Duas rajadas e o silêncio: PM mata jovem negro no Morro da Caixa do Continente e esconde o homicídio da população

Cometido em dezembro de 2025, assassinato de Matheus nunca foi divulgado pela corporação ou pela mídia comercial. Jovem de 24 anos foi atingido por seis tiros 

Reportagem de Rodrigo Barbosa

Alerta de gatilho: saúde mental e suicídio

Quando a Polícia Militar mata alguém em Florianópolis, não costuma demorar muito até que a morte seja divulgada. Nas primeiras 24 horas após os homicídios, notícias sobre os confrontos que a polícia alega enfrentar já circulam por vários veículos de imprensa. 

A fonte das informações, via de regra, é sempre a própria polícia. Faz parte da estratégia de comunicação da corporação ditar o que se fala primeiro sobre os crimes que ela mesma comete. Tira-se a vida da vítima e, em seguida, sua memória. É apenas mais um CPF cancelado.

Mas, por vezes, a lógica se rompe. Foi assim, por exemplo, em março de 2023. No dia 23 daquele mês, Mãozinha foi vítima de uma emboscada policial no topo do Morro do Mocotó, na região central de Floripa. Alvejado, caiu em um barranco e teve seu corpo puxado por uma corda amarrada no pescoço. Para além dos moradores do território e das pessoas que conviviam com a vítima, ninguém mais ficou sabendo de sua morte – que não foi informada pela polícia à imprensa.

Dois anos depois, em março de 2025, o adolescente Tininho teve sua cabeça perfurada por um projétil de fuzil na Vila Cachoeira, no Norte da Ilha. O menino negro de 15 anos lutou pela vida por cerca de dez horas e teve sua morte cerebral informada à família na manhã seguinte. Foi mais um homicídio que a polícia optou por esconder da população.

Nove meses e mais de 20 mortes mais tarde, isso voltou a acontecer. A última morte do ano mais violento da história da polícia em Florianópolis nunca veio à tona. Desde que Matheus Santos Bonifácio tombou no chão, apenas a comunidade do Morro da Caixa do Continente e pessoas que conviviam com o jovem negro de 24 anos souberam do acontecimento.  

Como a polícia não informou nada, nenhum veículo da mídia comercial teve conhecimento do homicídio, cometido na madrugada de 21 de dezembro de 2025 pelo 22º Batalhão da Polícia Militar. Como consequência, a população de Florianópolis nunca soube o que aconteceu. Até hoje. Nesta reportagem, contamos com exclusividade a história de vida e morte de Matheus.

Um campinho abandonado

O Continente começa pelo Morro da Caixa. À margem direita da Via Expressa, a comunidade é a primeira vista de quem deixa a Ilha da Magia pela Ponte Colombo Salles. O emaranhado de casas ilustra que, dos dois lados da baía, Florianópolis funciona a partir do trabalho da população que ocupa os espaços que os condomínios de luxo ainda não tomaram conta.

Em nossos morros, como nas favelas do país inteiro, a juventude sonha. No Morro da Caixa do Continente, vários desses sonhos passam por um campinho de areia localizado na parte mais baixa da comunidade, ao lado do posto de saúde do bairro. Por ali, Matheus Santos Bonifácio sonhava em ser jogador de futebol. 

Aquele ali era pra ser jogador. Ele chegou a tentar, foi pra escolinha e tal”, conta o irmão de Matheus.

Os dois meninos cresceram numa casa de madeira de estrutura simples e quatro cômodos. O pai se fez ausente durante a maior parte da juventude dos dois, cabendo à mãe a criação dos irmãos. Ela tinha 18 anos na época. A família passou por dificuldades financeiras, mas a coroa lembra que o arroz, o feijão e o ovo nunca faltaram, mesmo em tempos sombrios. Os outros dois irmãos mais novos da família, filhos de outro pai, moraram a maior parte da vida com a família paterna, em outra comunidade.

