Fundada em 2020, Saboaria Marielas produz sabão artesanal a preço acessível. Projeto é conduzido por mulheres negras e tem sido usado como ferramenta de empoderamento do território
Reportagem de Rodrigo Barbosa e Warley Alvarenga
Cria do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, Marielle Franco teve sua trajetória interrompida por ter usado espaços de Poder para denunciar o próprio Poder. Sempre ativa na luta pelos direitos da população preta e periférica, foi fuzilada pela milícia pouco mais de um ano após ter sido eleita vereadora da segunda maior cidade do país.
Quando Marielle tombou para os fuzis da milícia do Rio, milhares de sementes carregando sua memória espalharam-se pelo Brasil. Poucos depois da morte da cria do maior aglomerado de comunidades do Rio, uma dessas sementes aterrissou no maior aglomerado de favelas da Ilha da Magia, a mais de mil quilômetros de distância da Maré.
Em 2018, mesmo ano da morte da vereadora, um território do Maciço do Morro da Cruz, em Florianópolis, vivia o ápice das ameaças de despejo. Sua luta por moradia havia iniciado cerca de uma década antes. Quando souberam do assassinato cometido no Rio, os moradores da ocupação passaram a homenagear Marielle Franco, dando o seu nome àquele território.
O tempo passou e o território se consolidou. Transformaram-se em referência na luta por moradia digna na cidade. De ocupação, tornaram-se uma comunidade e conquistaram o direito à moradia para vários de seus moradores. Mas o caminho foi duro, com dezenas de casas deixadas no chão pelas escavadeiras do Estado ao longo da última década.
Hoje, na ausência de escolas, postos de saúde e projetos do Poder Público voltados para o território, a comunidade Marielle Franco persiste na luta para garantir os direitos dos seus – em uma casinha de madeira, cinco mulheres negras têm construído um espaço de acolhimento, aprendizado e fortalecimento comunitário.
Ocupar e resistir
Em meados dos anos 2000, o preço do aluguel já era cruel com famílias de baixa renda em Florianópolis. Cada vez mais vendida como cidade-modelo, a “Ilha da Magia” via o preço de seu metro quadrado disparar a cada ano. Nem mesmo a periferia escapou. Quando os aluguéis da Serrinha começaram a não caber mais no orçamento, a solução de algumas famílias foi ocupar um terreno ao lado da comunidade.
Começava a nascer ali uma das comunidades mais jovens do Maciço do Morro da Cruz – o maior aglomerado de favelas de Florianópolis. Quando o dono do terreno entrou com uma ação judicial, em 2013, dezenas de famílias já moravam no território. Os anos seguintes foram marcados por um aumento no ritmo da ocupação, que foi subindo o morro até chegar à margem direita da Rodovia Transcaeira.

Entre os anos de 2016 e 2017, a ocupação atravessou a rodovia – chegando a um terreno público que deveria ser destinado a moradias populares.
“Eu morava nesse lado de aluguel, mas depois eu fui morar lá daquele lado. Casa própria. Quando a gente foi pra aquele lado… É que agora tem escada, mas na época… Nossa, era só lama”, lembra uma moradora que viveu em ambos lados da rodovia.
A partir dali, o Estado foi empilhando casas no chão. O primeiro registro público de demolições sumárias na comunidade data de junho de 2017, quando sete casas foram derrubadas. 50 policiais militares deram apoio à Prefeitura na ação – que deixou comerciantes locais sem teto e uma comunidade inteira, àquela época formada por pouco mais de 100 famílias, apavorada. A ameaça de despejo generalizado era iminente – mas foi quando o território conquistou seu nome que a opressão escalou de vez.
Em 14 de março de 2018, a vereadora Marielle Franco foi assassinada no Rio de Janeiro. Vítima da milícia, a cria do Complexo da Maré foi fuzilada por brigar pelos direitos das periferias. Sua trajetória de luta imediatamente virou inspiração para os moradores da ocupação ao lado da Serrinha, em Florianópolis, cuja história já era marcada pela liderança de mulheres – como Eunice Brasil e Samara Pires. Em junho daquele ano, a mídia comercial da cidade já chamava o território de ocupação Marielle Franco.



