Em nome da Mãe

Passeio turístico inicia celebrações do centenário da santa negra que fez o Morro da Caixa ficar conhecido como Monte Serrat

Reportagem de Rodrigo Barbosa

A história do povo preto em Florianópolis passa pelo Maciço do Morro da Cruz, maior aglomerado de favelas da capital catarinense. No meio do morro, ainda no século XIX, a fumaça anunciava que nasciam ali os nossos primeiros quilombos urbanos.

A ocupação do morro se deu por volta do século XIX, com os escravos fugitivos. Depois, naquele processo de higienização, expulsaram os negros lá de baixo. Como eles viam que já tinha sinal de fumaça, ruídos de que haviam negros aqui, eles vieram pro morro”, conta  Sandra Nascimento, liderança comunitária. 

Na ponta, onde o morro quase encosta no mar, escravizados que libertaram-se a si mesmos deram origem ao Morro do Mocotó. No meio da cadeia de montanhas, onde o Maciço toca o coração do Centro da cidade, pessoas pretas começaram a ocupar uma região conhecida como Pastinho – dando origem à comunidade que, após receber o primeiro reservatório de água da história da cidade, em 1910, viria a ser chamada de Morro da Caixa. 

A Caixa se consolidou no ritmo do samba e pela força das lavadeiras. As trajetórias das matriarcas negras, rainhas da comunidade, são um dos maiores legados da história do povo preto de Florianópolis. O tempo passou e, até hoje, o Morro da Caixa acolhe migrantes negros de todos os cantos – além de seguir sendo o lar de vários dos descendentes das primeiras famílias que ocuparam o terreno, como os Cardoso, os Barbosa e os Veloso.

Com a construção civil, lá por volta de 1920, veio o pessoal do Alto Biguaçu, Antônio Carlos, para trabalhar nas grandes construções. Hoje em dia deve ter umas 6 ou 7 mil famílias e ainda tá vindo muita gente. Chegaram os haitianos, depois os baianos que vieram trabalhar na construção civil. Depois, os paraenses e os venezuelanos. E agora tá vindo um pouco dos cubanos”.

O Morro da Caixa, comunidade da região central de Florianópolis. Foto: Warley Alvarenga

A negritude está enraizada em todo e qualquer aspecto do Morro da Caixa, incluindo a religião. Como em vários outros territórios periféricos, os terreiros de religiões afrobrasileiras sempre tiveram presença forte por ali. Mas foi o Catolicismo que marcou uma mudança importante no nome da comunidade. 

Em 1927, chegou ao cais de Florianópolis a imagem de uma santa vinda de Salvador. De pele negra, Nossa Senhora do Monte Serrat atracou na Ilha e foi em procissão, guiada por pessoas faveladas, até o coração do Morro da Caixa – onde foi construída uma capela para ela. A partir dali, o Morro da Caixa – cuja história é marcada pela liderança de mulheres pretas – ficaria conhecido por um segundo nome, que homenageia uma mulher. Por conta da devoção à santa negra, aos poucos o território foi sendo chamado também de Monte Serrat.

A Igreja de Nossa Senhora do Monte Serrat, no Morro da Caixa. Foto: Warley Alvarenga

Mesmo sendo um dos territórios mais tradicionais da cidade, o Morro da Caixa só teve acesso a vários direitos fundamentais a partir da década de 1980. A água encanada, por exemplo, só chegou aos moradores 70 anos depois da instalação do reservatório de água – que tinha como objetivo abastecer o asfalto. A linha de ônibus do morro chegou em 1993, e foi diretamente responsável por reafirmar a relação entre a Caixa e sua santa.

Naquela época, entre os bairros do Estreito e de Capoeiras, na região continental de Florianópolis, um segundo Morro da Caixa já havia nascido – nomeado também por conta de um reservatório de água, instalado décadas depois da caixa d’água do Maciço. Para não causar confusão entre os passageiros dos ônibus dos Morros da Caixa da Ilha e do Continente, a Prefeitura estampou “Monte Serrat” no ônibus que subia as ladeiras do Centro. O nome se popularizou de vez.