“Não tinha muito apoio do meu pai. A gente foi criado com a nossa mãe, que não tinha muita verba. Aí o máximo que ele jogava era aqui. Jogava bola no campinho, na escola, jogava muito bem. Meu pai botou a gente na escolinha, mas depois cortou”. 

Para além do campinho de areia, o irmão de Matheus também se recorda que ia com o mano mais velho para uma série de projetos que, no começo dos anos 2000, tentavam suprir a ausência do Estado no Morro da Caixa. A dupla cresceu frequentando atividades do Centro Espírita Seara dos Pobres, da Sociedade Alfa Gente, da Fundação Catarinense de Assistência Social e da Escolinha de Futebol Estação da Bola.

Porra, olha o campinho todo abandonado hoje, era pra ser da hora demais. Só que a Prefeitura mexe ali na época de eleição pra ganhar um votinho e depois larga de mão. Antes tinha o Seara dos Pobres, que a gente chamava de Centrinho. Era muito bom, todo sábado os caras faziam sopa, várias coisas, final do ano dava presente pras criançada. Eu cresci ali, o Matheus também. Tem todas as nossas fotos lá ainda, tem do Matheus e minha. Era muito legal, antigamente era outro tempo”. 

Como quase todos os crias da Caixa do Continente do começo dos anos 2000, os irmãos frequentaram a Escola Dayse Werner até que esta foi desativada por problemas estruturais – sendo substituída pela Escola Presidente Roosevelt, onde eles também estudaram. Mas, mesmo sendo muito próximos, os irmãos tinham personalidades opostas. Fora o futebol e as atividades dos projetos sociais, levavam rotinas bem diferentes. 

Eu cresci mais de canto, mais caseiro, ficava mais na minha. E o Matheus já cresceu mais no morro, já fez mais amigo ali e tal. Começou desde pequeno essa essência dele de ser da rua”.

Nos becos da Caixa, Matheus soltava pipa e colecionava amigos. Sempre com a autoestima elevada, se tornou uma das crianças mais populares da quebrada. Mas, também pelas ruas, começou a andar por caminhos tortuosos. Aos 16 anos, mesma idade em que abandonou o sonho do futebol, o jovem teve suas primeiras experiências na biqueira. 

Altos e baixos

As idas e vindas de Matheus pelo tráfico na adolescência ficaram marcadas na ficha criminal do jovem. Entre os 16 e os 17 anos de idade, ele foi investigado por três atos infracionais ligados ao comércio de substâncias ilícitas. Sua mãe e seu irmão tentavam diariamente convencê-lo a seguir outros caminhos. O contexto na comunidade era preocupante.

A adolescência de Matheus coincidiu com a instalação da sede da Secretaria de Segurança Pública de Santa Catarina no bairro de Capoeiras, a poucos metros de sua comunidade. Matheus tinha 16 anos quando, em 2017, o Morro da Caixa do Continente se tornou alvo próximo da polícia. Nos dois anos seguintes, cinco jovens perderam a vida em operações policiais na Caixa e na Maloca – comunidade que fica do outro lado da Avenida Ivo Silveira.

Teve um guri aqui que colocaram dentro de um carrinho de mão e saíram empurrando. O Felipe eles mataram, enrolaram no tapete e jogaram no carro. Aquele lá eles fuzilaram”, conta um morador. A segunda vítima mencionada é Felipe Jhonata Faveri, jovem negro de 27 anos morto em uma operação que contou com a participação de mais de 50 agentes de segurança, em janeiro de 2017.

Mas mesmo que mãe e irmão insistissem que Matheus não fosse mais à boca de fumo, ambos concordam que foi uma terceira pessoa a responsável por afastar o parente do corre: uma jovem com quem Matheus começou a namorar ainda na adolescência. 

