Tradicional Volta à Praça dos Blocos Afros Floripa é marco de resistência e celebração da musicalidade e ancestralidade negra em Florianópolis
Reportagem de Gabriele Oliveira e Naju Pereira
13 de fevereiro de 2026.
O som do tambor te puxa. Teu corpo se mexe em resposta. Cada batucada é sentida no fundo do peito, alcançando lugares que, às vezes, você ainda nem conhecia. Apesar da chuva, a festa acontece – dentro e fora do corpo.
Aos poucos, o mar de gente vai se formando ao redor da Praça XV de Novembro – local histórico de Florianópolis. Por ali, no século passado, corpos negros e escravizados se reuniam para batuques, festas e cortejos. Cortejavam sua memória e ancestralidade, e, quem sabe, a própria liberdade.
138 anos depois da abolição da escravatura, corpos negros se reúnem novamente naquele local, abrindo a sexta-feira de Carnaval e gritando ao mundo que Floripa também é preta. Que os corpos que constroem esta cidade, a ela também tem direito.
O tambor segue puxando quem passa por ali. Ouvidos curiosos se aproximam para ver do que se trata – e, então, se apaixonam. Entre aqueles que acabaram de conhecer, há também os filhos da casa – aquele público fiel, que marca presença em cada volta à praça, ano após ano, desde 2019.
Fidelidade exige esforço coletivo. Em meio à beleza, muito trabalho. Corpos de diferentes tamanhos, cores e formatos se esticam para segurar o cordão, delimitando uma divisão entre os blocos e o público que os assistem. Partilham, entre as diferenças, a semelhança do sorriso no rosto e do corpo dançante.
Entre apitos e gestos ágeis, regentes coordenam a orquestra de samba reggae e maracatu. Um a um, cada bloco deixa seu estilo cravado na pista. Enquanto o corre nos bastidores não para, a arte rouba o coração de cada ouvinte. Trabalho e arte acontecem juntos, nos mostrando outra forma possível de ser e estar neste mundo-floripa.
Africatarina, Baque Mulher Floripa, Bloco Cores de Aidê e Maracatu Arrasta Ilha: a tradicional Volta à Praça dos Blocos Afros Floripa é mais do que um simples desfile. É intervenção artística, política e social. Te faz cantar, dançar e sentir junto. É estética transformada em discurso. É grito de resistência em meio a um cotidiano de apagamento. É a negritude transformando a cidade em palco.

(Auto)cuidado coletivo
“Vem você também!”
O convite para integrar o Africatarina chegou de forma inesperada. Apesar de já conhecer Mestre Edinho há décadas, Cris nunca se imaginou tocando um instrumento. Levava, periodicamente, sua filha para os ensaios – até que, então, ela própria se permitiu experimentar a batucada.
Tinha medo de errar, sentia que estava atrapalhando. Mas, sempre que pensou em desistir, encontrou no professor não só instrução, como incentivo.
“E eu dizia: ai, Edinho, eu vou sair porque estou atrapalhando, estou errando tudo, não acerto nada. E ele falou: nada, agora que você tem que ficar. Porque quando você percebe que está errando, é a hora certa”
Adoecida após o falecimento de sua mãe, Cris encontrou no samba reggae uma nova forma de autocuidado. “Ali eu guardei meu remedinho de depressão, nunca mais usei, e estou na Africatarina até hoje.”



Em 2026, o Africatarina completou 25 anos, sendo o mais velho entre os quatro grupos que formam os Blocos Afro Floripa. Uma trajetória repleta de histórias como a de Cris – onde um tímido convite se transforma na construção de uma nova família.
“Eu vejo muita verdade na Africatarina. Vejo um lugar de coletividade, de construção coletiva. O mais importante para o Africatarina é a possibilidade de ser comunitária. Eu vejo isso como um dos pilares, é um lugar muito acolhedor”, conta Thuanny Rodrigues, integrante do bloco desde 2013.
