Operação sem mandado, fora da área regular de atuação da guarnição e sem câmeras corporais terminou com a morte de um jovem absolvido em processo anterior marcado por inconsistências investigativas
Reportagem de Rodrigo Barbosa
Manhã de segunda-feira, 10 de junho de 2024.
Hendi Pereira Rosa da Silva (26) ainda dormia quando sua esposa deixou a casa em São José, na região metropolitana de Florianópolis. O jovem despediu-se da amada, mas sequer se levantou da cama. Aquele era seu último dia ali – o sexto dos sete dias de sua primeira saída temporária do Presídio Masculino de Florianópolis.
Uma pizza com a família seria a última atividade da tranquila semana de Hendi antes de voltar à penitenciária e cumprir os últimos meses de sua pena. Convenceu todos a se reunirem naquela noite, pois no dia seguinte voltaria ao presídio.
“Era pra eu estar escolhendo o sabor da pizza pra comer com ele. O que que eu tava escolhendo? A roupa do velório, qual que seriam as flores, o lugar no cemitério pra poder enterrar ele. A polícia saiu da Ilha, veio de lá até aqui, pra fazer o que? Vieram pra matar o meu filho”.
As últimas palavras de Hendi foram mensagens enviadas a sua esposa, cerca de 10 minutos após a saída dela, às 9h30.
“Tu sabe que eu te amo muito, não vivo sem ti. Parece que esses 6 dias contigo foram os melhores da minha vida. Eu tava com muita saudade disso e de ti. Te amo muito, amor. Tu é o amor da minha vida, eu sempre te falei isso, pra ti nunca esquecer”.
18 de dezembro de 2020
R. era policial do 22º Batalhão de Polícia Militar quando foi abordado por um homem de capacete na cidade de São José, região metropolitana de Florianópolis. A moto do PM de folga, estacionada do outro lado da rua, era o alvo do assaltante. Uma troca de tiros inicia-se assim que o policial saca sua arma para se defender. Ninguém se fere.
O assaltante corre, aborda o motorista de um caminhão cegonha e foge em um carro – que é abandonado, na sequência, a poucos metros do local. Vários policiais militares, incluindo a vítima do assalto, vasculham a área em busca do homem.
Um jovem negro chega a ser abordado por um dos policiais presentes na busca. O motorista da cegonha reconhece o jovem como sendo o autor do crime. Ao avistar o suspeito capturado, o policial que foi abordado logo rejeita a ideia, afirmando que o assaltante era um homem branco. O jovem negro é liberado. Em seus depoimentos na delegacia, o policial e o motorista da cegonha apresentaram descrições divergentes sobre o assaltante que os atacou.
A investigação fica a cargo da Polícia Civil.
22 de março de 2021
Pouco mais de três meses após o ocorrido, o Setor de Inteligência da Polícia Civil envia um e-mail ao delegado do caso informando não ter chegado à autoria do crime.
Neste meio tempo, o policial militar vítima do assalto iniciou um trabalho de investigação independente. Data de 13 de janeiro de 2021 o primeiro e-mail enviado pelo PM ao delegado responsável por investigar o caso. Ele informa que se utilizou do sistema interno da Secretaria de Segurança Pública para identificar um carro que teria deixado o assaltante no local do crime. O proprietário do carro, um jovem negro de 26 anos, é apresentado pela vítima como primeiro suspeito do caso.
Uma semana mais tarde, o PM volta a entrar em contato com o Delegado. Ele cobra pela realização de laudos periciais e apresenta um segundo homem que, de acordo com ele, também seria suspeito do crime. A conclusão teria sido obtida a partir da consulta a Boletins de Ocorrência antigos do jovem proprietário do carro, onde o policial teria encontrado a foto e a ficha criminal de um segundo jovem. Este é o momento em que Hendi Rosa Pereira da Silva apareceu pela primeira vez no processo.
A investigação paralela feita pelo PM foi tratada em um depoimento à Polícia Civil prestado em abril de 2021. Nele, o policial afirma, com “certeza absoluta”, que viu “bem diretamente as características e o rosto” do assaltante quando este tirou o capacete e sua máscara de proteção facial saiu do seu rosto.
