Comunidade do Mocotó lota o plenarinho da Câmara Municipal de Florianópolis para pedir justiça por adolescente morto pela PM em dezembro
Reportagem de Rodrigo Barbosa
Na casa da família Pinheiro, uma tradição se repete todo domingo de Páscoa. Ano após ano, os seis irmãos da família se reúnem na casa de sua matriarca, no Morro do Mocotó. Reunidos em volta da mesa da cozinha, compartilham, além do almoço, lembranças do passado e seus desejos para o futuro — e fazem uma brincadeira.
Escrevem o nome da mãe, de todos os irmãos e seus esposos e esposas em pequenos pedaços de papel. Em seguida, um sorteio define quem recebe qual chocolate. Não foi diferente esse ano. O nome de cada um dos seis irmãos estava no sorteio dos Pinheiro — incluindo o do caçula da família, Hudson.
“A gente colocou o nome dele porque ele nunca vai morrer pra gente. Enquanto a gente tiver nessa Terra, todos os irmãos, eu garanto que ele nunca vai morrer no nosso pensamento. Somos em seis irmãos ainda. Ele não morreu, ele vive na nossa família”.
A Páscoa de 2026 foi a primeira dos Pinheiro sem a presença física de Preto, como Hudson gostava de ser chamado. O adolescente de 17 anos foi morto pela Polícia Militar pouco mais de três meses antes, em dezembro de 2025, quando saía para encontrar amigos no Centro de Florianópolis.
Estudante e trabalhador, Preto era conhecido e querido por todos os moradores do Mocotó — que tentam, desde então, ser rede de apoio e conforto para os Pinheiro. Foi assim nessa própria Páscoa, quando oito crianças foram até a casa da família. Chamaram pela mãe de Hudson — que era um dos adolescentes mais populares entre a criançada da comunidade — e a entregaram uma caixa de bombons.
“Tia, a gente te ama. A gente amava o Preto. Obrigada por tudo”.
Os familiares caíram no choro. Uma mistura de dor pela perda do caçula e felicidade por sua memória ainda estar presente na lembrança dos moradores do morro. Na semana seguinte, encheram o coração de coragem e, junto de sua comunidade, foram à Casa do Povo contar esta história e pedir justiça por Preto.

Um ato de coragem
Gilmar passou o último dia da vida de seu irmão mais novo ao seu lado. Viu Preto entrar e sair da obra com um carrinho de mão carregado de entulhos durante a manhã e a tarde — compartilhando quentinhas e resenhas sobre suas vidas no intervalo do expediente. Na garupa de sua moto, Preto pegou sua última carona, na volta do serviço.
À noite, exausto no sofá, Gilmar viu o irmão adolescente jantar, tomar um banho e sair pela porta de casa arrumado para encontrar seus amigos. Era uma sexta-feira. Ele nunca mais veria o irmão caçula vivo.
“Quem viu a gente chegar, percebeu que a minha mãe não tá aqui. Acho que todos sabem porquê. Minha mãe não é mais a minha mãe, sabe? Acabou o brilho, acabou o brilho dela, acabou o nosso brilho”.
Na ausência da mãe, cujo luto não permitiu que estivesse presente na Câmara dos Vereadores, coube a Gilmar abrir a audiência que debateu o assassinato de seu irmão no legislativo municipal, em 9 de abril de 2026. Fortalecido pela presença de vários outros familiares e amigos de Hudson no Plenarinho, pontuou que é necessário coragem para questionar o braço armado do Estado. Também lembrou dos sonhos que foram interrompidos quando a polícia atirou no irmão.
“Ele exalava vida, exalava vida nessa pessoa. Ele queria fazer tudo um pouco. Hoje, na verdade, eu queria estar aqui comemorando alguma coisa sobre ele. Por exemplo, que ele fizesse pelo menos 18 anos. Ele não fez 18 anos, ele morreu com 17 anos de idade. Eu tenho 34 anos e eu tenho tanto sonho ainda para ainda viver… Ele morreu com 17 anos de idade e não dá para acreditar nisso”.
Keyla foi mais uma irmã de Hudson que falou durante o evento, compondo a mesa no Plenarinho da Câmara ao lado de Gilmar. Principal responsável pela paixão de Preto pelo Figueirense Futebol Clube, ela lembrou da trajetória do irmão caçula nos projetos sociais da comunidade.