Junho de 2018 foi também um dos meses onde o Estado mais levou violência àquele território. No dia 13, a maior das demolições sumárias já registradas por ali: 10 residências foram ao chão sem aviso prévio. Todas as outras famílias que moravam no terreno público receberam o prazo de 30 dias para irem embora. O chefe do departamento de fiscalização da Fundação Municipal do Meio Ambiente (FLORAM) confessou à época que o órgão deixou os escombros das casas no local para “servir de exemplo aos invasores”.
Menos de uma semana depois, mais três casas foram demolidas em uma ação na qual a Polícia Militar atirou, bombardeou e usou spray de pimenta contra moradores que faziam um cordão humano para tentar impedir que mais famílias periféricas ficassem sem ter onde morar. Mulheres e crianças encontravam-se no local. A operação deixou dois moradores feridos e apreendeu um adolescente.
Ainda naquele mês, mais de 20 entidades empresariais reuniram-se com o então prefeito Gean Loureiro para prestar apoio às ações de demolição sumária conduzidas pela Prefeitura. Além da Marielle, a ocupação Fabiano de Cristo, na região do Monte Cristo, também era alvo constante de violência naquele período. Ambas ocupações estão hoje consolidadas como comunidades de nossa cidade – tendo em seus próprios moradores os agentes principais dessa consolidação.
A comunidade Marielle, que em 2018 já tinha uma luta por moradia estruturada, conseguiu evitar que as famílias que ocupavam a metade da comunidade que era terreno público fossem despejadas após a ameaça dos 30 dias.
A presença de lideranças do território em manifestações contra a violência e por moradia era muito constante àquela altura, bem como sua participação em reuniões e audiências com representantes do Poder Público. A cada nova ação de despejo sumário, usavam seus próprios corpos como defesa e garantiam a continuidade do território.


No começo de 2019, a ameaça se voltou para o outro lado da rodovia. Em janeiro, um pedido de reintegração de posse referente ao terreno particular ocupado ainda na década de 2000 foi emitido pela Justiça. 78 famílias corriam risco iminente de perderem suas casas.
A Defensoria Pública não concordou com o pedido e entrou com um recurso a favor da comunidade. Em maio de 2019, o Tribunal de Justiça suspendeu o pedido de reintegração de posse alegando fragilidades no processo e violações de direitos contra os moradores da Marielle. Durante os seis anos em que o processo movido pelo dono do terreno corria, o Poder Público não havia realizado nenhuma ação de levantamento e acompanhamento dos moradores – bem como não tinha apresentado nenhum plano de reassentamento para as quase 80 famílias que voltariam a ser sem-tetos em uma eventual ação de despejo coletivo. Pouco depois, o dono do terreno o doou ao Poder Público para abater uma dívida que tinha com o Estado.
Os anos de 2020 e 2021 foram marcados por um novo aumento populacional na Marielle – consequência direta da pandemia de Coronavírus, que deixou milhares de famílias periféricas sem dinheiro para pagar o aluguel. O Estado não teve piedade. Foram pelo menos 14 residências demolidas naquele período, em operações que contaram com os aparatos de repressão da Polícia Ambiental, Guarda Municipal, Tático e Canil da PM.
De lá para cá, o ritmo de demolições sumárias diminuiu – mas estas seguem acontecendo, como constatado por nossa equipe no primeiro semestre de 2026. No total, nossa reportagem mapeou pelo menos 40 casas demolidas sem aviso prévio na comunidade Marielle Franco entre os anos de 2017 e 2026, em 9 operações diferentes.

