Votos em Lula crescem 21% em periferias, quilombos e terras indígenas de Santa Catarina, impulsionando vitória democrática no segundo turno

Abstenções em zonas eleitorais de territórios marginalizados despencam entre o primeiro e o segundo turno

Reportagem de Rodrigo Barbosa

25 de outubro de 2026 foi um dia histórico para a democracia brasileira. Pela primeira vez na história, um candidato a presidente que terminou o primeiro turno em segundo lugar foi eleito no segundo turno. A virada de Lula sobre Flávio Bolsonaro, que fugiu do Brasil após ser derrotado nas urnas, foi movida por uma ampla mobilização nas redes sociais e nas ruas.

Em Santa Catarina, como já havia acontecido nas últimas duas eleições presidenciais, a extrema-direita levou vantagem, com quase 70% dos votos. Na capital Florianópolis a disputa foi mais acirrada, mas também terminou com vantagem de Flávio Bolsonaro, com pouco mais de 51% dos votos válidos. 

Porém, se engana quem pensa que a vantagem numérica de Flávio no dia 25 significa que a extrema-direita foi totalmente vitoriosa entre os dois turnos da eleição em solo catarinense. No segundo turno, Lula obteve 291 mil votos a mais em Santa Catarina, contra 220 mil de Flávio Bolsonaro – um saldo de 70 mil votos de vantagem para o presidente reeleito. 

Em Florianópolis, os 30 mil novos votos de Lula representam o dobro de votos conquistados em relação ao seu adversário. Um dos motivos para a vantagem de Lula foram as históricas mobilizações que tomaram conta de ruas e becos de diferentes regiões da capital – no Centro, onde a maior parte dos atos aconteciam, cerca de 50 mil pessoas chegaram a reunir-se simultaneamente. A redução das abstenções era tema importante entre os apoiadores do presidente.

Após o primeiro turno das eleições, o Desterro realizou um levantamento que apontou favelas, territórios indígenas e quilombos como focos de resistência à extrema-direita em Santa Catarina, na capital e no interior. Também constatamos, porém, que as abstenções nestes territórios foi quase sempre superior à de áreas próximas onde predomina um eleitorado branco e de classe média-alta. 

No segundo turno, a situação mudou. Houve grande diminuição nas abstenções em territórios indígenas e favelados do estado – que, em vários casos, compareceram mais às urnas em 25 de outubro que as elites que os cercam. Com a mobilização, Lula ampliou ainda mais sua vantagem nestes territórios: 21% de crescimento, contra menos de 4% de Flávio Bolsonaro.

A virada do presidente reeleito em solo catarinense contou com participação fundamental de pessoas periféricas, indígenas e quilombolas. 

Monte Cristo toma partido

Maior aglomerado de favelas da região continental de Florianópolis, o Monte Cristo foi palco de campanha de diversos candidatos a deputado federal e estadual no primeiro turno. As placas dos comércios da Rua Joaquim Nabuco, uma das principais do território, foram ofuscadas pelas centenas de banners de candidatos. 

A forte presença das campanhas no Complexo, entretanto, não se converteu em engajamento no primeiro turno das eleições. O Monte Cristo foi o território periférico de Florianópolis com a maior taxa de abstenção em 4 de outubro: 26,1%. Somando as abstenções com os votos brancos e nulos, um a cada três eleitores do Monte Cristo não votou para presidente no primeiro turno. 

No segundo turno, a onda democrática que tomou conta das ruas e das redes e garantiu a inédita virada para Luiz Inácio Lula da Silva no 2º turno chegou ao Complexo. A mobilização de vizinhos e lideranças comunitárias foi regra nos becos do Complexo nas três semanas de intervalo entre as duas votações. Batalhas de rimas e caminhadas estiveram entre as atividades realizadas pelo território. Três das comunidades que compõem o Complexo (a Grota, o Pastuga e a Chico Mendes) foram também palco da campanha “Seu Voto Tem Poder”, promovida pelo Desterro.

Como resultado, o Monte Cristo foi o território que registrou a maior queda da abstenção entre os dois turnos das eleições em Florianópolis, com uma diminuição superior a 4 pontos percentuais. Além disso, os votos brancos e nulos do Monte Cristo caíram pela metade. Ausente das seções eleitorais no 1º turno, desta vez o território tomou partido.