Hudson tocava atabaque nos ensaios e apresentações do Grupo Mittos, coletivo de dança afro do Morro do Mocotó. Ali, também realizou formações profissionalizantes e iniciaria sua trajetória como jovem aprendiz. Preto também era capoeirista do Abadá Capoeira, projeto sediado no morro. Ele ainda se destacava na dança, como disse a irmã.
“Dançava como nunca, não podia ouvir uma música. Lá em casa, eu sempre botava música e ele entrava dançando lá na porta. Hoje em dia é difícil colocar uma música lá em casa, porque ele não vai entrar dançando”.
Keyla ainda se lembrou de como Hudson era dedicado ao trabalho. Além de falar da parceria com Gilmar, com quem Preto trabalhou em seu último dia de vida, a irmã destacou também a época que o caçula da família ajudava a mãe quando ela vendia marmitas para ajudar nas contas de casa.
“A comunidade toda conhecia ele, porque ele entregava a marmita a pé. Entregava pela comunidade, escadaria acima. Sol, chuva, ele tava lá entregando a marmita pra minha mãe. Esse era o meu irmão”.
Das falas em comum ditas pelos dois irmãos, um pedido destacou-se — e ecoou pelas falas dos demais participantes do evento a partir dali: justiça.
Luto coletivo
Quando uma adolescente negra no púlpito da Câmara Municipal leu a primeira frase do texto que preparou para aquele momento, o Plenarinho ficou especialmente silencioso.
“Eu já me imaginei dentro dessa Casa por várias vezes, mas eu nunca pensei que seria pedindo justiça”.
Amigas de Hudson também estavam entre as moradoras que criaram coragem e deram a cara à tapa para pedir justiça pelo amigo de infância. Histórias de Preto no samba e na capoeira foram contadas pelas garotas, bem como memórias felizes de quando transitavam pelo beco onde o jovem foi morto.
“Ele era um menino alegre. A gente podia estar na chuva, ele dava o guarda-chuva, andava na chuva. A gente com frio, ele dava o casaco dele pra gente se cobrir”, lembrou uma das amigas do adolescente.

Elas ainda se recordaram com dor da noite do crime — quando, junto da família, buscaram por informações sobre o paradeiro de Hudson pelo morro, pelo Centro da cidade e no Instituto Médico Legal (IML). As jovens também lamentaram como o amigo foi retratado em veículos da mídia comercial, onde foi divulgada a informação de que Hudson estaria armado e vestindo uma balaclava.
Mas, acima de tudo, as amigas de Hudson falaram sobre sonhos. “O Preto sonhava tão alto que me fazia acreditar que até os meus desejos mais distantes poderiam virar realidade”. O maior sonho do próprio Hudson, segundo uma delas, era construir uma casa de melhor estrutura para a sua mãe.
As jovens foram até o púlpito da Câmara acompanhadas de Ana Cristina Bittencourt. Há mais de 30 anos à frente do Grupo Mittos, Aninha, como ela é mais chamada, é figura materna e referência de luta para a juventude do Moca. Aninha fez uma fala denunciando o longo histórico de violência policial no morro: “Há 30 anos eu tô nessa luta e há 30 anos eu vejo tudo engavetado”.
A própria criação do Grupo Mittos, três décadas atrás, está diretamente ligada ao contexto de violência policial do Mocotó — o grupo foi criado após uma série de mortes causadas por agentes de segurança no território na década de 1990. Aninha lamentou que tem sido cada vez mais difícil convencer pais e as próprias crianças a comparecerem no projeto social devido à constante e violenta presença da polícia pelos becos do Morro do Mocotó.
O futuro da juventude foi tema de várias falas de moradores e lideranças. Moisés Nascimento mora no Mocotó há cerca de dez anos, sendo representante do movimento social Frente Juventude Vozes da Favela. Ao lado da família de Hudson, o líder comunitário compôs a mesa da audiência na Câmara Municipal e lamentou a falta de apoio público a iniciativas voltadas para construir futuros positivos para a juventude periférica de Florianópolis.
“A gente trabalha essas crianças todos os dias para não ser mais um morto pela polícia. Tanto trabalho, tanto trabalho que a gente faz dentro das comunidades para que não seja mais um na estatística de morte dentro dos territórios periféricos. É muito doloroso ver que nosso trabalho não tá sendo visto”, disse Moisés.