Incentivado pela ex-namorada, Matheus voltou a estudar no começo da vida adulta, completando o 2º ano do Ensino Médio pelo EJA. Neste período, conseguiu um emprego no Supermercado Atacadão, localizado a cerca de 1km de sua comunidade. Trabalhava como estoquista das 21h às 06h, de segunda a sexta-feira. A rotina pesada madrugada adentro cansou o jovem e não durou muito.

O segundo emprego formal de Matheus foi ainda mais perto do Morro da Caixa. Como jovem aprendiz, foi contratado pela Viação Catarinense para trabalhar na curva da Avenida Ivo Silveira, aos pés do morro. Por ali, encontrou uma rotina que o agradava. Substituiu o trabalho exaustivo do supermercado por serviços administrativos nos computadores da companhia de ônibus. Naquele momento, as passagens policiais da adolescência eram coisa do passado. Matheus seguiu trabalhando na Catarinense até o dia de sua primeira crise de saúde mental. 

A gente nunca desconfiou de nada, nunca. Tem parente nossa que a gente sabe que é de praxe, tem diagnóstico desde nova e volta e meia entra em crise. Mas o Matheus a gente nunca esperou, foi tudo normal na infância. Foi do nada”.

Naquele dia, o irmão de Matheus voltou da escola pouco depois do meio-dia – horário que o irmão mais velho deixava o serviço na Catarinense. Ao chegar em casa, o menino não o encontrou. Perguntou por ele, e o máximo que conseguiu saber foi que Matheus disse a vizinhos que iria ao bar. Sua família não o encontrou no estabelecimento e continuou rodando o morro. Pouco depois, acharam Matheus desorientado na rua.

Dali a pouco a gente encontrou ele e ele tava em surto total, muito agitado. Foi ali pelo morro mesmo, perto daquele viaduto que desce e encontra o Detran. Levamos ele pra casa, eu tava ali tentando ajudar, mas ele tentou pular a janela. Eu não sabia se era muito stress ou o que aconteceu na mente dele, mas ele saiu de si. Aí não teve jeito. Ficamos com ele em casa um tempo e chamamos uma ambulância”. 

Aos 21 anos de idade, Matheus foi internado no Instituto de Psiquiatria (IPq), na cidade de São José, na região metropolitana. Voltou para casa semanas mais tarde desempregado, com um diagnóstico de esquizofrenia e uma receita médica cuja cartela do remédio custava R$300. Sua mãe contava com a ajuda de familiares, amigos e clientes do bar onde trabalhava no Centro de Florianópolis para arcar com o medicamento que auxiliava no tratamento do filho.

Mas, enquanto se recuperava da crise de saúde mental, Matheus passou por mais um trauma. Assustada pelo surto do jovem, presenciado por ela, a namorada de Matheus interrompeu o relacionamento de quatro anos e foi passar um tempo com os pais em outra cidade da região metropolitana. A jovem entrou em depressão e acabou tirando a própria vida. 

Matheus encontrava-se no processo de diminuir gradualmente sua medicação quando recebeu a notícia, que abalou o jovem. Pouco tempo depois, recebeu a visita de um amigo que lhe disse que havia uma vaga de emprego na boca de fumo do morro.

A morte dela mexeu muito com ele. Ele perdeu o sentido, eu acho que isso mexeu tanto com ele… Porra, ela que afastou ele do crime, tá ligado? Quando ela morreu, foi onde ele deu a decaída, aí que ele voltou de novo”.

Na mira do Estado

Aos 22 anos de idade, Matheus iniciou um novo relacionamento. Pouco tempo depois, recebeu a notícia de que a companheira estava grávida. Foram morar juntos em outra comunidade. A responsa de ser pai gerou mais uma tentativa de Matheus largar o tráfico. Pensando na filha que estava por vir, começou a trabalhar em um bar no Morro da Caixa. 