Lula levou a enorme maioria dos novos votos do Monte Cristo. Foram 552 votos a mais registrados para o presidente reeleito – cerca de ¼ dos votos para Lula no Complexo foram conquistados no 2º turno. O percentual de votos válidos para o presidente saltou de 52% para 63,5%. 

O candidato derrotado, Flávio Bolsonaro, também teve mais votos no Monte Cristo se comparado ao 1º turno – entretanto, o aumento no número de votos para o candidato da extrema-direita foi dez vezes menor que o do candidato do PT. Os 53 novos votos conquistados por Flávio correspondem a uma diminuição percentual de sua votação no Complexo, muito por conta da redução nas abstenções. Os votos válidos no candidato do PL foram de 38% para 36,5%. 

A variação da votação entre os dois turnos no Complexo do Monte Cristo. Arte: Bruno Ruthe

Em nosso levantamento realizado no primeiro turno, comparamos as seções eleitorais do Monte Cristo com as da Fundação Nacional da Saúde (FUNASA) – localizada em uma área de classe média-alta do bairro do Estreito, a cerca de 2km de distância do Complexo. Por ali, ao contrário da favela, Flávio Bolsonaro levou vantagem nos dois turnos. 

A elite do Continente, porém, não se mobilizou para o 2º turno como os moradores do Complexo. Se no Monte Cristo houve grande queda em abstenções e votos brancos e nulos, na FUNASA houve aumento: foram 2 votos válidos a menos em relação ao dia 4 de outubro. O pequeno aumento na votação de Flávio e Lula por ali vieram inteiramente dos candidatos derrotados no primeiro turno. A mobilização do Monte Cristo foi fundamental para o crescimento de Lula na região continental de Florianópolis.

Maciço em festa

O ronco das motos e o estouro dos foguetes tomaram conta do Maciço do Morro da Cruz, maior aglomerado de favelas da região central de Floripa, quando a vitória de Lula foi anunciada na TV. O território já havia demonstrado ampla preferência pelo candidato do PT no primeiro turno – e viu a vantagem ampliar ainda mais no segundo. 

Assim como em 4 de outubro, o Monte Serrat também foi o território que mais votou em Lula em toda a cidade de Florianópolis no segundo turno. Por ali, os votos válidos para o presidente reeleito saltaram de 75% para 80%. Flávio, por sua vez, obteve apenas 5 votos a mais que no primeiro turno, indo de 19,5% para 20%. As abstenções no território caíram 2,5 pontos percentuais. 

Vizinha ao Monte Serrat, a Serrinha foi a comunidade do Maciço que registrou maior queda na abstenção, de quase 4 pontos percentuais. Os votos brancos e nulos caíram pela metade. Como resultado, a Serrinha foi o território onde Lula teve maior aumento percentual entre os dois turnos: de 58% dos votos válidos, foi para quase 71%. Flávio, por sua vez, teve exatamente a mesma votação nos dois turnos – e menos de 30% dos votos válidos no dia 25.

Em um contexto onde várias comunidades têm seus votos depositados em urnas que também recebem eleitores do asfalto, vários moradores dos Morros do Mocotó e da Queimada votam juntos e compõem o maior colégio eleitoral do Maciço mapeado por nosso levantamento – com quase 4 mil eleitores. 

Nas seções localizadas nessas comunidades, Lula saltou de 52% para quase 60% no segundo turno. Flávio, por sua vez, teve sua porcentagem de votação praticamente inalterada: de 39% para 40%. Os votos brancos e nulos caíram 40% e a taxa de abstenção foi reduzida em mais de 2 pontos percentuais – fazendo com que todas as seções eleitorais do Maciço tenham registrado abstenção abaixo dos 20%.

A variação da votação entre os dois turnos em seções eleitorais localizadas dentro do Maciço do Morro da Cruz, maior aglomerado de comunidades de Florianópolis. Arte: Bruno Ruthe

No Colégio Imaculada Conceição, localizado a cerca de 2km do Maciço do Morro da Cruz, em uma área de classe alta do Centro de Floripa, a redução na abstenção foi menor que em todas as seções do Maciço – e, ao contrário da favela, houve aumento no número de votos brancos e nulos. Lula até conseguiu melhorar sua votação no Imaculada, mas Flávio seguiu à frente do petista, com 56% dos votos válidos. O local de votação mais bolsonarista de Florianópolis seguiu sendo o Jurerê Sports Center, em Jurerê Internacional, onde Flávio teve 70% dos votos no segundo turno.