A ideia era botar Morro da Caixa no ônibus, mas aí como tinha o Morro da Caixa do Estreito, botaram Monte Serrat. Realmente ia confundir, não ia dar. Hoje, a maioria chama aqui de Monte Serrat. Mas pros antigos ainda é Morro da Caixa”, lembra Sandra.

A linha de ônibus do Monte Serrat. Foto: Warley Alvarenga

Em 2026, o Morro da Caixa celebra o centenário da chegada da santa negra que o fez ficar conhecido como Monte Serrat. O início das comemorações se deu em 7 de setembro. No dia da Independência do Brasil, a liderança comunitária e guia turística Sandra Nascimento, cria da Caixa, recebeu turistas aos pés do morro para contar a história do território e sua santa.

Viva Monte Serrat

Nascida e criada na Caixa, Sandra tinha que contar as histórias do asfalto quando começou a trabalhar com turismo, há mais de 40 anos atrás. 

Essas histórias da ocupação do morro a gente não contava lá embaixo. Nos cursos, contavam só a história da vinda dos açorianos. Quem vê a história dos açorianos, acha que na ilha não tem negro”. 

O roteiro das empresas de turismo passava pela Praça XV de Novembro, pelo Largo da Alfândega e pela Igreja Matriz. A presença da população preta na capital catarinense ficava restrita à parada na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, construída e frequentada por pessoas negras no começo da ocupação da Ilha – e que Sandra fazia questão de incluir em seu roteiro.

Quando o passeio era de ônibus, a parada final era no Mirante do Maciço do Morro da Cruz – o ponto mais alto da região central, de onde se tem uma vista panorâmica da Ilha. O trajeto, entretanto, não passava pela favela. A subida acontecia pela Avenida do Antão, o único caminho possível até o Mirante que não passa necessariamente por dentro de nenhuma comunidade periférica. Para convencer os turistas a subirem até lá, era necessário driblar o Morro do Horácio, a Serrinha e o próprio Morro da Caixa.

Aquelas casas chiques ali pra baixo eles chamavam de bairro do Morumbi pra dar aquela visão elitizada. Porque em São Paulo era só os chiques, então aqui também tinha que ser. Nos passeios a gente mostrava essas casas porque dava visibilidade. ‘Vamos subir o morro mais rico aqui do Centro’. Isso era o histórico que tinha que passar pros turistas subirem, nós nem podíamos falar que ali do lado era favela.”, lembra Sandra.

O Morro da Caixa e o Centro da cidade. Foto: Warley Alvarenga

Mas o desejo da guia sempre foi transformar o próprio território em um grande ponto turístico. Aos poucos, ainda na década de 1980, começou a quebrar o preconceito. 

As pessoas tinham aquele medo de subir por ser área de morro. Mas eles se esquecem que, quem mora lá em cima, desce pra trabalhar com eles aqui embaixo. Não tem que ter medo de estar lá em cima, porque as mesmas pessoas de lá, estão aqui. Eu ia plantando a sementinha. ‘O dia que vocês quiserem, eu levo vocês lá’. Aí tinha um ou outro que queria. Era assim, sabe?

Foram anos levando turistas curiosos para conhecer o Morro da Caixa por conta própria. Mas o primeiro projeto de turismo estruturado do território só veio a nascer depois do baque enfrentado pelo setor turístico (e pelas periferias de um modo geral) na pandemia de Covid-19. Em 2021, após uma série de formações sobre empreendedorismo e gastronomia realizadas em parceria com o Sebrae, foi fundado o Viva Monte Serrat – o primeiro projeto de afroturismo de Floripa.

O Viva Monte Serrat segue as diretrizes do Turismo de Base Comunitária (TBC): o modelo de gestão é planejado, conduzido e protagonizado por quem vive no território. Atualmente, pelo menos 15 moradoras e moradores do Monte Serrat fazem parte do projeto – entre guias turísticos, anfitriões, cozinheiras e pessoas que cuidam da parte administrativa do Viva. 