As políticas públicas
Os tapumes da obra da creche Evandro de Sousa cercavam um terreno ao lado da Transcaeira desde, pelo menos, outubro de 2016. A obra foi orçada em R$4 milhões, sendo financiada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento. O prazo para sua conclusão era de seis meses. A creche foi inaugurada seis anos depois, em 2022.
Aquela creche não foi pensada para atender especificamente os meninos e meninas da Marielle. Em 2016, quando os primeiros sinais da obra apareceram no terreno, havia algumas dezenas de crianças morando no território. A capacidade do espaço, de 240 alunos, visava atender a população periférica do entorno – como a Caeira, a Serrinha e outras comunidades do Maciço. Quando o prédio foi entregue, a população da Marielle já era pelo menos duas vezes maior que no começo das obras da creche – que transformou-se no único equipamento público localizado na comunidade Marielle Franco.
“Mesmo não tendo comprovante de residência, a gente consegue fazer inscrição com cadastro do Posto de Saúde. A diretora é bem acessível, bem tranquila. A questão que a gente tem ali é o número pequeno de profissionais. Quando abriu, era aula ou só de manhã ou só à tarde porque não tinha professora e auxiliar de sala. Melhorou bastante, mas às vezes ainda falta, uma sala se junta com a outra”, relatou uma mãe.
Até hoje, quase 20 anos depois das primeiras ocupações do território, a juventude da Marielle tem que se dividir entre as escolas da Serrinha e do Saco dos Limões para estudar — em ambos casos, dependendo do precário transporte coletivo nos morros. Os postos de saúde dos bairros vizinhos também se alternam no atendimento dos moradores da Marielle.

Não há nenhuma iniciativa do Poder Público voltada ao atendimento da comunidade – como projetos de contraturno escolar para as crianças, oficinas profissionalizantes para jovens e adultos ou espaços de acolhimento para mulheres e pessoas idosas, por exemplo.
“A gente faz tudo o que a gente pode. O que falta é política pública aqui pra esse lugar, falta oportunidades. O que tem aqui, foi a gente que fez. Poder público mesmo não tem, o que eles fazem é mandar a Polícia pro morro pra deixar as crianças com medo”.
Além da creche, que foi vendo a comunidade crescer enquanto suas próprias paredes ganhavam forma; e da polícia, que marca presença diariamente oprimindo moradores do território; o único indício do Estado por ali foi conquistado na base da luta. Desde abril de 2025, uma grande área plana da comunidade, que antes abrigava um campinho de terra, virou um canteiro de obras.



A promessa de um conjunto habitacional na região da Caeira é antiga. A Prefeitura de Florianópolis chegou, inclusive, a deixar passar uma verba federal para a construção das moradias, ainda em 2018. Os sete anos de atraso foram marcados pela violência do Poder Público contra a população – que garantiu, na base da luta, a construção de 184 apartamentos populares na comunidade através de financiamento do programa Minha Casa, Minha Vida. O governo federal investiu R$32 milhões nas obras do Conjunto Habitacional Complexo Caeira; a Prefeitura, outros R$24 milhões.
Mas nem mesmo essa conquista garantirá a casa própria de todos na comunidade. Apenas do lado esquerdo da Transcaeira, vivem atualmente cerca de 250 famílias. Do lado direito, outras 100. De todos que vivem na Marielle, apenas 40 famílias que moravam exatamente no local da obra do Conjunto Habitacional têm apartamentos garantidos. Essa garantia foi conquistada através do mesmo Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) que possibilitou o projeto habitacional. Participaram do processo, além dos próprios moradores, a Defensoria Pública e advogadas populares.
As demais 144 unidades do Conjunto Habitacional serão distribuídas por um processo de seleção conduzido pela Caixa e pela Prefeitura – que promete divulgar os beneficiados em novembro de 2026, seis meses antes de entregar a obra à comunidade. De acordo com o município, será dada prioridade a quem vive na comunidade, mas todos os moradores de Florianópolis que têm registro no Cadastro Habitacional estão aptos a pleitear uma unidade no Conjunto. Atualmente quase 8000 famílias estão registradas no Cadastro Habitacional de Florianópolis – 5500 delas chefiadas por mulheres.
Os moradores da Marielle que vivem ao lado esquerdo da rodovia e se registraram, mas que não forem beneficiados com apartamentos, deverão passar por um processo de regularização fundiária, em outra conquista garantida pelo TAC.
“Minha família é grande e disseram que ali é muito pequenininho. Eu prefiro ficar na minha casa mesmo, eu prefiro arrumar a minha casa”, conta uma moradora.
Saboaria Marielas
“A gente começou com a saboaria. Eu sempre falava pras meninas: vocês podem perder tudo, menos o conhecimento. O projeto abriu portas pra gente além daqui. Mostrou outra realidade, mostrou que a gente é capaz de chegar lá, sabe? A realidade de ir muito além e voar”.
Há seis anos, quando a luta por moradia fervia na Marielle, cinco amigas buscavam sobreviver à pandemia. Cinco mães, mulheres negras: Aline, Carla, Fernanda, Maria Dalva e Rita de Cássia. Conheceram uma professora universitária, uma assistente social e um padre e começaram a se reunir no Monte Serrat, uma das comunidades mais antigas do Maciço do Morro da Cruz.
Na cozinha do Padre Vilson Groh, ativista social com décadas de trajetória nas favelas de Florianópolis, esboçaram uma iniciativa que pudesse complementar a renda das cinco moradoras da Marielle e suas famílias. A primeira ideia veio de Lúcia, professora de Nutrição da UFSC e apoiadora do coletivo de mulheres.
“A ideia era fazer uma cooperativa de alimentos, que é a minha área. Foi um fiasco. O forno do Padre Vilson, naquela cozinha industrial, queimou e ao mesmo tempo o bolo ficou pronto. Um negócio horroroso. Não ia dar certo”.
Foi quando Aline (33), uma das cinco moradoras, revelou o desejo de aprender a fazer sabão. A partir dali, foram várias mãos queimadas em inúmeros testes até que encontrassem a primeira receita e começassem a produzir. Era o começo da Saboaria Marielas.
No Monte Serrat, além da produção de sabão, as integrantes do projeto ainda passaram por atividades de formação. A partir dos encontros, foram aprimorando suas receitas até que chegaram em uma fórmula que, enfim, atendia a um dos propósitos do projeto: produzir sabão a custo acessível. A receita das saboeiras leva apenas água, soda e óleo de cozinha reutilizado.
“A gente queria atingir a comunidade. Não só a periferia, mas todo mundo que gostaria de um sabão no preço para ser concorrente do Ypê”.