A virada passou pela periferia

Somadas as seções do Complexo do Monte Cristo e do Maciço do Morro da Cruz, nosso levantamento mapeou 10.500 eleitores – dos quais cerca de 8.300 depositaram um voto válido nas urnas nestas eleições. Nas seções periféricas de nosso levantamento, as abstenções caíram 3,2 pontos percentuais – e os votos brancos e nulos, 2. 

Lula aumentou sua votação em mais de mil votos entre os dois turnos, um crescimento de quase 25%. Flávio recebeu menos de 200 novos votos, mantendo sua porcentagem de votos válidos praticamente inalterada. Ao todo, Lula teve 63% dos votos válidos, contra 37% de Flávio. A votação nas periferias segue quase exatamente inversa a registrada no estado de Santa Catarina, onde Flávio teve ampla vantagem.

O impacto em números absolutos foi certamente maior. Segundo estimativas de lideranças de ambos territórios, a população nos dois aglomerados ultrapassa as 70 mil pessoas (cerca de 55 mil no Maciço e 15 mil no Monte Cristo). Como no Brasil cerca de 75% da população está apta a votar, o eleitorado dos dois territórios é provavelmente composto por cerca de 50 mil pessoas – ou seja, cinco vezes maior que o mapeado por nossa reportagem.

Se a mesma média de crescimento foi mantida entre os demais eleitores do Maciço e do Monte Cristo, pelo menos 5 mil dos cerca de 29 mil novos votos conquistados por Lula na capital catarinense no segundo turno podem ter vindo dos dois maiores aglomerados de favelas da cidade – que ainda tem outras quebradas nas regiões do Continente, Sul e Norte da Ilha, que não entram nessa conta. Na capital mais branca do Brasil, a virada de Lula contou com protagonismo preto e periférico.

Ato pró-Lula aos pés do Monte Serrat, no Maciço do Morro da Cruz. Foto: Warley Alvarenga

A mobilização do movimento indígena

O levantamento realizado pelo Desterro após o primeiro turno também apontou territórios indígenas como forte foco de resistência à extrema-direita no interior catarinense. Na média, a porcentagem de Lula nas aldeias foi inclusive superior à das favelas de Floripa – mas as abstenções também haviam sido maiores. 

No segundo turno, houve forte mobilização do movimento indígena para mudar esse panorama. Na capital catarinense, coletivos de estudantes indígenas da Universidade Federal de Santa Catarina e membros da comunidade Goj Ta Sa (que ocupam um terminal abandonado no bairro Saco dos Limões há uma década) realizaram campanhas para possibilitar que os parentes pudessem retornar às aldeias e exercer seu direito ao voto. 

O resultado foi uma grande diminuição nas abstenções nas aldeias. Na Terra Indígena Laklãnõ, do povo Xokleng, no Vale do Itajaí, a queda foi de mais de 6 pontos percentuais – ficando abaixo dos 15%. A taxa é menor que a registrada em uma escola do Centro da cidade de José Boiteux, onde votam majoritariamente pessoas brancas – e onde Flávio Bolsonaro teve quase 80% dos votos. No primeiro turno, a situação havia sido a oposta, com uma maior abstenção dentro da Terra Indigena. 

Além da mobilização, também contribuiu com uma menor abstenção a baixa no volume do Rio Itajaí, que havia dificultado a logística dos Xokleng no fim de semana do primeiro turno. No território Laklãnõ, Flávio Bolsonaro teve exatamente a mesma quantidade de votos nos dois turnos. Lula, por sua vez, cresceu 16% e terminou com mais de 80% dos votos dentro da aldeia. O povo Xokleng foi uma das várias comunidades indígenas que realizaram atos e carreatas a favor de Lula no interior catarinense.

A variação da votação entre os dois turnos na Terra Indígena Laklãnõ, do povo Xokleng. Arte: Bruno Ruthe

No Oeste catarinense, um território registrou queda ainda maior de abstenções. A Terra Indígena Toldo Chimbangue, em Chapecó, diminuiu sua abstenção em quase 10 pontos percentuais – registrando apenas 13% no segundo turno, marca menor que a da cidade de Chapecó. Essa, aliás, foi uma regra no segundo turno: todos os locais de votação localizados em territórios indígenas tiveram abstenções menores que as abstenções da cidade em que estão localizados. No primeiro turno, apenas um dos seis locais de votação indígenas mapeados pelo levantamento havia registrado essa marca. 