O TBC foi criado pra eles, pra eles ter uma renda. Tem o rapaz da bananinha, tem a Grazi do docinho, tem a que faz a pizza, tem a menina que faz pão quando a gente dá o café da manhã. O refri a gente compra na venda, não compra lá embaixo. O dinheiro tem que rodar aqui dentro, o dinheiro é sempre dividido. Por isso que é TBC, porque toda a comunidade tem que ganhar”, conta Sandra.

Sandra Nascimento, liderança comunitária do Morro da Caixa e uma das fundadoras do Viva Monte Serrat. Foto: Warley Alvarenga

Desde sua fundação, o Viva Monte Serrat já levou mais de mil pessoas às ladeiras centenárias do Morro da Caixa. Em 2025, eles foram um dos três projetos de Florianópolis reconhecidos pelo Prêmio Periferia Viva, do governo federal. Com cinco anos de caminhada, tornaram-se um projeto de referência não apenas para o Morro da Caixa, mas para várias outras quebradas da cidade.

O Viva Monte Serrat oferece quatros trajetos turísticos pelas ladeiras e trilhas do território. O Caminho da Negritude tem como foco a história da comunidade e da região do Pastinho, onde a ocupação começou no século XIX e onde ainda vivem parte dos descendentes dos primeiros moradores do morro. No Caminho da Natureza, o foco são as nascentes e trilhas que conectam diferentes regiões do Maciço do Morro da Cruz. 

O Caminho das Lavadeiras, como o próprio nome já diz, é dedicado à memória das matriarcas do território. Por fim, o Caminho do Samba mostra a relação de amor entre a Caixa e a escola de samba Copa Lord. 

Uma quinta rota foi criada especialmente para celebrar o centenário da imagem de Nossa Senhora do Monte Serrat: a Caminhada do Centenário. O passeio foi guiado por Sandra que, às oito horas da manhã, recebeu os turistas com sorriso no rosto e muito fôlego para subir as ladeiras que os esperava.

Nosso samba nasceu aqui

Na Florianópolis do começo dos anos 1900, quando o relógio ultrapassava as 22h, começava uma caçada do Estado a pessoas periféricas que circulavam pelo Centro da cidade.

Antigamente, quando dava 22h eles fechavam os portões da Praça XV. Quem andava na rua depois das 22h era tido como malandro, desocupado, arruaceiro. A polícia levava e prendia. As mulheres que eram pegas, eles raspavam o cabelo. Não podia se atrasar pra botar o pé dentro de casa. Andar na rua depois das 22h antigamente era complicado, o meu pai sempre contava. Isso lá embaixo, do morro eles não queriam nem saber”. 

Proibida de frequentar o Centro da cidade, coube à negritude fazer de suas próprias comunidades seu reduto de lazer e cultura. O Morro da Caixa transformou-se no berço do samba manezinho.

A Caminhada do Centenário da Nossa Senhora do Monte Serrat começou em território sagrado para os amantes do samba. Hoje asfaltada e chamada de Major Costa, aquela rua, em meados do século XX, era uma viela de barro tão estreita que ficou conhecida pelos moradores como Rua dos Canudinhos. Na subida dos Canudinhos, nasceu a primeira escola de samba da história de Florianópolis, em 1948. 

Naquela subida, na metade do morro, nasceu a Protegidos da Princesa. A Protegidos não nasceu no Mocotó, nasceu aqui. Tanto é que metade do povo daquela rua ali, uma grande parte que é viva hoje em dia ainda é Protegidos”. 

A antiga Rua dos Canudinhos. Foto: Warley Alvarenga

A Protegidos da Princesa acabou mudando-se para o Morro do Mocotó em uma data que a maioria dos moradores da Caixa e do Moca não sabem ao certo dizer. Mas, quando a Protegidos partiu, a Caixa já tinha outra paixão consolidada.

Sete anos após o nascimento da Protegidos, a Rua dos Canudinhos viu surgir a segunda escola mais antiga de Floripa. A Embaixada Copa Lord foi fundada em uma noite de samba onde hoje funcionam um xerox e uma mecânica. Em 1955, o começo da Canudinhos abrigava o Bar do Segundo, reduto da boemia periférica da cidade na época. 