Os encontros das amigas empreendedoras no Monte Serrat aconteciam uma ou duas vezes por semana. Iam quase sempre acompanhadas dos filhos pequenos. Carregar baldes, panelas e a matéria prima do sabão pelas escadarias do Monte Serrat começou a se mostrar um desafio. Em dias chuvosos, a logística ficava ainda mais complicada.
“Nós somos em cinco mães. Em dia de chuva, tinha que ir pra lá e levar as crianças. Todas temos filhos e era difícil a gente ir. Onde a gente mora é uma área de risco, é complicado sair”, conta Carla Freitas, de 29 anos, uma das fundadoras da saboaria.
A solução foi trazer o empreendimento para casa. Em 2023, dona Aliege, assistente social que apoia o grupo de saboeiras desde o começo, comprou uma casinha de madeira às margens da Transcaeira e a doou ao projeto.
“Aqui, a gente vai sempre que tá livre, vai na hora que a gente quer. A gente vive ali agora”, diz Carla.
A saboaria deslanchou de vez. Abraçadas pela comunidade, começaram a receber matéria prima da igreja do morro, de projetos sociais e de moradores que deixam suas garrafinhas de óleo na porta do projeto. O domínio do processo de produção, aprimorado ao longo de seis anos de saboaria, faz com que as empreendedoras tenham capacidade de produzir mais de 40 litros de sabão em um único fim de semana. São três variedades de produtos: detergente multiuso e dois tipos de sabão – sendo um deles exclusivo para roupas brancas.