Os votos brancos e nulos no Toldo Chimbangue caíram para menos da metade. O território, habitado principalmente por indígenas do povo Kaingang, foi mais um território indígena catarinense que deu mais de 80% de seus votos a Lula – em Chapecó, o presidente reeleito teve apenas 35,5% dos votos.

Em Ipuaçu, uma das únicas 6 cidades catarinenses que deram vitória a Lula no segundo turno, os indígenas da Terra Indígena Xapecó diminuíram sua abstenção em 6 pontos percentuais, deram percentual de 85% a Lula e também cortaram os votos brancos e nulos pela metade. Dentro do território, Flávio perdeu quase 30 votos de um turno para o outro. Lula ganhou mais de 200. 

Entre Rios é outra cidade que deu vitória a Lula. Assim como a vizinha Ipuaçu, a participação indígena no eleitorado da cidade está diretamente relacionada ao resultado. Na aldeia, o percentual de votos para Lula manteve-se acima dos 80% e Flávio viu sua votação encolher em 20 votos. Tanto Entre Rios quanto Ipuaçu têm pelo menos ⅓ de sua população composta por pessoas indígenas.

A variação da votação entre os dois turnos em territórios do povo indígena Kaingang, no Oeste catarinense. Arte: Bruno Ruthe

O local de votação com maior adesão à reeleição de Lula de nosso mapeamento manteve-se o mesmo do primeiro turno. Na Aldeia Pindoty, no Norte de Santa Catarina, indígenas do povo Guarani depositaram impressionantes 95,5% de seus votos em Lula no segundo turno. 

Flávio Bolsonaro venceu em Araquari, cidade onde está localizada a aldeia, com cerca de 70% dos votos. Dentro da aldeia, o candidato derrotado recebeu apenas 3 votos, mantendo sua votação do primeiro turno. A Aldeia Pindoty cortou o seu número de abstenções pela metade, sendo também o território com o menor índice de abstenções no segundo turno: apenas 5,6%. 

A variação da votação entre os dois turnos na Aldeia Pindoty, do povo Guarani. Arte: Bruno Ruthe

Somando todos os locais de votação indígenas do levantamento, são cerca de 5 mil eleitores – que depositaram pouco mais de 3800 votos válidos, dos quais 3200 foram para Lula. Lula teve 450 votos a mais que no primeiro turno, terminando com 84% dos votos das seções mapeadas. Flávio diminui sua votação em territórios indígenas catarinenses entre o primeiro e o segundo turno.

Tendo em vista que a população indígena de Santa Catarina é de quase 22 mil pessoas e que em média 3 a cada 4 pessoas no Brasil estão aptas a votar, o colégio eleitoral indígena de nosso estado é de pelo menos 15 mil eleitores – ou seja, o impacto real de nossos eleitores indígenas pode ser até três vezes maior que o apontado pelo levantamento.

O único local de votação localizado em uma comunidade quilombola mapeado por nosso levantamento também viu mais pessoas comparecendo às urnas em 25 de outubro. O Centro Comunitário de Arroio Bonito, na região do Quilombo Invernada dos Negros, diminuição sua abstenção em 20% – sendo esta também a taxa de crescimento de Lula do primeiro para o segundo turno no território. O presidente teve 61% dos votos, contra 39% de Flávio – que teve apenas um voto a mais que no dia 4 de outubro na região do quilombo. Em Abdon Batista, cidade onde está o Invernada dos Negros, Flávio teve vitória por quase 70% dos votos.

A variação da votação entre os dois turnos na região do Quilombo Invernada dos Negros. Arte: Bruno Ruthe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Veja mais

Papo reto

O Papo Reto é nosso boletim informativo diretamente no seu Whatsapp.

Ele traz um resumo da nossa última notícia de forma rápida e direta para você se manter informado. Você pode escolher receber o resumo em áudio, vídeo ou texto.

Disponível a partir de janeiro de 2025.



Apoie o Desterro

Jornalismo independente e antirracista nas favelas de Floripa

Apoie o Desterro

Jornalismo independente e antirracista nas favelas de Floripa