O pessoal da boemia se juntava nos barzinhos e foi ali naquele Bar do Segundo que saiu a Escola de Samba Copa Lord. Quase todos os integrantes do Copa eram Protegidos antes, meu pai era Protegidos da Princesa. Eles saíram pra vir pro Copa Lord”, lembra Sandra.

Local onde funcionava o antigo Bar do Segundo, no começo do Morro da Caixa. Foto: Warley Alvarenga

Dali em diante, Morro da Caixa e Copa Lord se tornaram quase uma coisa só. O Copa é reconhecido por ser uma das escolas de samba do Carnaval de Florianópolis que mais se mantém ligada às raízes periféricas do samba. 

A torcida organizada da escola, formada por moradores, é uma das mais barulhentas da avenida – influenciando para que o Copa ganhasse o apelido de “A Mais Querida”. O nome da torcida também evidencia a relação entre morro e escola: Caixa Lord. Além disso, foram vários os sambas levados pelo Copa à passarela exaltando a história do Morro da Caixa – como “A vez e a voz do morro”, de 1989.

Sou alegria e amor
Trago do morro a poesia
No correr do dia a dia
Sou um sonhador

Linda favela
Como é belo teu luar
Teu chão salpicado de estrelas
Vem iluminar

[…]

E as lavadeiras
Estendem suas roupas no varal
Hoje tem pagode no Pastinho
Improvisado lá no fundo do quintal

Trecho de “A vez e a voz do morro”, samba enredo da Embaixada Copa Lord em 1989

A relação de paixão entre escola de samba e território passa também pela construção da sede do Copa, onde aconteceu a segunda parada da Caminhada do Centenário guiada por Sandra. Após ser fundado no Bar do Segundo, o Copa passou por outros dois endereços até subir o morro de vez. A atual sede fica no coração da Caixa e foi construída a muitas mãos periféricas. 

Isso aí foi feito com muito suor, tá? Cada sócio tinha que pagar todo mês, porque eles tinham a famosa joia. Meu pai foi sócio-fundador, pagava todo mês. O dinheiro da escola de samba era sagrado. O que o Copa se transformou hoje em dia, em vistas ao que era antigamente… A gente vinha pra cá de voluntário, trabalhava, fazia, acontecia. Um vinha e trazia uma coisa, outro vinha e trazia outra. Tudo com união, força e fé pra ter essa sede linda até hoje. É uma das poucas escolas que tem a sede na comunidade”, conta Sandra.

A sede do Copa também atendeu à demanda de lazer da comunidade da Caixa, funcionando como um clube. Boa parte dos moradores da Caixa cresceram por ali, em encontros comunitários e bailes. De acordo com Sandra, para além da escola de samba, o Copa Lord também foi pioneiro ao se tornar o segundo Clube Social de negros da história de Florianópolis. É a tradição do Copa enquanto clube que faz com que a maioria dos moradores usem o pronome masculino ao se referir à escola de samba.

A capela

Ficou um vazio aqui sem a santa, mas ela vem amanhã. Saiu ontem e volta amanhã, não dá pra ficar muito tempo longe de casa. Fica um vazio sem a santa aqui…”, disse Sandra assim que chegou com os turistas na Igreja de Nossa Senhora do Monte Serrat. 

A homenageada da caminhada não estava ali. É assim todos os anos, quando ela passa dois dias na Catedral Metropolitana de Florianópolis como parte das comemorações do dia da santa, celebrado em 8 de setembro. 

Mesmo ausente do altar, a imagem de Nossa Senhora do Monte Serrat estava por todo lado. No dia da caminhada, várias faixas e panfletos estavam espalhados pela comunidade anunciando a programação do centenário – com uma semana inteira de missas, apresentações artísticas, procissão, bingo e um almoço festivo no domingo, 13 de setembro.

Em um espaço anexo à igreja funciona uma cozinha comunitária, onde são produzidas cerca de 300 marmitas destinadas à população de rua da região central aos finais de semana. Por ali, mais uma representação da Nossa Senhora. Uma ilustração da santa recém-chegada à comunidade passou também a abençoar quem chega à cozinha. Segundo Sandra, inclusive, a nova imagem da santa é até mais realista que a antiga.