No bar, o expediente de Matheus começava às 07h e, às vezes, terminava depois das 23h. As mais de doze horas diárias no balcão rendiam ao jovem R$1000 contados no fim do mês. Como as contas não estavam fechando, a tentativa de se recolocar no mercado de trabalho formal não durou muito tempo. A partir desse momento, começaram as passagens policiais de Matheus em sua vida adulta.

Se faz um plantão de 24 horas ou de 12, querendo ou não tira um dinheiro bom. É dinheiro sujo, é um dinheiro vagabundo, mas é um dinheiro bom. E pros guris que cresce ali, mano…”.

Em abril de 2023, Matheus foi apreendido com porções de maconha e cocaína dentro de sua casa. Segundo a mãe do jovem, sua residência foi invadida sem mandado judicial naquela tarde – e seu filho chutado por um agente do Batalhão de Operações Especiais (BOPE).

Por conta dos bons antecedentes e por não ter cometido nenhum crime violento, Matheus foi solto na audiência de custódia. Pelos mesmos motivos, o Ministério Público ofereceu ao jovem um Acordo de Não Persecução Penal. Ele cumpriu as exigências da Justiça e teve seu processo extinto.

Um ano mais tarde, em junho de 2024, Matheus foi mais uma vez apreendido com porções de drogas. Para além do crime de tráfico, os policiais envolvidos nessa operação também acusaram o jovem do crime de resistência. Segundo a polícia, ele teria tentado agredir agentes de segurança durante a abordagem. 

Assim que saiu do morro, a guarnição levou Matheus para realizar exames em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA). Os ferimentos constatados no corpo dele seriam posteriormente utilizados pelo Estado como prova de que o jovem teria tentado agredir os policiais – que, para se defender, afirmaram que tiveram que contê-lo com uso de força física. A memória de quem vive no território conta outra história. 

Às vezes, a pessoa já tá algemada e eles dão rasteira. O dia que pegaram ele lá embaixo, na penúltima prisão dele, colocaram ele no muro que era salpicado. Foi aí que ele machucou”.

A prisão preventiva de Matheus, ainda réu primário, foi revogada 12 dias após essa apreensão. O jovem, desde então, respondeu ao processo em liberdade. 

Em abril de 2025, quando ainda respondia ao processo anterior, ele foi preso acusado de tráfico pela terceira e última vez. Como não havia sido julgado, o jovem seguia sendo réu primário e teve sua prisão preventiva revogada pouco mais de duas semanas após ser conduzido. Uma possível pena de Matheus seria em regime aberto – o que, segundo o juiz do caso, fazia de sua prisão preventiva uma medida desproporcional. Ele seguia respondendo a esse processo em liberdade quando foi morto.

O processo anterior, entretanto, tinha acabado de ser julgado quando Matheus tombou. Em 19 de novembro de 2025, ele foi condenado por tráfico de drogas. Além disso, com base na palavra de policiais e no laudo que apontava ferimentos no corpo de Matheus (e não dos agentes de segurança), o jovem também foi condenado por resistência. Por ser réu primário e ter uma pena inicial de cerca de três anos, Matheus teve sua prisão determinada em regime aberto e não encontrava-se foragido quando perdeu a vida. 

Também na época de sua única condenação, um mês antes de morrer, Matheus recebeu uma das várias ameaças que sofreu de agentes de segurança. “Quero ver vocês ali em São Cristóvão, eu quero ir lá pra rir da cara de vocês”, disse um policial ao jovem, se referindo ao Cemitério de São Cristóvão, localizado na região do Morro da Caixa.

Beco sem saída

Na noite de sexta, 19 de dezembro de 2025, a mãe de Matheus saiu feliz do trabalho. Com as vendas de bebidas, faturou R$1120. O valor completava as economias que ela já vinha juntando há algum tempo. Na segunda-feira, iria comprar uma moto para o filho mais velho. A bag para que Matheus tentasse a vida como motoboy já estava em sua casa.