As imagens de segurança incluídas no inquérito mostram que este momento não aconteceu. O homem chega à rua de capacete e, de fato, o arremessa na calçada durante o tiroteio. Porém, a máscara não se move neste momento ou em qualquer outro. O tiroteio foi filmado do começo à fuga do assaltante em dois ângulos diferentes, nos quais é possível ver ambos envolvidos no incidente durante todo o tempo.
Momento em que o policial diz ter “certeza absoluta” de que a máscara do assaltante saiu de seu rosto
29 de junho de 2021
O motorista da cegonha volta a depor. Em contexto pandêmico, o depoimento se deu por videoconferência. Na chamada, lhe é apresentada a foto de Hendi (e apenas a de Hendi) e o motorista afirma reconhecê-lo como autor do crime – embora, no dia do assalto, tenha afirmado que se tratava de um jovem negro.
A Polícia Científica realiza então um exame em um capacete tocado pelo assaltante e deixado na cena, mas não encontra nem as digitais do primeiro suspeito, nem as de Hendi. No carro roubado durante a fuga, as digitais coletadas não correspondiam a nenhuma digital registrada no cadastro estadual. Imagens de câmeras de segurança também foram periciadas e igualmente não confirmaram ser Hendi o assaltante gravado durante o tiroteio – utilizando máscara durante toda a ação.
Apesar da ausência de provas, em dezembro de 2021, um ano depois do crime, a Justiça decreta a prisão preventiva de Hendi. Uma equipe do BOPE cumpre o mandado na casa de sua namorada.
Condenado e absolvido
Cerca de sete meses se passaram entre a prisão preventiva de Hendi e a sentença do caso. Durante o período, a defesa apontou a negativa dos laudos e as inconsistências nas descrições do assaltante fornecidas pelas duas vítimas do crime.
Para o policial, o homem que o assaltou era branco, tinha o cabelo raspado na lateral da cabeça, olhos claros e vestia casaco e calça jeans. Para o motorista do caminhão cegonha, ele era “moreno, um pouquinho mais escuro”, tinha cabelo crespo e ondulado, olhos escuros e vestia camisa e um boné.
Testemunhas também depuseram a favor de Hendi. Além de familiares, falaram à Justiça integrantes da cooperativa de motos à qual ele era associado – incluindo um de seus chefes. À época do assalto, o jovem trabalhava como motoboy em Florianópolis. De dia, quando ocorreu o crime, entregava frango assado. À noite, pizza. Ambos trabalhos eram realizados na região central de Floripa, distante mais de 15 quilômetros do local da ocorrência, na cidade de São José.
Comprovantes de pagamentos efetuados dias antes do crime foram anexados ao processo e confirmam que o jovem tinha emprego na data dos fatos.
Os argumentos, no entanto, não tiveram efeito. Hendi foi condenado a 30 anos de regime fechado.
O procedimento envolvendo o reconhecimento fotográfico de Hendi seria central para o resultado da apelação feita pela defesa. Não apenas a suspeita contra o jovem surgiu após uma investigação paralela de uma das vítimas do caso, como aquela fotografia seria a única apresentada ao motorista do caminhão.
De acordo com os arts. 226 e seguintes do Código de Processo Penal, é necessário que a fotografia do suspeito do crime seja exibida ao lado de fotografias de outras pessoas com características semelhantes. Além disso, a defesa também argumentou que, legalmente, apenas o reconhecimento fotográfico não é suficiente para condenar uma pessoa.
Em paralelo ao recurso que corria na Justiça, Hendi tentava também chamar a atenção da Juíza da Vara de Execuções Penais para sua condenação:
“Excelentíssima Senhora Doutora Juíza de Direito da Vara de Execução Penal do Estado de Santa Catarina, preciso que você lê tudo isso por favor.
Venho respeitosamente até sua pessoa através desta carta pedir a senhora se é possível anexar esta carta ao meu processo, ou se você não for a pessoa certa para receber esta apelação por favor encaminhar para o órgão competente, pois tenho só o seu endereço comigo.
[…] Fui condenado INJUSTAMENTE por um crime que eu não cometi. Em meu processo no meu ponto de vista já de início começou errado pois o crime que estão me acusando teve uma vítima que é Policial Militar. Flagra-se que a vítima é Policial Militar e não P. Civil. A vítima de um crime que fez a investigação, sem um órgão competente presente (Polícia Civil).