Olha que bonita ficou essa imagem da santa, da Nossa Senhora de Monte Serrat. Essa é da Espanha. A nossa já é mais diferente. Eu até brinco que a nossa tem um rosto de açoriana. E essa não, o rosto dela é rosto mais de negro, nariz mais largo. A nossa não, é uma imagem como a dos outros santos, só muda a cor”.

Sandra desconfia que a imagem que chegou à Caixa vinda de Salvador 100 anos atrás tenha a pele escura pois pode ter sido enterrada em uma gruta na Espanha, sua região de origem – em um contexto parecido ao da imagem de Nossa Senhora Aparecida encontrada no leito de um rio nos anos 1700, em São Paulo. Nossa Senhora Aparecida, inclusive, é uma segunda santa negra cuja imagem está presente na Igreja do Monte Serrat. 

No altar lateral, o Catolicismo da Caixa também grita sua negritude. Ali, uma imagem de Escrava Anastácia tem um lugar só para si. Embora não reconhecida pelo Vaticano, Anastácia é considerada uma santa popular brasileira por sua trajetória de resistência contra a opressão do povo preto. Como os primeiros habitantes do Morro da Caixa, foi responsável direta por libertar seu povo das correntes.

Na entrada da igreja, acima de uma estante de madeira, um santo dá boas-vindas a quem entra ali. Embora tenha a pele branca, ele é mais um sinal das raízes negras da comunidade. São Jorge é popular na quebrada por motivos que vão para além do Catolicismo. Em religiões afrobrasileiras, o Santo Guerreiro é sincretizado ao orixá Ogum.

São Jorge foi banido da maioria das igrejas porque ele trazia a linha de Ogum. E como Ogum puxava pra macumba, pro candomblé, aí ele foi banido. Mas a nossa igreja não, a gente resgatou e trouxe a imagem. […] Hoje em dia temos na comunidade o terreiro da Marinalva, que veio do Pará e trouxe a linha dos encantados. Tem o da Biana, que é do Zé Pilintra. Lá embaixo, pra quem sobe antes de chegar a Nova Descoberta, também tem outro. Mas antigamente tinha mais. Era do Dida, da Graça, da Tânia… Tinha o terreiro da Munganga, que era dirigido pelo Dijo. Era uma força de terreiro muito grande”, diz Sandra.

Filha de um migrante baiano que frequentava os terreiros do Morro da Caixa, Sandra lembra que o preconceito contra a macumba não era restrito ao asfalto. Ainda que os tambores batucassem desde o começo da ocupação do morro, também na comunidade existia resistência em relação aos orixás.

Nós éramos batizados na Católica e não frequentávamos os terreiros porque botaram medo na gente. Meu pai, como veio da Bahia, sempre ia. Nós ficava na rua, nós tinha medo de ir pra dentro dos terreiros de Umbanda. Foi uma coisa que impuseram para gente para quebrar essa religião. Era pra acabar mesmo, extinguir a religião. Mas aqui no morro sempre foi muito forte, eram vários terreiros”.

A realidade hoje é diferente. Além dos símbolos de sincretismo presentes na própria Igreja do Monte Serrat, um culto ecumênico é realizado todo mês de novembro na praça do Morro da Caixa em alusão ao Dia da Consciência Negra. A celebração é conduzida por mães e pais de santos e padres católicos – entre eles Vilson Groh, pároco da igreja do Monte Serrat e morador da comunidade desde a década de 1980. 

Dos cavalos às viaturas

Após a parada na igreja, a subida se torna mais íngreme. A maior parte da Caminhada do Centenário foi feita pela Rua General Vieira da Rosa – a principal rua do morro, nomeada em homenagem a um antigo morador da comunidade. No trajeto ladeira acima, várias histórias foram compartilhadas por Sandra aos visitantes. 