Nessas duas décadas e meia de estrada, o Africatarina teve inúmeros palcos: a sede da Sociedade Novo Horizonte, no Morro do Horácio; a escolinha da Lagoa do Peri, no sul da ilha; e o Colégio América Dutra, no Monte Cristo. Até mesmo o gramado do Centro Integrado de Cultura (CIC) já foi casa para o grupo.
Entre inícios e despejos, o bloco passou por um período de hiato devido à falta de local fixo para a percussão. O recomeço rolou no centro da cidade – quando, em um sábado ensolarado, Edilson Roldan, o famoso mestre Edinho, levou seus tambores para o Memorial Miramar, ao lado da Praça XV. Ali, tirava os instrumentos do carro e se sentava – esperando a curiosidade brotar em quem passava.
“E aí eu começo um ensinamento muito legal. No primeiro sábado, vem 10 pessoas. No outro, vem 15. E aí foi ficando, a coisa acontecendo. E acabamos formando uma bateria com 40 pessoas”.
A teimosia rendeu bons frutos: em 2026, o Africatarina desfilou com cerca de 200 integrantes. E, mesmo com a expansão, o acolhimento nunca saiu de cena. “É a minha primeira vez, e é muito emocionante, porque a Africatarina é uma família. Todo mundo cuida de você”, conta Zeca Meirelles, que estreou no desfile este ano.
Para ele, participar do bloco também é assumir uma posição política. “É saber quem você é e trazer essa história do passado, para fortalecer a caminhada do coletivo.”
De punhos pro alto e boinas pretas, Zeca, Edinho, Thuanny e os demais integrantes do Africatarina tomaram a Praça XV com força e revolta, apresentando o enredo “Preto é beleza, preto é poder. Preto é pantera”.



Desfile do Africatarina, em 13 de fevereiro. Fotos: Nanda Souto
A música faz referência ao Partido dos Panteras Negras, – organização revolucionária socialista fundada em 1966 nos EUA, focada em autodefesa contra a brutalidade policial e na emancipação da população negra. O grupo, que seguia uma ideologia marxista, realizou diversos programas sociais durante sua atuação. Mesmo após o seu fim, na década de 1980, os Panteras Negras se tornaram um dos maiores legados antirracistas da população negra – nos EUA, mas também em todo o mundo.
A boina e o Black Power
A garra é punho erguido
com “look” tão destemido,
vem ver como o Bobby enfrenta!
Vem ver, vencer, vem ser Pantera Negra
Vem ser, vem ver nossa beleza preta
Negritude não espera (não não não)
(Preto é beleza, preto é poder. Preto é pantera. Africatarina, 2026)
Para além de uma homenagem, o enredo do Africatarina também se tornou espaço para uma importante e atual denúncia. Grupos armados, inspirados na luta dos Panteras Negras, têm sido linha de frente no combate ao ICE – a polícia migratória estadunidense, cuja atuação tem sido marcada por abordagens abusivas e violência.
“A gente tem essa referência das Panteras Negras como algo antigo, mas que, coincidentemente — porque esse samba-enredo está construído há muito tempo — voltou agora, por conta dessa conjuntura”, explica Thuanny, uma das cantoras do enredo.
Assim como no enredo de 2026, a reivindicação de direitos é pauta central da musicalidade do Africatarina desde o seu surgimento. O grupo estende sua militância para além do Carnaval, marcando presença em diversas manifestações e eventos realizados ao longo do ano – sempre, de forma gratuita, apoiando a luta de movimentos sociais na cidade e no Estado.
“Eu não me lembro de nenhum enredo da Africatarina que não tenha tido referências negras, de militância. O Africatarina sempre traz referências de pessoas pretas, de cultura negra, enredos que têm a ver com a orixalidade. Então eu não me surpreendo muito, porque eu sei que esses temas vão aparecer, e que sempre vão fazer sentido com o momento que a gente está vivendo”, diz Thuanny.



Foi dessa militância que surgiram os Blocos Afros Floripa. A primeira Volta à Praça foi feita pelo Africatarina, em 2018 – enfrentando forte repressão das forças de Segurança Pública. Um batalhão com mais de 60 policiais tentou barrar o desfile, mesmo que o grupo tivesse as autorizações necessárias.