[…] Somente ensejaram em achar um culpado e a Juíza de Direito da 1ª Vara de Execução Penal da Comarca de São José me condenou ilegalmente com base em reconhecimento fotográfico e por meu passado, pois quando eu tinha 18 anos fui preso pelo crime de 157, assim me tornando “reincidente”. Mas um erro que eu já cometi na vida não justifica outras coisas.
Meu Deus estou apavorado, muito indignado, já pensei em me matar várias vezes. Só não fiz isso ainda por causa que amo muito minha esposa e minha família e ainda temos chance de provar minha inocência.
Só clamo por uma atenção de um órgão competente. Por favor, não é justo. Tenho uma vida, uma família, tô sem chão. Prefiro me enforcar e tirar minha vida do que pagar por um crime que não fui eu que fiz. Pois tudo o que eu fiz fui homem pra assumir e paguei pelo meu erro do passado.
Me dê uma atenção por favor. Eu imploro”.
O recurso foi avaliado por desembargadores do Tribunal de Justiça de SC. De acordo com a análise de um desembargador responsável pelo caso, o PM “deixou sua condição de vítima e agiu como adido do Ministério Público”. As atuações da Polícia Civil e da primeira instância da Justiça no caso também foram influenciadas pela investigação paralela do PM.
Além do relator do caso, outro desembargador também entendeu que a condenação foi um erro. Em dezembro de 2022, Hendi foi absolvido de todas as acusações referentes à tentativa de assalto.
Regalia para poucos
Hendi não foi solto após ser absolvido. Inocente do assalto contra o PM, lhe restava uma condenação anterior por furto a pagar – relacionada a golpes aplicados em empresas locadoras de veículos cerca de dois anos antes. Pouco mais de dois anos o separavam da plena liberdade e quitação de contas com a Justiça.
Se iniciou então um esforço pessoal para abreviar esse período. “Ele sempre dizia que tava trabalhando e estudando que nem um doido. Não se envolvia com nada, ele tinha mudado”.
Nos anos de 2022 e 2023, Hendi participou do projeto Despertar para a Leitura, que fomenta o gosto pelos livros entre as pessoas presas. Demonstrou interesses variados, lendo da Bíblia a Jogos Vorazes, passando pelo Grande Mentecapto, clássico da literatura brasileira. Também fez parte do Ensino Médio atrás das grades, indo a aulas de Biologia, Geografia e Matemática. Hendi sempre teve desempenho acima da média em atividades relacionadas a estudos e leitura na prisão.
De tempos em tempos, são oferecidas oficinas profissionalizantes no presídio. Hendi participou de pelo menos uma dezena delas – como as de garçom, eletricista, auxiliar de oficina mecânica, vendedor, auxiliar de cozinha e pedreiro – totalizando quase 2.000 horas dedicadas às atividades. Mas foi na costura que o jovem se encontrou.

Trabalhar vale ouro na prisão. Através de convênios realizados entre o governo estadual e empresas, o trabalho é uma das poucas chances que as pessoas presas têm para frequentar espaços para além de suas celas. Além disso, é uma ferramenta que possibilita diminuição de suas penas. A cada três dias trabalhados, cumpre-se um a menos de cadeia. Somando o tempo de trabalho e estudos, Hendi já tinha diminuído sua pena em quase um ano.
Um dos postos de emprego mais requisitados no Presídio Masculino de Florianópolis é a estamparia. Localizada em um prédio anexo ao complexo penitenciário, o projeto já produziu milhares de camisas desde sua fundação, há quase 20 anos. Dali saem uniformes de diversas empresas, projetos sociais, cursos universitários, entre outros. Mais recentemente, o próprio uniforme da Polícia Penal também vem sendo produzido com mão de obra da penitenciária.
Apenas 10 dos mais de dois mil detentos são autorizados a trabalhar na estamparia. Os detentos selecionados para trabalhar no local são chamados pela população carcerária de “regalias”. Hendi virou regalia na estamparia em 25 de outubro de 2022 e trabalhou lá até sua morte, quase dois anos depois.
O Boletim Prisional do jovem mostra que ele ia ao trabalho religiosamente de segunda a sexta-feira, exercendo também o ofício aos sábados em períodos específicos. Seu patrão afirma que ele sempre apresentou comportamento exemplar no serviço e bom convívio com os colegas de trabalho.