Ele pontuou como tem sido comum operações policiais violentas acontecendo no horário de saída das crianças de escolas e projetos sociais, além da dificuldade para encontrar canais de denúncia efetivos e seguros para lideranças e moradores dos territórios. Segundo ele, a solução para o problema da violência passa por investimento público.
“Em vez de vocês subirem a nossa comunidade armados para nos destruir, podem trazer livros, podem trazer projetos, podem trazer cultura, que eu garanto para vocês que esses dados vão cair”.



Eliane Araújo foi mais uma liderança do Moca que foi ao púlpito. Representante do Conselho Estadual da População Afrodescendente (CEPA/SC), fez questão de pontuar que estava ali, sobretudo, como moradora do Mocotó e como mãe — ela criou seus quatro filhos na comunidade. Eliane relatou a presença constante da polícia no território, em guarnições que apontam armas à revelia para moradores e moradoras.
“Eles ficam parando todos os carros que passam, todas as motos que passam, todos os moradores que passam, e não importa a idade”, disse Eliane. A liderança denunciou um caso recente no Mocotó, onde uma criança de 14 anos foi abordada quando ia ao mercado comprar pão.
Assim como Moisés e Aninha, Eliane também cobrou por mais políticas públicas de cultura e educação. Até que o investimento público chegue, o Mocotó e outras comunidades periféricas coletivizam luto e luta apoiando-se em si próprios. “A comunidade me abraçou há 25 anos atrás. Cada pedra que tem lá, eu ajudei a construir, a colocar na calçada. Então, falar dessa família é falar da minha. E o Hudson era maravilhoso”.
Os bastidores
Questionar a polícia dentro das estruturas do Poder Público em Santa Catarina não é tarefa simples. Não apenas as estruturas efetivamente responsáveis por investigar crimes cometidos por agentes de segurança são ineficazes, como a maioria dos representantes eleitos pelo povo também não costumam dar ouvidos a demandas que envolvam violência policial.
Na Câmara de Vereadores de Florianópolis, o último grande evento para discutir o tema sem um viés pró-polícia tinha acontecido há quase quatro anos. Em julho de 2022, uma audiência pública denunciou a morte de Nathaniel Alves Mendes — ocorrida também no Morro do Mocotó, em setembro de 2021.
Quando tinha a mesma idade de Preto, 17 anos, Nathan foi baleado pelo Batalhão de Choque com dois disparos efetuados aos pés de uma escadaria. Instantes depois, foi atingido por outros dois disparos com angulação diferente dos dois primeiros — indicando que os policiais avançaram escadaria acima entre as duas sequências de tiros. Os dois últimos tiros foram dados pelas costas, com Nathan já caído no chão. O policial que portava a câmera corporal da guarnição encontrava-se fora da comunidade quando seus colegas dispararam contra o jovem — que não conheceu seu primeiro e único filho, que nasceu seis meses depois.
Da morte de Nathan à realização da audiência pública que discutiu sua execução, nove meses de intensa articulação política se passaram. Na época, o evento aprovado pelo plenário da Câmara tinha como tema oficial a invasão a uma ONG no Morro do Mocotó no mesmo dia do homicídio — ou seja, discutir a morte do adolescente em si não era prioridade da maioria dos parlamentares.

No caso de Hudson, foi necessário menos tempo para que o assunto chegasse à Câmara — na prática, visto que houve período de recesso no legislativo, pouco mais de um mês. Mas também não tratou-se de um processo simples.
A proposta inicial apresentada pelo vereador Leonel Camasão (PSOL) era a de realizar uma audiência pública nos mesmos moldes e com o mesmo peso da realizada na época da execução de Nathan. A ideia foi prontamente rejeitada pelas bases do prefeito Topázio Neto (à época do PSD, hoje do partido Podemos) e, principalmente, do governador Jorginho Mello (PL).
Nos corredores da Câmara, o começo de março foi marcado pela articulação direta de agentes da comunidade do Mocotó (como a Frente Juventude Vozes da Favela e lideranças comunitárias do Grupo Mittos) para que houvesse o número mínimo de votos para a realização da audiência. Em 10 de março, minutos antes da votação no plenário da Câmara, o clima ainda era de apreensão.