Naquela noite, o Mestre não desistiu – assim como nos anos seguintes. Pelo contrário, se fortaleceu. Edinho, que foi o precursor do primeiro bloco de samba reggae em Florianópolis, foi também o precursor dos Blocos Afros Floripa – convidando Maracatu Arrasta Ilha, Baque Mulher Floripa e Cores de Aidê para se unirem ao Africatarina.
A união entre os quatro blocos, porém, não eliminou a repressão sofrida pelos agentes culturais – como conta Alexandra Alencar, jornalista, antropóloga e rainha do Maracatu Arrasta Ilha.
“Quando a gente saiu pela primeira vez na rua, foi mágico. Mas, ao mesmo tempo, a gente sentiu todo esse efeito de criminalização. Enquanto Blocos Afros, a gente tem que pensar se nossas crianças não vão levar spray de pimenta, se o nosso bloco não vai ser atropelado por um trio elétrico, que foi sobreposto no mesmo trajeto que o nosso, mesmo a gente pagando licença. A gente tem que pensar se não vai ter uma cavalaria que vai entrar no meio do nosso bloco e pode machucar nossos integrantes”
Para além dos agentes de Segurança Pública, a repressão também já ocorreu em nível institucional. No final de 2024, a Prefeitura de Florianópolis lançou um edital que colocava em risco o tradicional desfile dos Blocos Afros, pois, vendia o espaço público para uma empresa privada que, autorizada a instalar arenas por toda a cidade, impedia a realização de outras atividades em um raio de 1km de cada arena – o que incluía a Praça XV de Novembro e seus arredores.
Por meio de muito diálogo entre representantes de blocos de rua, incluindo os Blocos Afros, a programação foi mantida. Desde então, os representantes seguem em contato com o Poder Público para que uma das tradições mais negras do Carnaval de Florianópolis seja mantida, respeitada e, além disso, incluída nas programações oficiais do Carnaval da cidade.
A volta na praça
Ainda é de graça
E eu, tô lá!
(O olho da cobra. Africatarina, 2020)
Apesar dos obstáculos, há sete anos, Africatarina, Bloco Cores de Aidê, Maracatu Arrasta Ilha e Baque Mulher Floripa se retroalimentam de força, afeto e tambor para, ano após ano, reivindicar o espaço que é seu por direito: a cidade.
“Tem sido um enfrentamento bastante complexo. Mas, ao mesmo tempo, que tem trazido para a gente muita união, muito diálogo, muito carinho. A gente não pretende mudar e nem dar um passo atrás do nosso poder, do nosso potencial de inscrição dessas presenças negras e da cultura negra na cidade”, conclui Alexandra.
10 anos de história
Aidêêê balança,
O axé não cansaaa!
Dez anos de canto, batuque e poder,
Na rua, na roda, fazendo viver
Aidê é memória, futuro e maré
Aidê resplandece no brilho do axé
(10 anos de Aidê, Cores de Aidê, 2026)
Cantar a própria história é reafirmar a si mesmos como parte da memória de um povo. Integrante da construção de algo maior. Em 2026, testemunhamos os 10 anos do Bloco Cores de Aidê, que chega ao desfile marcado como um espaço de resistência cultural na cidade.
“É um lugar de nutrir a cultura negra e também de restabelecer coisas dentro da gente: no corpo e na mente”, afirma Paula Campos, integrante do bloco há três anos.
A banda Cores de Aidê foi iniciada por Sarah Massignan com o propósito de circular música e ancestralidade entre mulheres. O que surgiu como um desejo de uma banda de samba reggae só de mulheres em Florianópolis, se tornou uma grande rede de pertencimento. “A banda começou a se apresentar e muitas mulheres vinham, achavam um máximo e queriam saber como podiam entrar na banda. Como não cabia todas numa banda, o bloco nasceu em julho de 2016”, nos conta Déborah Xavier, integrante do bloco desde a fundação.