O bom-humor, marca registrada desde a infância, foi responsável por modificar a atmosfera do lugar: “Os guris que trabalharam com ele sempre falavam que o Hendi era muito brincalhão no trabalho também”.
Perfeccionista, Hendi era reconhecidamente um dos melhores funcionários da estamparia. Exerceu as funções de costureiro e estampador, além de trabalhar no bazar realizado pela Pastoral Carcerária. “Ele era muito bom. Colocava o tamanho certinho. Ele que fechava as camisetas, ele era muito bom costureiro. Perfeito. Tudo o meu menino que fez”, lembra a mãe.



Apesar do talento, no cárcere, são poucos os motivos para sorrir. Depois da última visita que recebeu da família, Hendi chegou à estamparia chorando. Os colegas logo perguntaram o que havia de errado. “Tô triste porque eu tenho um irmão que é especial e minha mãe pediu pra mim que se acontecesse algo com ela, que era pra eu cuidar do meu irmão. E eu vou cumprir o que ela pediu. Eu vou cuidar dele pra ela”.
Familiares ainda contam que, embora geralmente bem-humorado e mesmo após sua absolvição no processo de latrocínio, Hendi vivia com medo. Relatava a cada visita que algo de ruim aconteceria com ele.
A família não deu muito ouvidos. Anos já haviam se passado desde o episódio com o PM e o jovem havia provado sua inocência no caso.
O dia 20 de maio de 2024 seria o último de Hendi na estamparia. O adeus aos colegas de regalia e ao patrão foi otimista.
Indo para sua primeira saída de sete dias – e apenas a seis meses da liberdade plena – o jovem falou aos amigos que aquele seria o primeiro passo para um novo futuro. “Ele saiu falando pros guris que queria ficar de boa com a gata dele e arrumar um trampo”.
Quando a notícia da morte de um dos colegas de trabalho mais dedicados chegou à estamparia, a reação foi de perplexidade. “Nunca mais a estamparia foi a mesma sem ele. Muita covardia”.
Sete dias
Além da diminuição da pena, trabalhar também gera renda para as pessoas presas. De dentro da cadeia, Hendi ajudava a esposa com as parcelas de uma casa adquirida na planta pelo casal, na cidade de São José. Foi este o endereço informado por Hendi ao Departamento de Administração Penal (DEAP) como sua estadia durante a saída temporária.
A saída temporária é um dispositivo que permite a pessoas presas ter convívio com a família fora das grades por sete dias em datas determinadas. Popularmente conhecido como “saidinha”, é o momento mais aguardado por presos do regime semiaberto.
“O Hendi tava tão leve… Quando ele saiu, ele tava palhação, cheio de brincadeira, cheio de gracinha”.
Hendi teve a primeira saída temporária de sua pena em 6 de junho de 2024. Foi sua primeira vez na casa nova.
Assim que saiu, recebeu um celular simples da mãe para se comunicar fora dos muros do presídio. Um amigo empreendedor foi um dos primeiros contactados por ele.
“Daê feio, cantou os 7 dias! Graças a Deus, tava ficando até maluco já, feio! Sair de vez eu vou comprar uma motinha e voltar a trampar de novo porque não quero mais voltar pra lá não. Tá maluco feio, Deus que me livre!”
A loja deste amigo foi um dos poucos lugares visitados por Hendi durante sua saída. Renovou a carteira de motorista no DETRAN e acompanhou a mãe no trabalho, além de visitar a irmã e a própria coroa – que planejava ajudar o filho a montar um negócio assim que deixasse o presídio de vez, o que aconteceria em fevereiro de 2025. Para tanto, pretendia vender o próprio carro.
A experiência e habilidade com costura e estamparia, adquiridas na prisão, fizeram com que um atelier fosse a primeira ideia da mãe para o futuro do filho na condição de egresso do sistema prisional. Pensar nas máquinas, entretanto, levava a cabeça do jovem de volta para dentro do cárcere.
“Não mãe, vamos abrir uma conveniência que é melhor. Não quero mais saber de máquina. Vou abrir a conveniência e tu vai parar, tás velhinha”.