No Caminho das Lavadeiras a gente visita essa casa aqui, porque essa casa é de uma lavadeira. A água tá ali. Lá atrás, aquela casa lá dos fundos, ela usava pra fazer benzeduras. Arca caída, olho gordo, zipelão, tudo a Dona Santa benzia. E a maioria das ervas que ela usava estavam aqui no quintal dela. Lá pra trás tu sente aquele ar puro, aquela energia boa, sabe?

Nem todas as histórias contadas por Sandra se resumiam ao Monte Serrat. Várias comunidades do Maciço do Morro da Cruz são interligadas por trilhas – em sua maioria, criadas por moradores antigos que buscavam o melhor caminho para se deslocar pela cidade. A Nova Descoberta é uma das comunidades interligadas ao Morro da Caixa que teve parte de sua história contada por Sandra na subida da General Vieira da Rosa.

Aquele terreno era do pai da Índia, aquela moça que falou comigo ali embaixo. A última casa lá em cima é dela. O pai dela criava gado, cabra, porco, tudo ali. Ele descia o morro todo a cavalo. A gente ficava: ‘Ó o Juca, lá vem o Juca’. Os cavalo dele vinha parar aqui embaixo”, lembra Sandra.

A comunidade da Nova Descoberta, ao fundo, vista do Monte Serrat. Foto: Warley Alvarenga

O território da Nova Descoberta sempre fez parte dos roteiros de Sandra desde a infância, quando era necessário atravessar córregos para chegar até lá. A partir de 2002, um heliporto construído no local passou a servir como mirante para moradores e visitantes do território. 

Mas a circulação de pessoas por ali mudou radicalmente há dez anos atrás, em uma demonstração de como as políticas de segurança pública impactam o cotidiano da periferia e, muitas vezes, encerram relações históricas entre pessoas e seus territórios.

Em 2016, o Batalhão Tático do 4º da Polícia Militar – responsável pelas mortes de dezenas de jovens favelados do Maciço do Morro da Cruz – estabeleceu sua sede justamente onde funcionava o antigo heliporto. Desde então, moradores da Caixa e da Nova Descoberta nunca mais colocaram os pés em seu mirante. O ponto final das caminhadas é agora o portão do Batalhão. Onde antigamente circulavam os cavalos de Seu Juca, hoje circulam viaturas.

A polícia tomou aquela área lá, do nada. Cercou tudo, não tem mais como a gente passar pra levar turista, nada. E eles ficam fazendo tiro ao alvo lá pra cima. A gente foi chegar no portão uma vez, fomos lá conversar pra ver se a gente podia ver, se podia entrar. O cara chegou armado, na ignorância. Eu disse: ‘Bom dia para o senhor também’. A gente tava ali em missão de paz, como diz o outro”.

A sede do Batalhão de Patrulhamento Tático do 4º Batalhão da Polícia Militar de Santa Catarina, no alto do Maciço do Morro da Cruz. Foto: Warley Alvarenga

Ao final da Rua General Vieira da Rosa, está a penúltima parada da caminhada da santa. Na infância de Sandra, o local era uma chácara que pertencia a um empresário da rede hoteleira de Florianópolis. Hoje, é o Parque Municipal do Morro da Cruz.

O parque, para além da importância ambiental, também foi planejado para atender demandas de políticas públicas das comunidades do entorno, sendo sua construção uma das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do Maciço do Morro da Cruz, no início dos anos 2000. 

O PAC foi bom, só que faltou concluir. Teve escadarias que não teve o PAC e tava dentro do orçamento. Tinha ruas que tavam dentro do orçamento e não teve continuidade, muitas ruas não tiveram continuidade, ficaram de fora. Tinha que ser feito muro de contenção, essas coisas todas. Por isso que ainda tá havendo desmoronamento”, diz Sandra.

O Parque do Morro da Cruz foi concluído em 2011, mas sua estrutura atual é prova de como o Estado não destina seu orçamento para as favelas da cidade. A maior evidência está justamente nos espaços do parque mais frequentados pela juventude da periferia. As quadras do local estão com redes, grades e outras estruturas danificadas. O vestiário que era usado pelos crias entre as atividades esportivas está abandonado. 