Mas, desde dezembro, o assassinato de Preto já havia causado repercussão demais para que a Câmara o ignorasse. Além da pressão pela realização da audiência, memórias de Hudson e denúncias acerca de seu assassinato têm sido amplamente compartilhadas nas redes sociais desde o acontecimento. Duas grandes manifestações protagonizadas por familiares e vizinhos do adolescente haviam tomado as ruas da cidade ainda no final do ano passado.
Mesmo assim, a base política do governo estadual na Câmara de Florianópolis não deu o braço a torcer por completo. A proposta inicial de uma audiência pública teve de ser reformulada para uma reunião ampliada (que tem caráter menos formal que uma audiência) para que fosse viável debater o tema na “Casa do Povo”.
A reunião foi aprovada por apenas um voto a mais que o necessário — foram 13 no total. Cinco vereadores foram contrários à discussão do tema: Bericó e Manu Vieira (PL); Diácono Ricardo, Rafinha e Ricardo Pastrana (PSD). Outros cinco não estavam no plenário no momento da votação: João Cobalchini (MDB), Pastor Giliard (PL), Claudinei Marques (Republicanos), João Padilha (PL) e Renato da Farmácia (PSDB).
No ano passado, um pedido de audiência de autoria da vereadora Carla Ayres (PT) para discutir violência policial a partir de casos de homicídio no Complexo do Monte Cristo havia sido rejeitado no plenário. No mesmo dia da aprovação da reunião ampliada do caso Hudson, um pedido de reunião formalizado por Bruno Ziliotto (PT) e que tinha como objetivo apresentar o relatório “Segura Pra Quem?”, produzido pelo Desterro, foi igualmente derrubado pela base política de Jorginho Mello. Carla e Bruno compuseram a mesa da reunião do caso Hudson.
O relatório “Seguram Pra Quem?” foi lançado em novembro de 2025 e analisa as mortes decorrentes de ação policial em Florianópolis nos últimos dez anos. No período, nossa organização contabilizou mais de 150 vítimas – das quais 85% delas morreram em favelas da cidade. O Mocotó é uma das comunidades com o maior número de vítimas no período, com 14 (ao menos mais duas mortes foram registradas no território depois do lançamento do relatório, incluindo o próprio Hudson).
Periferia unida
O período entre a audiência pública que discutiu a morte de Nathan (em julho de 2022) e a reunião ampliada que discutiu a morte de Hudson (em abril de 2026) foi de grande escalada na letalidade policial em Florianópolis. Em pouco menos de quatro anos, foram pelo menos 94 vítimas da polícia ao redor da cidade — cerca de 80% desses casos em territórios periféricos.
Em um contexto onde quase uma centena de famílias enlutadas não encontraram espaço para debater o homicídio de seus parentes em instituições públicas, a reunião ampliada do caso Hudson foi marcada pela denúncias de vários desses casos. Moradores e lideranças de diversos territórios periféricos de Floripa compareceram à Câmara. A própria família do adolescente pontuou o contexto de violência crescente, se solidarizando com outros familiares de vítimas do Estado que estavam presentes.
“A nossa comunidade é linda, gente. Não só a nossa, muitas outras. A Mariquinha, o Siri, no Saco dos Limões e muitas outras. Todo mundo é bandido agora? Não! Parem com isso, por favor, é só isso que a gente pede. A gente só pede justiça”, disse Keyla.
A Favela do Siri, mencionada por Keyla, era um dos territórios cujo luto era mais recente no dia da reunião ampliada. Àquela altura, os moradores da comunidade do Norte da Ilha ainda choravam a morte de dois jovens em um intervalo de dez dias, entre o final de março e o começo de abril de 2026 — Gustavinho, de 17 anos, e Nicolas, de 29.

Cadu Ferreira, do Siri, foi uma das lideranças de outras comunidades que esteve na Câmara. Ele denunciou que Nicolas, morto dez dias após Gustavinho, teria sido vítima da mesma dinâmica mortal que vitimou o adolescente: disparos na cabeça. Ele ainda pontuou que o horário escolhido pela PM para realizar diversas operações no Siri tem sido próximo às 17h, impactando a segurança das crianças — como aconteceu nos dois homicídios mais recentes no território. Esse contexto tem se repetido em outras comunidades, como o próprio Mocotó.