O reencontro
A sede do Batalhão de Patrulhamento Tático do 4º Batalhão da Polícia Militar (4BPM) fica no coração de Florianópolis. Mais especificamente, no topo de uma cadeia de morros da região central. Posicionar-se acima da cidade foi uma forma de o Tático do 4BPM demonstrar poder e observar de perto aquelas que são seus principais alvos: as favelas do Maciço do Morro da Cruz, maior aglomerado de comunidades da capital catarinense.
Na manhã de 10 de junho de 2024, o alvo do Tático do 4BPM estava bem longe dali. Pouco depois das 9h, uma guarnição desceu o Maciço munida de fuzis e sem câmeras corporais.
Somados, os quatro policiais que integravam aquela guarnição já haviam participado de operações que culminaram na morte de pelo menos dez jovens. Um deles era o policial que alguns anos antes havia identificado Hendi como autor de um assalto do qual foi vítima. O PM havia trocado o 22BPM pelo 4BPM dois anos antes.
A guarnição passou pelo Centro, mas não seguiu para o Sul da Ilha – também sua área de cobertura. Em vez disso, os policiais foram em direção à ponte. Naquela manhã, o 4º Batalhão atuaria para além de seus limites.
Seguiram pela região continental da cidade até chegarem na área de patrulhamento do 7º Batalhão da Polícia Militar de Santa Catarina (7BPM), na cidade de São José.
A viatura chegou ao bairro sem causar alarde. Vizinho algum ouviu a aproximação da polícia. Os policiais entraram em um loteamento de casas recém-construídas e foram diretamente à casa de número 2. Mesmo não havendo mandado judicial, os PMs pularam o muro da residência. Não se sabe se entraram na casa por uma janela ou pela porta dos fundos, que estava destrancada.
Pouco depois, no meio de uma manhã tranquila, vizinhos ouviram uma sequência de disparos de arma de fogo. Uma vizinha tentou ir ao quintal ver do que se tratava, mas foi imediatamente impedida por um policial. O número de viaturas foi então crescendo. Parecia ser algo grave.
Dentro da casa, o chão branco tingiu-se de vermelho. Em um pequeno corredor entre dois quartos, o corpo de um jovem sem vida. Ninguém além dos policiais viu o crime – o que não quer dizer que suas memórias não sejam vívidas para a família.
“Eu ouço os gritos do meu filho. Cê tem noção? Eu ouço os gritos dele pedindo pela vida dele”.
Apesar da falta de testemunhas sem farda, há algo que nos conta o que aconteceu na manhã em que Hendi Rosa Pereira da Silva foi morto pela PM: os laudos do inquérito de seu homicídio.
Hendi, que dormia até a saída da esposa, minutos antes da chegada da PM, foi atingido por três dos seis tiros de fuzil disparados pela guarnição dentro de sua casa. Um dos disparos atingiu a cabeça do jovem e foi feito à queima-roupa. A proximidade entre a arma e sua cabeça gerou uma queimadura na pele – marca que prova a curta distância do tiro.
A angulação deste disparo também chama a atenção. A cabeça de Hendi foi atravessada por um projétil de fuzil “de cima para baixo”. Em uma casa de um único pavimento, isso necessariamente indica que o atirador estava em uma posição mais alta que Hendi – logo, é possível afirmar que a vítima não se encontrava em pé quando foi atingida.
“Imagina o desespero desse guri com um fuzil na cabeça…”.
Um segundo tiro, que atingiu o ombro da vítima, tinha a mesma angulação e também foi disparado a curta distância. Houve ainda um tiro frontal que atingiu o peito do jovem.



Cerca de três horas se passaram até que a família de Hendi tivesse notícias do ocorrido. O Estado não informou a família que havia matado o jovem, cabendo a um parente dar a notícia do assassinato. “Tava circulando nos grupos de Whatsapp dos policiais que mataram um vagabundo”. Um endereço desconhecido foi primeiramente informado como suposto local do crime. A irmã de Hendi não acreditou. Sabia que o irmão não havia saído de casa. Buscou a mãe e foram para a residência de Hendi.
Quando a família chegou ao local do crime, a polícia e o corpo da vítima já haviam deixado a casa. A porta foi deixada aberta. Só acreditaram no que havia acontecido porque era impossível duvidar da enorme poça de sangue que tomou conta da área. Ainda assim, não entendiam o que poderia ter motivado o crime.