A venda dos produtos começou no boca a boca. Fernanda Silva, mulher negra de 33 anos que se mudou para Florianópolis em 2020, é reconhecidamente a melhor vendedora do grupo. Para além das vendas no próprio território, ela é também a responsável por fazer com que o sabão das Marielas rompa fronteiras: os produtos da cooperativa fazem sucesso no Maranhão, terra natal da empreendedora.
“Pra mim, vender não tem dessa não. Pra qualquer lugar que eu for, não tem timidez não. Venda é venda”, diz Fernanda.
Com o passar do tempo, o instagram da saboaria tornou-se também um canal de vendas importante para o coletivo. A cada pedido recebido, um mototáxi vai até a Marielle e leva a encomenda ao cliente. As Marielas também comercializam seu trabalho em eventos, como os Festivais Culturais Viva Monte Serrat, a feirinha da UFSC e a feira do Armazém do Campo.
Novas líderes comunitárias
A Saboaria Marielas ainda não é fonte de renda principal para nenhuma de suas fundadoras. As cinco mulheres dividem seus tempos entre o cuidado de casa, a saboaria e trabalhos em outras áreas – como confeitaria, estética e customização de roupas. A ideia das fundadoras, entretanto, é que os ganhos com a saboaria ocupem uma parcela cada vez maior de seus orçamentos. Elas vêm se preparando para isso.
Em 2024, participaram da Jornada Empreender para Transformar, da Rede Instituto Padre Vilson Groh (Rede IVG). O processo de capacitação teve foco em empreendedorismo periférico e incluiu mais de 50 horas de oficinas, mentorias e rodas de conversa sobre temas diversos: aumento de faturamento, aquisição de novos clientes, ampliação de canais de venda, gestão financeira, formalização de empresas e desenvolvimento de produtos.
“Por onde a gente passa hoje, nós somos conhecidas. Antes a gente não era nada, a gente não era conhecida. Isso pra gente é muito importante”, diz a saboeira Aline Ribeiro.
Um ano mais tarde, moradores da Marielle formaram a primeira turma de adultos da história do Projeto Redescoberta, também vinculado à Rede IVG. Durante o ano de 2025, foram realizados encontros semanais na sede da saboaria, com foco em alfabetização e letramento funcional. Através do projeto, as saboeiras Carla e Rita de Cássia concluíram o Ensino Fundamental – e agora preparam-se para o Ensino Médio.
“Era uma dificuldade porque eu parei de estudar. Eu tinha uma necessidade séria de cuidar de criança, de ter que trabalhar, é muito difícil. Mas com o projeto eu e a Rita conseguimos concluir. Tem adulto ali que nem pegava no lápis direito e hoje já tá lendo”.
As conquistas que vieram do convívio entre as saboeiras e as formações das quais elas participam foram para além da saboaria. Desde agosto de 2025, o coletivo representa a comunidade Marielle Franco no Conselho Municipal de Segurança Alimentar (COMSEAS). Debatem na mesa com o Poder Público vários assuntos que afetam o cotidiano de famílias periféricas da cidade de Florianópolis.
Carla, uma das saboeiras que concluiu o Ensino Fundamental no contexto da própria saboaria, é a titular da cadeira das Marielas no COMSEAS. Elas foram a candidatura mais bem votada dentre todas as entidades da sociedade civil que concorreram a uma vaga no Conselho. A suplente é a também saboeira Maria Dalva Cardoso (46) – a “Estrela Dalva”, como é chamada pelas amigas e por ela própria.



Na época da eleição do COMSEAS, a casinha de madeira que abriga a saboaria já tinha um novo nome: Espaço de Saberes Ipê Amarelo. Trata-se de um projeto mais amplo, que tem como objetivo ser um espaço cultural e de inclusão para famílias da comunidade Marielle Franco.
Além de funcionar como sede da Saboaria Marielas e das atividades de letramento para adultos, no Ipê Amarelo já aconteceram atendimentos nutricionais e existem planos para oficinas de culinária. Além disso, o projeto oferece apoio pedagógico para as crianças da Marielle. As atividades de reforço escolar acontecem às segundas, quartas, quintas e sextas. O Espaço de Saberes é vinculado à Rede IVG.
“Muitas escolas aqui não oferecem esse apoio. Tem crianças com muita dificuldade, que tá no 4º ano e não sabe ler nem escrever. Então a gente tem esse apoio escolar pras crianças”, diz Carla.
O que começou como uma iniciativa de cinco mulheres que buscavam sobreviver à pandemia, transformou-se no celeiro de uma nova geração de lideranças comunitárias. As saboeiras que, em sua maioria, chegaram na Marielle Franco por volta de 2020, hoje realizam eventos de Natal e Páscoa no morro, bem como levam educação e promovem doações de alimentos e roupas para a comunidade. Unidas pela falta de políticas públicas para a população periférica, as saboeiras tornaram-se elas mesmas as responsáveis por tentar amenizar a opressão do Estado a seu território.