“As crianças têm medo da polícia dentro das comunidades. Estoura um foguete, a polícia está entrando, sai todo mundo correndo. Sai todo mundo porque eles entram a milhão. Esse horário de 5 horas da tarde, essas entradas de viatura nessa velocidade que entram, é tragédia anunciada. Daqui um pouco a gente vai ter criança atropelada. A política do estado de Santa Catarina é uma vida banalizada, não tem valor nenhum, só tem valor se tiver dinheiro”.
Barbeiro dos crias da comunidade do Morro da Costeira, no Sul da Ilha, Antônio Danilo também teve sua morte relembrada durante a reunião. Ele morreu em 25 de agosto de 2025 e, assim como Hudson e Gustavinho, também teve sua trajetória contada em uma reportagem do Desterro. O jovem de 19 anos não possuía antecedentes criminais — e deixou duas filhas pequenas e uma esposa ao ser morto.
“A gente precisa dar um jeito de tentar encontrar uma maneira de denunciar de fato, de fazer uma investigação mais rigorosa. Temos que tentar mover o Ministério Público ou alguém a investigar esses policiais. Porque é uma política de extermínio. Geralmente, quando eles vão ao local eles já saem avisando quando eles vão voltar a cometer o próximo assassinato. ‘O próximo é você’. Isso acontece. Se a gente sabe, a gente precisa encontrar uma maneira de prevenir isso”, disse Marcos Sodré, morador e articulador social da comunidade da Costeira — e que era cliente da barbearia de Danilo.
Em cartazes na plateia do Plenarinho da Câmara, várias outras homenagens foram feitas a vítimas da polícia. Um deles exibia a mensagem “Justiça por Tininho” — adolescente negro de 15 anos morto com um tiro de fuzil na cabeça em março de 2025, na comunidade da Vila Cachoeira. O pequeno papel pedindo justiça pelo adolescente de 15 anos ainda fez companhia a fotos e mensagens em homenagem a Hudson na Catedral Metropolitana, onde familiares e amigos de Preto fizeram uma manifestação logo após a reunião.



Além de Tininho, foram homenageados através de cartazes no Plenarinho outros jovens como Cristian Vitor (morto aos 17 anos no Papaquara, em 4 de março de 2026) e Allan Simonato (morto aos 19 anos na cidade de Blumenau, em 28 de janeiro de 2026). Também compuseram o cenário da sala desenhos feitos por crianças do Complexo do Monte Cristo, na região continental de Floripa, ilustrando o cotidiano de violência vivenciado por elas.



Estado ausente
“Olho para essa mesa e faço uma reflexão de quando a dor deixou de nos bater, né? Por que não existem mais autoridades presentes nessa mesa? Por que a gente não vê outras instituições do Estado presentes?”, questionou Ana Paula Fischer, coordenadora do Núcleo de Cidadania, Igualdade, Diversidade, Direitos Humanos e Coletivos (NUCIDH) da Defensoria Pública de Santa Catarina. A Defensora Ana Paula foi a única autoridade pública, além dos vereadores, a compor a mesa da reunião ampliada.
Órgãos de Segurança Pública, como as Secretarias Estadual e Municipal, bem como as polícias, foram convidados a participar do evento e debater soluções para as várias denúncias apresentadas. Nenhum deles compareceu. Também estiveram ausentes representantes ligados ao Ministério Público e ao Tribunal de Justiça.
Não é uma novidade. Na já mencionada audiência pública que discutiu o homicídio de Nathaniel, em 2022, nenhum responsável pela segurança pública havia comparecido. Um ano depois, em dezembro de 2023, uma audiência realizada na Assembleia Legislativa (Alesc) contou com a presença de policiais e foi marcada pela defesa da violência estatal, definida como “uso diferenciado, legal e legítimo da força” por um coronel da PMSC.
O motivo para a recusa das forças de segurança tem um motivo — exposto durante a reunião do caso Hudson por Eliane Araújo, liderança da comunidade: “Porque nós da comunidade, nós que somos moradores, não somos importantes para eles. Para eles, nós somos invisíveis, nós não existimos. Nós pagamos os nossos impostos, nós enchemos os cofres públicos, mas não somos importantes para eles”.