Na noite seguinte, a mãe de Matheus já planejava não dormir. Era assim todas as terças, quintas e sábados, quando o filho trabalhava na biqueira. A coroa deixava de tomar os remédios que a fazem pegar no sono porque se preocupava com ele. No dia 20, tomou uma cerveja com amigos em um boteco da comunidade e, à noite, ficou na varanda de casa batendo papo com outros familiares. Não teve conversas longas com Matheus naquele dia, mas teve contato com ele até às 21h30. 

Pouco antes da meia-noite, uma gritaria tomou conta de um dos becos que dá acesso à casa da família. Preocupada, a mãe de Matheus foi ao portão de casa para ver do que se tratava. Quando se deu conta, estava ajudando a separar uma briga entre vizinhos. Assim que a situação se acalmou, ainda com o filho na cabeça, disse a uma amiga que voltaria para casa.

Eu ainda não tinha feito o café dele, ele ia achar que eu tinha esquecido dele”.

Ela ainda não havia saído da casa da vizinha quando ouviu os disparos. Nos poucos minutos em que ela ficou fora de casa, a polícia tomou conta das três entradas do Morro da Caixa. As guarnições que subiram pelo Barranco e pela Geral fizeram com que Matheus corresse para o outro lado da comunidade, próximo de onde estava sua mãe, na tentativa de não ser preso novamente.

O jovem negro foi em direção ao Beco do Sombreiro, onde achou que teria uma rota de fuga. Mas uma equipe do Tático do 22º Batalhão da polícia também subia a Caixa por ali. Encurralado em uma esquina entre duas vielas estreitas, Matheus viu na casa onde passou a infância e a adolescência o único possível refúgio para fugir dos fuzis.

O caminho feito por Matheus. Foto: Rodrigo Barbosa

Matheus sequer chegou a entrar. Tombou exatamente na porta de entrada da casa da mãe – com seu corpo ficando metade dentro da residência, metade na varanda de madeira. 

Quando sua mãe foi à janela da vizinha saber o que havia acontecido, tudo o que viu foram lanternas iluminando a sua casa. Como sempre acontece, a cena do crime foi cercada assim que a vítima foi baleada. Mas os relatos do território, o Boletim de Ocorrência e o laudo do corpo de Matheus ajudam a contar o que aconteceu na noite em que ele perdeu a vida. 

Moradores ouviram duas rajadas diferentes, separadas por um intervalo de poucos segundos. O Boletim de Ocorrência do caso confirma a dinâmica: policiais dispararam contra Matheus em dois momentos diferentes. Somando disparos de fuzil e pistola, foram nove tiros efetuados pelos agentes – cinco no primeiro momento, quatro no segundo.

É certo que Matheus foi baleado na escadaria que dá acesso à casa de sua mãe. Há marcas de tiros nos degraus da residência. Matheus morreu poucos metros à frente, não sendo possível determinar com certeza se a rajada de tiros que atingiu a escada foi a primeira ou a segunda sequência de tiros. 

Dada a dinâmica dos disparos, são duas as possibilidades: Matheus foi inicialmente atingido no beco e, segundos depois, na escadaria da residência; ou Matheus foi atingido inicialmente na escadaria da casa e, posteriormente, também na varanda. De uma forma ou de outra, passou os últimos instantes de sua vida baleado e correndo para tentar se salvar.

Também é possível afirmar que ele foi atingido pelas duas rajadas, pois o número de disparos que perfuraram o corpo de Matheus é superior ao número de tiros disparados em cada uma das sequências de disparos. Dos nove tiros, seis atingiram o corpo de Matheus: três na região do tórax, um na cintura e um em cada coxa. O jovem teve os dois pulmões perfurados e morreu de hemorragia. 

A Polícia Militar alega que Matheus estaria armado no momento de sua morte. No Boletim de Ocorrência do caso, a corporação primeiro afirma que ele teria apontado uma arma contra a guarnição; depois, que ele supostamente teria efetuado um disparo.