Déborah, que nasceu e passou boa parte da infância em Florianópolis, reforça que estar em um grupo afro-brasileiro ajudou ela a acessar outra ideia de pertencimento no lugar que é sua casa. “Cresci tendo um pai afro-indígena, mas em uma cidade branca. Quando voltei para cá, adulta, e comecei a acessar outros espaços, com pessoas diversas, mudou tudo”.
A construção de novos cenários, do bem viver em coletivo e de redes de apoio são pontos fortes do Bloco Cores de Aidê. Formado, em sua maioria, por migrantes e imigrantes, o bloco criou uma beleza única entre ocupar, resistir e celebrar.
A professora Franciane Daras Martins, que participou do desfile pela primeira vez em 2026, descreve a experiência como transformadora. “Eu sou uma pessoa antes do bloco e outra depois. É muito bom estar com pessoas que parecem comigo e sentir esse acolhimento.”



Para ela, a coletividade promovida entre as mulheres do bloco refazem a visão de um mundo possível, onde preconceitos como racismo, machismo e homofobia não são tolerados.
“O mundo está cheio de gente intolerante, e o Cores de Aidê é muito inclusivo. Tem mulheres de todas as formas que você imaginar — cis, trans, com deficiência… É essa coisa da coletividade, de voltar a acreditar no ser humano, de esperar alguma coisa melhor desse mundo”, diz Franciane.
O Bloco Cores de Aidê conta atualmente com 120 integrantes, entre mulheres e pessoas não binárias. Pessoas que tecem, entre elas, uma “mini sociedade” – como explica San Alves, regente do naipe de repique do bloco.
“Existe dentro desse bloco um nível incrível de qualidade humana, de escuta, de coração, de talentos, de formações. A gente tem advogada, médica, psicóloga, professora, enfermeira, doméstica… A gente tem tudo. Então, é a gente construindo uma mini sociedade, na verdade. Isso é o Bloco Cores de Aidê: é uma sociedade”.



Esperança e transformação pessoal também são sentimentos partilhados por Ana Clara Lemos. Ela ingressou no Baque Mulher Floripa em 2023, depois de anos acompanhando o desfile dos Blocos Afros. O que começou pela curiosidade, se tornou um dos pilares de sua vida.
“Eu já falei diversas vezes que o Baque Mulher salvou minha vida de inúmeras formas, tanto energeticamente, quanto fisicamente. A gente se enxergar umas nas outras, se acolher, se sentir amada e vista – mudou muita coisa na minha vida”, conta.
O Baque Mulher Floripa existe desde 2016. O grupo nasceu inspirado no movimento nacional Baque Mulher – criado em Pernambuco, pela Mestra Joana Cavalcanti, a partir da Nação Encanto do Pina. O coletivo reúne mulheres interessadas em aprender e tocar Maracatu de Baque Virado, criando um espaço de fortalecimento feminino dentro da cultura afro-brasileira.



Em Florianópolis, sob a regência de Marguitas Vieira, o grupo se consolidou como um espaço de encontro, aprendizado e resistência cultural, reunindo mulheres de diferentes trajetórias em torno do tambor e da ancestralidade. Seu foco no protagonismo feminino proporciona um espaço de coletividade, empatia e cuidado. Uma família, como vivenciou Ana.
“O Baque Mulher é esse lugar de acolhimento, de mãe mesmo. De união, de irmãs, de se olhar. É isso que faz com que eu continue lá. Isso que está faltando na humanidade: compreensão, abraço, respeito, sororidade”.
As referências que constroem o Maracatu de Baque Virado se alimentam da memória de mulheres negras que sustentaram essas tradições ao longo do tempo. Entre elas está Mãe Maria de Sônia, yalorixá pernambucana e fundadora da Nação Encanto do Pina, uma das matrizes. Sua trajetória espiritual e comunitária se tornou parte da ancestralidade que inspira movimentos como o Baque Mulher, que leva para as ruas o protagonismo feminino dentro do maracatu.