Leonel Camasão, vereador que propôs a realização da reunião e presidiu a mesa do evento, lamentou como agentes de segurança têm se posicionado acima da lei — e não se colocando como ferramentas para a resolução dos problema dos cidadãos: “Nós precisamos voltar para um patamar de sociedade em que os policiais são servidores públicos e não agentes acima da lei, da constituição, que podem entrar numa comunidade e matar sem nenhuma justificativa muitas vezes. Que podem matar um jovem lá no Siri, como aconteceu nessa semana. Rendido, desarmado”.
A ausência dos gestores da segurança pública, naturalmente, impacta nas ações práticas que podem ser tomadas após a realização da reunião ampliada. O encaminhamento mais discutido durante o evento foi o retorno das câmeras corporais — ausentes do fardamento da Polícia Militar de Santa Catarina desde setembro de 2024 por decisão do Comando-Geral da corporação. O levantamento mais recente realizado pelo Desterro mostra que nos primeiros 15 meses sem o equipamento, houve aumento de 143% no número de mortes em intervenções policiais.
Isto, entretanto, não quer dizer que o sistema de câmeras que foi utilizado por cinco anos em solo catarinense fosse, de fato, efetivo. A própria morte de Nathaniel, já apresentada nessa reportagem, é prova disso: o comandante da guarnição envolvida posicionou o único policial que portava câmera corporal (dentre os mais de 20 que participaram da operação) fora do morro. Há casos ainda onde a câmera foi ligada após a morte já ter acontecido, casos onde ela estava desligada e casos onde a câmera supostamente não funcionou. Além disso, a câmera corporal da polícia catarinense contava com um botão de fácil acionamento que permitia o agente ligá-la ou desligá-la quando bem entendesse.
Atualmente, há uma Ação Civil Pública, movida pelo Ministério Público Federal e pela Defensoria Pública, requerendo o retorno das câmeras ao fardamento da PMSC.
A criação de um Grupo de Trabalho (GT), formado por autoridades e representantes da sociedade civil, foi outro encaminhamento tirado da reunião. O objetivo do GT seria realizar denúncias e ações contra a violência policial. Para além das lideranças comunitárias, a defensora Ana Paula também pontuou a dificuldade de se denunciar casos de violência policial letal em Florianópolis.
“A gente tem percebido uma fragilidade probatória, muitas vezes, dos inquéritos quando tratam dessa situação. Inquéritos que tem se exaurido de uma forma muito breve, sem a coleta muitas vezes de testemunhas, de provas que são de fácil alcance e que colocam em cheque a apuração dos fatos. E que colocam em cheque também a responsabilidade das pessoas que poderiam estar envolvidas nessas situações, né?”, disse a defensora.

O advogado de defesa da família de Hudson também se pronunciou, questionando a rapidez e o volume da investigação da morte do adolescente — responsabilidade da Polícia Civil de Santa Catarina.
Um terceiro encaminhamento está diretamente relacionado à relação entre Estado e mídia. O autointitulado “jornal” Razão foi alvo de diversas críticas de autoridades e moradores de periferias durante a reunião. A página de extrema-direita é conhecida nos morros de Floripa por espalhar mentiras e publicar discursos de ódio contra pessoas periféricas — em especial, as vítimas da polícia.
Leonel Camasão pontuou que policiais têm repassado imagens realizadas por eles diretamente ao Razão. Segundo ele, uma assessora do gabinete que filmava um agente de segurança teve a imagem publicada na página minutos depois de uma manifestação que pedia justiça por Hudson, em 15 de dezembro de 2025. O mesmo aconteceu com um repórter de nossa equipe, no mesmo ato.
A constante divulgação das fotos de adolescentes, sem a devida autorização dos familiares, por parte do Razão, é outro ponto muito criticado pelas famílias e moradores dos morros. A prática, inclusive, é ilegal — viola uma série de artigos do Estatuto da Criança e do Adolescente.
Este último ponto ter se tornado um encaminhamento da reunião tem um motivo central: o financiamento público do “jornal”. De janeiro de 2023 a março de 2026, o governo estadual já repassou mais de R$400 mil diretamente à página de extrema-direita para que esta divulgue propagandas do Executivo Estadual, incluindo repasses para campanhas que vendem Santa Catarina como o “Estado mais seguro do Brasil”.