Moradores da Caixa e familiares da vítima contestam a versão. Dizem que Matheus não andava armado e que a Glock supostamente capturada com ele foi, na verdade, apreendida em outra comunidade da região continental, horas antes. No Boletim de Ocorrência, a foto da Glock mostra a arma já sob posse da PM. Matheus nunca teve registros de porte ou posse de arma de fogo na vida. 

A morte de Matheus tratou-se de um reencontro. Pelo menos um dos agentes que faziam parte da guarnição que matou o jovem estava também presente na equipe policial que o prendeu em junho de 2024, no episódio em que Matheus saiu ferido da operação. Este policial efetuou três disparos contra a vítima na madrugada de 21 de dezembro de 2025. 

Os outros seis tiros foram disparados por outro dois policiais. Chama atenção que o policial que mais atirou naquela noite (quatro vezes) não consta como um dos atendentes do Boletim de Ocorrência do caso. Sua matrícula é informada apenas no relato do terceiro agente de farda que atirou contra Matheus. A PMSC não respondeu os questionamentos de nossa equipe até o fechamento da reportagem.

Os cravos brancos

Eles cercaram a entrada do portão e fecharam a descida do Sombreiro, fecharam o beco. Eu e meus vizinhos ficamos no meio. A gente ficou preso no meio do beco e não deixaram ninguém passar pra socorrer. Eu não sabia localizar onde ele tava, se ele tava machucado ou o que. Se eles deixassem nós entrar pra socorrer, tinha chance ainda dele sobreviver. Ele poderia ter ficado com sequela, mas podia sobreviver”.

O cerco feito pela PM à cena do crime causou raiva na comunidade, que ficou encurralada em uma viela. A revolta da família e dos vizinhos foi crescendo, tornando os já apertados becos da Caixa um ambiente sufocante. Àquela altura, ainda não sabiam se o jovem estava vivo ou morto. 

O Beco do Sombreiro. Foto: Rodrigo Barbosa

Ao tentar ter mais informações sobre o estado de saúde da vítima, moradores foram ameaçados e agredidos. Policiais dispararam contra moradores e casas do morro. Segundo testemunhas, o corpo de Matheus teria sido retirado da comunidade enrolado em um lençol.

A mãe da vítima só conseguiu entrar em sua casa depois que o corpo do filho não estava mais ali. Ao avançar pela varanda onde viu Matheus crescer correndo, se deparou com uma enorme poça de sangue escorrendo pelas tábuas de madeira para dentro da sala da residência.

O Matheus morreu sozinho dentro de casa, sem uma companhia. Ele foi forte, não deu nenhum grito de socorro ou de dor”.

Naquele momento, ela ainda tinha esperança de que Matheus seguia com vida. Sua primeira parada depois de sair do morro foi na Penitenciária. Chegando lá, recebeu a notícia de um funcionário: “Teu filho tá lá no IML, só amanhã se quiser saber dele”. 

No dia seguinte, o nervosismo seguia tão grande que ela sequer se lembrou de perguntar se poderia reconhecer o corpo do filho no Instituto Médico Legal (IML). Quando voltou a ver Matheus, ele já estava pronto para o velório. Ela espantou-se com uma coincidência dentro do caixão do jovem.

Um ano antes eu sonhei que o Matheus tinha morrido. Eu vi ele certinho, chegando bem bonitinho no caixão. E o que mais me deixou admirada foi a flor… Quando eu fui na funerária, eu não escolhi as flores que vinham enfeitando a parte de dentro do caixão. E quando chegou o caixão dele e eles abriram, eu fiquei admirada porque as flores que tinha dentro era as mesmas flores dos meus sonhos. Os cravos brancos”.

O velório de Matheus foi realizado na igreja evangélica que sua família frequenta há mais de dez anos, no próprio Morro da Caixa. O jovem negro foi enterrado no Cemitério São Cristóvão, no bairro de Capoeiras, onde estão outros parentes da família.