Em Florianópolis, essa memória também encontra ressonância em histórias mais recentes. Durante o cortejo, o enredo ecoa a luta por justiça no caso de Sônia Maria, mulher preta que vive, há décadas, em situação análoga à escravidão na cidade. Ao lembrar seu nome no meio dos tambores e cantos do bloco, o grito coletivo atravessa a praça: “Sônia livre!” transformando o carnaval em espaço de denúncia, memória e resistência.
Salve a força
Salve a força, salve ela
Maria de Sônia
Mulher Preta da Favela
(Maria de Sônia. Baque Mulher, 2018)
Assim como o Bloco Cores de Aidê, em 2026, o Baque Mulher Floripa também comemorou 10 anos de trajetória e pertencimento às raízes da cultura negra catarinense. Celebrando a primeira década do grupo, os integrantes do Baque Mulher Floripa contaram com a participação das companheiras do Baque Mulher Itajaí, Baque Mulher Joinville, Baque Mulher Balneário Camboriú e Baque Mulher Blumenau durante o desfile.



A retomada
Chegou meu baque que vem lá do Pina
Odoyá!
Trazendo a força de mãe Iemanjá
Meu baque que vem com a força do Mar
Yemanjá que nos abençoou
Agita as águas, faz poeira no mar
(Chegou meu baque. Maracatu Arrasta Ilha)
A realeza do Maracatu Arrasta Ilha descia a Arciprestes Paiva enquanto seus tambores ritmavam a praça. E, quando cantaram para a rainha das águas, ela respondeu. Emocionado, o céu despencou.
A chuva não enfraqueceu o desfile. Ao contrário, o fortaleceu. Lavou o choro dos emocionados e molhou o riso de quem, dentro cordão ou atrás dele, dançava junto com as artistas.
Cada giro de saia rodada criava espaço ao redor, abrindo caminhos e rasgando o tecido que separa o hoje do ontem. Cada sorriso no rosto estampava não apenas felicidade: era afirmação, a escolha de existir, de ocupar o mundo à sua maneira, e de conectar o presente com o passado – e com o futuro. Maracatu é retomada, pertencimento e projeção.



“Quando o baque vira, meu coração vibra junto. Parece que eu vou machucar o coração de tanta intensidade”, explica Tatiara Pinto, integrante do Maracatu Arrasta Ilha desde 2016.
“Aquele tambor que me toca por dentro… eu dou tudo de mim. Eu dou tudo porque ele me dá muito mais do que eu dou. Ele me dá vida, expressão. Eu sinto que é a minha missão no mundo: transmitir esse valor, que é afro, é pertencimento. A gente foi desapropriada das nossas terras, dos nossos costumes, dos nossos valores. E eu encontro tudo isso de volta no maracatu.”
O Maracatu de Baque Virado, também conhecido como maracatu Nação, é uma das manifestações culturais afro-brasileiras mais antigas ainda em atividade. Surgido em Pernambuco entre os séculos XVII e XVIII, durante o período colonial, ele nasce das experiências culturais de pessoas africanas escravizadas e de seus descendentes – misturando música, dança, religiosidade e memória coletiva.
Muitos pesquisadores associam sua origem às antigas coroações simbólicas dos reis e rainhas do Congo, realizadas nas comunidades negras como forma de organização e resistência cultural. Com o tempo, essas celebrações se transformaram em cortejos carnavalescos marcados pelo som das alfaias, gonguês, caixas e abês, conduzindo pelas ruas uma corte simbólica com rei, rainha, damas e porta-estandarte.
Tradicionalmente presente nas cidades de Recife e Olinda, o maracatu se espalhou para outras regiões do Brasil nas últimas décadas – em especial, por meio de grupos que mantêm diálogo com as nações pernambucanas e seus mestres. Mais do que um ritmo musical, o maracatu carrega relações profundas com religiões de matriz africana e com a memória da população negra no país, sendo considerado uma expressão fundamental da identidade cultural afro-brasileira.