Além do sangue, outro elemento estranho na casa chamou a atenção da família. A mesa da cozinha estava posta com dois copos de plástico servidos de vinho, em uma cena diferente da deixada pela esposa de Hendi quando saiu de casa, minutos antes dos tiros. Posteriormente, o exame do corpo da vítima indicaria ausência de álcool em seu sangue. Notaram também fios de energia estourados e a presença de um narguile mal montado que não estava ali antes.
Uma série de coincidências
A Polícia Militar alega que o Batalhão de Patrulhamento Tático do 4BPM atuou em São José naquela manhã por uma falha generalizada em diversos outros Batalhões da região metropolitana, que apresentariam conjuntamente lacunas em seus efetivos no turno da manhã. O policial que já conhecia Hendi estar na cena do crime não passaria de uma coincidência.
Há pelo menos seis Batalhões da PM mais próximos à casa de Hendi que a guarnição que o assassinou – localizada a 20km do local do crime. O 7BPM, que faz o patrulhamento da cidade de São José, fica a apenas 5km do local. São José também abriga a sede do Batalhão de Operações Especiais da PMSC (BOPE). Esta fica ainda mais perto da casa: 3km. O 22BPM, responsável pela região continental de Florianópolis, está a pouco mais de 7km de distância.
O 4º Batalhão tem uma sede para seu Batalhão Tático e outra para as demais equipes – esta também fica mais próxima à cidade de São José que o Batalhão responsável por matar Hendi. Se analisarmos as fronteiras da extremidade oposta de São José, continente adentro, encontramos os dois Batalhões do 16BPM – o tático e o convencional – responsáveis pelo patrulhamento da cidade de Palhoça. Estes, respectivamente a 10 e 15km do local do crime.
Embora a PM afirme que apenas a guarnição do Tático do 4BPM tinha condições de operar naquela manhã, o próprio comandante do Batalhão afirmou em depoimento que viaturas do 7º Batalhão estiveram disponíveis no período: “Foi feito contato com a Agência de Inteligência do 7º Batalhão, que é da área aqui de São José e fez ali um monitoramento também”.
A PMSC alega ter recebido uma denúncia de que Hendi teria deixado o Presídio Masculino com uma missão a cumprir, a mando de uma facção criminosa catarinense. O jovem teria sido designado para transportar armas (no plural) para o Morro do Mocotó, na região central de Floripa. A corporação ainda afirma que Hendi teria sido visto na manhã de sua morte andando pela rua do loteamento onde vivia, no que a PM afirma ser uma “atitude suspeita”. O depoimento do comandante, no entanto, afirma que não havia suspeita conclusiva.
“No sábado foi feito o monitoramento, acredito que na parte da manhã, finalizou antes do meio dia. Mas também nada conclusivo, nada que indicasse que ele estaria saindo de um local para ir até o Morro do Mocotó para levar o armamento. Na segunda-feira novamente foi feito o monitoramento. E por volta de 09h45, um pouco antes, eu fui avisado no grupo que tava acompanhando a situação que tinha havido o confronto e me desloquei até o local”.
Perguntado sobre ter sido o responsável pela ordem para que sua guarnição extrapolasse os limites de atuação, ele até confirma – mas acrescenta. “Na verdade, acima de mim, dentro da hierarquia da Polícia Militar, tem alguém dentro da Agência Central de Inteligência, com um posto superior ao meu, que nesse contato prévio pediu que o Tático do 4º Batalhão ficasse à disposição”.

O policial envolvido no caso em que Hendi foi absolvido diz não ter entrado na casa naquela manhã. Nenhuma câmera de segurança registrou imagens do dia do crime. As câmeras corporais da guarnição, à época ainda em vigência na PMSC, foram deixadas em Florianópolis.
“Eu não era amigo nem inimigo do Hendi. Ele veio a ser um dos suspeitos de um assalto que eu sofri há alguns anos atrás […] E pessoalmente eu até… Depois eu fiquei pensando: eu achei até que foi bom eu estar de motorista pra não envolver algo que pudesse ser pessoal com o profissional e acabar prejudicando a minha equipe. Sei lá, às vezes tu entra ali e tu não faz às vezes o que tu aprende, fica nervoso e etc”, afirmou o PM.
Apesar de negar a entrada na residência, o PM – assim como seus colegas – confirma que a guarnição saiu da sede de seu Batalhão, na Ilha, com direção especificamente à casa de Hendi, em São José. As alegações dos PMs envolvidos no caso foram posteriormente amparadas por instâncias superiores da corporação e são baseadas em uma suposta denúncia recebida pela Agência de Inteligência da Polícia Militar de Santa Catarina.