De acordo com Sandra, o abandono do espaço é uma estratégia do Poder Público. O Parque Municipal do Morro da Cruz consta em um programa de concessões divulgado pela Prefeitura de Florianópolis em 2025. A intenção do Município é de repassar a revitalização e gestão de uma centena de locais públicos de Florianópolis à iniciativa privada.

A ideia deles é sempre essa, deixar engessado pra dar aquela impressão de que não usam pra nada, não fazem nada, pra depois privatizar. Por que que não faz manutenção? Olha só quantos anos tem essa quadra! As luzes aqui volta e meia a gente tem que tá pedindo pra colocar. Como que tu vai vir pra cá de noite treinar as crianças no escuro? Mas mesmo assim elas vêm, as crianças ainda vem cá. É igual à praça. A praça tiraram o vigilante do dia, tiraram o homem da manutenção… Eu disse: Não, nós temos que voltar a ocupar a praça pra ver gente. Aí tudo quanto é festa que tem, a gente faz no meio da praça. A gente tem que ocupar a praça pra não dar chance pra eles dizerem que tá abandonada”.

O topo da cidade

Passado o Parque Municipal, uma rodovia íngreme leva a uma das mais agressivas ocupações de todo o Maciço: as torres de TV. 

As torres de televisão é que se infiltraram dentro do morro, porque isso aqui era tudo mata nativa. Tanto é que quando veio as emissoras de televisão, a maioria dos esgotos deles corriam pras fontes da comunidade. A primeira emissora foi a TV Cultura, por volta de 1963. Até então, era só no rádio. Lá em casa antigamente dava seis horas e pronto, era a Voz do Brasil. O pai ligava o rádio e ficava”, lembra Sandra.

Da instalação da TV Cultura até os dias de hoje, cerca de uma dezena de emissoras de TV e rádio também construíram prédios murados no topo do morro. O concreto transformou o acesso ao Mirante do Morro da Cruz – a última parada da Caminhada do Centenário – em um pequeno detalhe na paisagem do local.

O Mirante, assim como o Parque Municipal, é mais um local público na mira privatista da Prefeitura de Florianópolis e faz parte da rota turística de pessoas que não necessariamente têm interesse em conhecer as comunidades de Florianópolis. Uma cruz fincada no ponto mais alto da cadeia de montanhas em 1900 deu nome a toda a região, mas é principalmente a vista panorâmica da capital catarinense que leva muitos visitantes até o topo da cidade.

Os acessos ao mirante e às torres de TV evidenciam a lógica do investimento público. O asfalto daquela região do Maciço costuma sempre estar em dia. A dinâmica do local também mostra que ainda há muito preconceito contra a quebrada – como ficou evidenciado na conversa de uma família de turistas que subiu ao Mirante naquela manhã, passando por um das várias comunidades do Maciço que dão acesso ao ponto turístico.

“Parecia que a gente tava no Rio de Janeiro! Ali o pau ronca! Ainda bem que fechamos o vidro! As crianças estavam brincando na rua! Era uma favela!

É justamente esse tipo de visão que Sandra e os demais integrantes do Viva Monte Serrat tentam reverter através das caminhadas que realizam pela comunidade. Pouco a pouco, vêm fazendo do Monte Serrat um local mais conhecido por turistas e pelos próprios cidadãos da cidade de Florianópolis.

Além disso, a atuação do coletivo busca também mudar a percepção do próprio Estado em relação aos investimentos nas comunidades. A visibilidade dada pelo Turismo de Base Comunitária ao Morro da Caixa já vem demonstrando resultado. 

Alguma coisa já mudou. Não aquilo tudo que eu quero fazer, mas muita coisa já mudou. Antes, o esgoto a céu aberto ficava um ano. Hoje em dia, a gente liga pra Casan e eles já vêm. Porque aí vem um jornalista, vem uma coisa, vem outra. E é isso que eu quero, é dar visão pro Poder Público, pra eles verem que não é só lá embaixo. A Prefeitura faz uma linha de trabalho que é só lá pra baixo. Aqui no morro ele não investem porque acham que não tem retorno”.

Os passeios do Viva Monte Serrat acontecem aos finais de semanas e os agendamentos podem ser feitos através do instagram do projeto.

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