Desfile do Maracatu Arrasta Ilha, em 13 de fevereiro. Fotos: Naju Pereira
Para os integrantes, ocupar a rua continua sendo parte essencial do movimento. “A gente brinca carnaval, mas também faz militância. A rua é um espaço público e gratuito, e o nosso tambor está ali para lembrar disso”, afirma Mestre Charles Raimundo, do Maracatu Arrasta Ilha.
Chega com o Arrasta, vem brincar carnaval
Hoje a rua é nossa, desde tempos ancestrais
Girando na rua é Arrasta Ilha
Fazendo da rua o seu carnaval
Girando na rua é arrasta ilha
Brincando na rua o seu carnaval
(Hoje a rua é nossa. Vem brincar Carnaval! Maracatu Arrasta Ilha, 2026)
A presença do maracatu e dos Blocos Afros na Praça XV não é apenas parte da programação do Carnaval. Ela também ecoa uma história mais antiga de ocupação negra naquele território e da construção histórica do centro da cidade.
Desde o início dos anos 2000, por exemplo, o cortejo do grupo Arrasta Ilha parte da Igreja Nossa Senhora do Rosário, tradicional espaço de organização da população negra em Florianópolis.
“Desde 2003, o Arrasta Ilha faz esse trajeto que sai da Escadaria do Rosário, da Igreja do Rosário, a igreja dos homens pretos, né? Um lugar que vem desde o Desterro do século XVIII, com pedra fundamental daquele período, onde já houveram outros desfiles de pessoas negras naquele tempo, que fizeram justamente o trajeto que a gente faz hoje”, explica Charles.


Alexandra Alencar aponta que há registros históricos que indicam que, ainda no século XIX, cortejos e festejos de pessoas negras percorriam as ruas do centro de Desterro, muitas vezes ligados a irmandades e celebrações comunitárias.
“Há registros do século XIX de cortes negros descendo a Arcipreste Paiva, ao lado da catedral. Quando ocupamos esses espaços hoje, estamos reivindicando essa ancestralidade e essa presença que sempre existiu”, pontua a historiadora.
Ao descer novamente a Arcipreste Paiva e ocupar a praça com tambores, dança e canto, os Blocos Afros de Florianópolis atualizam essa memória. É como se, a cada Carnaval, a cidade fosse lembrada de algo que sempre esteve ali: a ancestralidade negra pulsando nas ruas na capital de Santa Catarina.
“O maracatu, embora seja uma prática que não é nativa de Florianópolis, ele vem se colocar a serviço. A serviço de uma ancestralidade que aqui, por muito tempo, foi muito viva – e que permanece viva nessas conexões afrodiaspóricas”, conclui.
Quem veio antes
Rolei na terra na lama no mangue no mar
Iroco é tempo de cicatrizar
A ancestralidade está presente
O que passou virou semente
(E eu rolei)
Rolei na terra na lama no mangue no mar
Exu é caminho de se re-voltar
Memórias da pele do avesso
Começo meio e recomeço
(Banho de Tambor. Africatarina, 2025)
Entre as fantasias, roupas e adornos das alas de cada grupo, fios com miçangas coloridas se destacam. Guias de Umbanda, Quimbanda, Candomblé e Batuque reforçam a relação do coletivo com religiões de matriz afro-brasileira e com o culto aos ancestrais.
A Ancestralidade celebrada pelos Blocos Afros Floripa não está presente somente no trajeto realizado por cada grupo – seja saindo da encruzilhada ou da Igreja do Rosário. Cada passo dado, cada canção ecoada, cada batida de tambor é um ato de conexão com quem veio antes.
“A gente tem certeza de que não somos só nós ali no dia do Carnaval. Tem toda uma ancestralidade junto com a gente, nossos ancestrais, nossos guias. Muita energia, muito axé que corre através de nós. Então não sou só eu. Na verdade, nem sou eu. Eu só deixo passar essa energia pra fazer o melhor possível”, explica San Alves, do Cores de Aidê.