No inquérito do caso, a PM não apresentou nenhum indício que comprovasse a suposta missão de transporte de armas. Também não foram apresentadas pela PM imagens que mostrassem Hendi fora de casa naquele dia – sua família alega que ele sequer havia se levantado da cama até a chegada da polícia.
A ligação de Hendi com a facção em questão também é ponto central de discordância entre a família da vítima e a Polícia Militar. Mãe e amigos de Hendi afirmam que ele nunca foi faccionado, e que o fato de ele ter sido regalia do presídio é prova disso.
“Ele nunca foi de facção. Tava preso cumprindo a pena dele, mas ele trabalhava na estamparia”. Nossa reportagem conversou com egressos do sistema prisional que conviveram com Hendi no presídio, e que confirmaram a informação de que ele não tinha envolvimento com nenhuma facção.
O Boletim Prisional do jovem indica seu local de residência dentro do Presídio Masculino de Florianópolis como sendo a Galeria S, também conhecida como “seguro” e destinada a pessoas presas que não têm relação com a maior facção catarinense – que, na prática, administra várias galerias do sistema carcerário do estado.
O suposto carregamento de armas que Hendi transportaria nunca apareceu. A PM alega ter apreendido com o jovem apenas uma pistola – cuja posse não é reconhecida pela família.
“Pra que três tiros de fuzil? É uma covardia. Quatro policiais contra um desarmado, que tava em casa dormindo. Ele tava dormindo, ele acordou no susto e foi ver”.
Um notebook da esposa da vítima também foi apreendido – sendo devolvido pouco tempo depois por não conter nada de ilegal. O celular que Hendi havia recebido da mãe assim que saiu do Presídio – e que foi utilizado por ele para mandar uma mensagem à esposa minutos antes de ser morto – nunca apareceu. Segundo os familiares, o celular seria uma prova de que o jovem não planejava nada de ilegal.
“Eu comecei a ligar pra ele e tava chamando o celular. Era 12h30. Primeira coisa eu liguei pro Hendi. Achei que era mentira. E o celular dele chamando. Na quinta vez que eu liguei, caiu. Sumiu o celular. Apreenderam o notebook da esposa dele, mas cadê o celular”?
A PM ainda alega ter apreendido drogas no interior da residência – 15g de maconha e 5g de cocaína. A versão da guarnição, que não tinha mandado para entrar no local, é de que teriam avistado pela janela da casa (a mais de 10 metros de distância) petecas contendo um pó branco em cima da mesa da sala (que fica pelo menos mais 5 metros casa adentro). Foi esse suposto “flagrante” o motivo dado pelos policiais para que entrassem na casa.
Segundo a PM, os policiais “varreram” três cômodos até chegarem próximos ao quarto de Hendi. O jovem teria saído do cômodo com a pistola em mãos e realizado um disparo, o que teria motivado os policiais a atirar no jovem.
A dinâmica é contestada pela família da vítima. Segundo eles, a droga e a arma não pertenciam a Hendi – que, como já dito, não possuía passagens por tráfico de drogas. O exame de seu corpo, para além da ausência de álcool, também não constatou qualquer tipo de substância ilícita no sangue.
Os indícios de execução não bastaram à Justiça. Ainda no começo da investigação, houve uma troca no delegado responsável pela investigação do caso. O inquérito que investigou a morte de Hendi foi arquivado pelo Ministério Público em 27 de maio de 2025, menos de um ano após sua morte. O Estado considerou que a guarnição agiu em legítima defesa. Um Processo Administrativo que acompanhava o caso no Ministério Público foi arquivado cinco meses depois.
Os quatro policiais que atuaram no dia da morte de Hendi seguem trabalhando normalmente. Dois deles participaram de um duplo homicídio no Morro da Costeira em 23 de agosto de 2025, três meses após o arquivamento do inquérito da morte de Hendi. No caso da Costeira, na região Sul de Florianópolis, uma das vítimas fuziladas era Antônio Danilo – jovem de 19 anos que trabalhava como barbeiro e não tinha envolvimento com atividades criminosas. Danilo deixou duas filhas pequenas.