Um abraço coletivo
Uma das fundadoras da Saboaria Marielas, Fernanda andava afastada das atividades do coletivo nos últimos meses. Mãe de cinco filhos, reformou seu salão de beleza no ano passado. Além do cuidado com a família, seu negócio vinha demandando mais tempo que no começo das atividades da saboaria.
Durante a roda de conversa que baseou esta reportagem, a empreendedora ainda demonstrava dúvidas quanto à aceitação de seu retorno ao grupo de saboeiras.
“Eu fiquei um tempo fora, mas pretendo voltar. Não sei se elas vão me aceitar…”.
Sequer terminou a frase. Foi interrompida pelas quatro amigas simultaneamente.
“Ela já voltou! Já voltou”!
O retorno de Fernanda ao grupo não tem a ver apenas com sua aptidão para as vendas. Na verdade, é o maior exemplo daquela que é a base do coletivo: o acolhimento. A volta da co-fundadora aconteceu em meio ao processo de luto pelo qual ela vem passando desde 31 de março de 2026.
Naquela noite, o Estado marcou presença na comunidade vizinha. Uma emboscada policial na favela da Serrinha, ao lado da Marielle, tirou a vida de Walysson Emanuel – que, aos 16 anos de idade, era o filho mais velho de Fernanda. O garoto foi vítima de seis disparos de fuzil, em sua maioria na região do tórax. Apesar do contexto de frequente opressão policial na Marielle Franco, trata-se do primeiro caso de um morador daquela comunidade morto pela polícia mapeado por nosso jornal.
“Não é uma luta só dela. Eu olho pro meu filho e não consigo imaginar o meu filho dentro de um caixão. Eu tenho medo de mandar o meu filho no mercado e o meu filho não voltar mais”, relatou uma das amigas.
Retornar à cooperativa foi um dos caminhos encontrados por Fernanda na busca por amenizar a dor da perda. Tem contado com o apoio de integrantes e apoiadores do projeto que ajudou a fundar na luta por justiça por Walysson. Além do conforto diário, as amigas ainda têm dado apoio a Fernanda participando de audiências que têm como tema a violência do Estado. As saboeiras também marcaram presença em um culto ecumênico organizado pela família em homenagem a Walysson na comunidade. Padre Vilson, apoiador da Saboaria Marielas desde a fundação do projeto, foi um dos responsáveis por conduzir a cerimônia.



Um olhar para o futuro
Acolhida pelas amigas, Fernanda pensa em realizar o sonho do filho e reformar a própria casa. A grana extra da saboaria, agora impulsionada pelo retorno da melhor vendedora do grupo, pode ajudar a complementar a renda da família. As finanças da casa foram comprometidas após o salão de beleza de Fernanda, construído com ajuda do filho, ficar fechado por meses por conta do luto pela morte de Walysson.
Carla e Rita não se cansam de voar. No momento, preparam-se para o Ensino Médio, mas já pensam um passo à frente. Sem deixar o empreendedorismo de lado, têm na universidade um objetivo.
“Eu quero me capacitar na administração, porque eu não quero ninguém de fora administrando uma empresa que a gente fundou. E tenho um sonho, né, que é a Advocacia”, conta Carla.
Há ainda quem foque no marketing da saboaria. Para além do sonho de uma formação na área da saúde, a saboeira Maria Dalva quer aprender mais sobre redes sociais e estratégias de venda.
“Na área de marketing eu sou uma zero à esquerda, eu não sei mexer. Então eu quero poder saber, sabe? Pra poder fazer esse tipo de coisa, divulgar mais. E vender mais, vender bastante. Eu adoro vender. Tem um jeito de vender mais, e é divulgar, né? É divulgando que a gente vende mais”.
Para Aline, a prioridade é ver cada vez mais mulheres da comunidade se empoderando como ela e as amigas. A idealizadora da saboaria, que se diz uma pessoa tímida, ainda conta que pretende se aprimorar nas vendas e na comunicação com o público. Mas ela, acima de tudo, se orgulha da trajetória que já foi percorrida pelas Marielas.
“Pra mim isso aqui é muito importante. Cada vez tá crescendo o nosso conhecimento, né? Porque cada vez que a gente é convidada pra ir em algum lugar, pra fazer alguma coisa, a gente já conhece pessoas diferentes, pessoas que querem conhecer o nosso projeto, que querem conhecer aqui. Isso é muito importante pra gente”.