A negritude e o saber ancestral marcam os desfiles dos quatro grupos, que trazem em seus enredos homenagens a Orixás e entidades. Em 2024, por exemplo, o Bloco Cores de Aidê rodou a praça saudando a Exu e Pomba-gira, entidades espirituais fundamentais para diversas religiões de matriz afro-brasileira no Brasil – e que, historicamente, sofrem de forma recorrente com ataques fundados em racismo religioso e herança colonial, que demonizam as entidades.
Desce, desce a ladeira
Com As Cores de Aidê
Gira, Pomba-Gira
Alegria, Laroyê
Floripa preta,
Floripa que batuca
Ilha que descobre
sua magia na macumba
(Aláfia, 2024)
Nas cosmologias afro-brasileiras, os povos da rua, Exu e Pombagira, são frequentemente compreendidos como guardiões dos caminhos e das encruzilhadas. Mais do que mensageiros entre mundos, são entidades que acompanham os movimentos da vida, abrindo passagens, provocando transformações e lembrando que a evolução humana acontece justamente no encontro, em coletivo.
Pensar a rua como lugar de memória e de cultura também é reconhecer essa dimensão de encruzilhada. Espaço onde histórias se cruzam, onde caminhos se reinventam e onde certas presenças seguem abrindo passagem para quem vem depois.
A ancestralidade na rua não é cultuada como algo distante – mas sim, integrada à realidade de cada dia, as nossas lutas e reivindicações. Princípios como comunidade, família e pertencimento, presentes nas histórias de integrantes de todos os quatro blocos, são também princípios afro-religiosos.
“O Baque Mulher é uma extensão de um terreiro. Maracatu é candomblé de rua”, explica Ana, integrante do Baque Mulher Floripa.
Desde os tempos de Brasil Colônia, as mulheres pretas têm sido gestadoras da cultura no país. Antes, o que era transmitido a partir da amamentação (muitas vezes cruzada), nas cozinhas ou no ato de ninar entre senzala e casa grande, hoje atravessa também os espaços da rua.
“Não podemos deixar de referenciar a nossa ancestral Aline Salles”, disse Alexandra em um dos discursos durante a apresentação do Baque Mulher Floripa, em 2026.
Todos os blocos enfrentaram atravessamentos semelhantes até chegar ao momento oficial da volta à Praça XV: falta de recursos para instrumentos, alimentação ou deslocamento e, principalmente, um lugar para os ensaios. É nesse último ponto que a trajetória de Aline Salles atravessa a história do movimento. Em um momento em que a rua era constantemente apagada, ela atuou como ativista pelos direitos das mulheres e das pessoas em situação de rua, lutando para que o Instituto Arco-Íris fosse também ocupado como espaço de cultura e lazer.
Aline conhecia a rua não apenas como paisagem, mas como território de vida. Entre calçadas, esquinas e encontros improváveis, ajudou a abrir caminhos para que outras mulheres pudessem existir ali com dignidade e voz. Faleceu aos 43 anos, em 25 de outubro de 2025 – referência de luta, seguirá sempre lembrada e honrada pela coletividade que fortaleceu.
“A gente só resiste dessa maneira, botando a boca no mundo. Porque se tu não fala nada, se tu não bate um tambor, eles ficam achando que a gente tá aqui para bobo, né? E a gente não tá. E o carnaval é isso. Eu acho que se a gente continuar resistindo, essa ingratidão vai embora, sabe?”, diz Mestre Edinho.
Os Blocos Afros Floripa transformam música em instrumento de memória – e também, de luta por direitos. Incluindo, o direito de existir nesta cidade, de ocupar a rua. Gritamos, ao mundo, que a negritude existe e resiste na capital mais branca do país.
“Eu me sinto representada, ainda mais sendo uma mulher negra e periférica no sul do Brasil. Eu faço questão de deixar claro: existem mulheres negras, existem homens negros no sul do Brasil. A gente está aqui resistindo, emocionando com a nossa luta e com a nossa força. E a gente não é menos merecedor, nem mais merecedor, por ser sulista”, pontua Ana.
