Valdas do passado, do presente e do futuro sejam ainda mais reconhecidas.

“Pra gente ainda é um bebê engatinhando. É louco porque a gente criou o Rolê do Mocotó, mas a gente não imaginava que ia ter essa crescente. A gente só fazia, a gente deixava ir. Mas a gente sabia que precisava fazer acontecer, o morro precisa disso, precisa de ser bem falado. O que eu quero pro futuro, de verdade, é que isso aqui fique muito maior, cara. Que seja algo mágico, que encante todo mundo. E que a gente consiga mudar muito a realidade da favela”.

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