Como vários outros familiares de vítimas do Estado, a mãe de Matheus reclama do tratamento dado pelo Poder Público a ela depois que o filho morreu. Para retirar a Certidão de Óbito de Matheus, por exemplo, foi necessário que ela deixasse o expediente no trabalho duas vezes. O endereço e horário de morte do jovem estavam errados. Além disso, ela teve que retificar a raça do filho, visto que ele foi inicialmente registrado como uma vítima branca. 

Apesar da retificação realizada pela mãe na Certidão, o Estado segue classificando incorretamente a raça de Matheus. Nos dados da Secretaria de Segurança Pública aos quais nossa reportagem teve acesso, ele é descrito como uma pessoa indígena. Ele sempre se reconheceu e foi reconhecido pela família como um jovem negro.

Conseguir o Boletim de Ocorrência foi outra batalha. A mãe só teve acesso ao documento dez dias após a morte e com o auxílio de uma advogada. Ela também reclama que, num primeiro momento, não teve o direito de registrar ela própria um B.O. contando sua versão dos acontecimentos – o que acabou acontecendo dias mais tarde, depois de muita insistência. Em paralelo, ela se revoltava com a falta de notícias sobre a morte de Matheus. 

Eu procurei no instagram, no Google, no Face, em tudo, e não consegui encontrar nada. Fui no Youtube pra ver as reportagens. Eu fui na Delegacia e questionei isso com o delegado. E ele falou que é porque o caso tava em investigação. O que me estranhou foi o menino da Mariquinha, porque quando o menino da Mariquinha morreu, logo em seguida já apareceu a morte do rapaz”, disse ela. 

A vítima do Morro da Mariquinha a quem ela se refere é Evander Machado, fuzilado dentro de um carro aos pés da comunidade da região central em 19 de janeiro de 2026, quase um mês depois de Matheus. Como a maior parte das vítimas da polícia, Evander teve sua morte divulgada pela mídia comercial, a partir de relatos da Polícia Militar, no mesmo dia do homicídio.

Uma estrela no céu

No luto, tem dia que a gente quer se isolar, parece um bicho no casulo. Não quer falar muita coisa, tu quer ficar quieta”.

Apenas quatro dias depois do assassinato, a mãe de Matheus teve que encarar o primeiro Natal sem seu filho mais velho.

Eu mandei fazer uma Ceia, mandei fazer bolinha, comprei louça nova e ia fazer uma Ceia. Esse Natal a gente ia passar bonito, porque o último a gente tinha passado pobre, com dificuldade”.

Dias depois, criou forças para ir com amigas à Beira-Mar Continental ver o show de fogos da virada do ano. Para sua infelicidade, encontrou um dos algozes de seu filho patrulhando o evento de Réveillon. Manteve-se de pé por algumas semanas após a partida de Matheus, mas a luta cobra o seu preço. 

Pouco depois da virada do ano, ela teve uma crise e passou 20 dias internada no mesmo Instituto que tratou a saúde mental de seu filho anos antes. Por conta da internação, a mãe de Matheus perdeu o emprego. Recuperando-se do trauma e dos problemas de saúde, ela hoje tenta reunir forças para voltar a trabalhar e seguir na luta por Justiça por Matheus, cujo inquérito segue em aberto. Uma indenização para auxiliar na criação da neta é uma das prioridades dela.

Pra mim, o caso do Matheus ainda não parou. Ainda vou correr com as papeladas ali, ver se consigo indenização pra menina. Ele deixou uma dependente de dois anos e o Estado tem essa obrigação de indenizar a menina”.

Até lá, a família vem tentando ensinar a pequena, que tinha dois anos de idade quando o pai morreu, a lidar com a dor da saudade. A menina sabe que Matheus, de acordo com as crenças religiosas da família, agora vive no Céu com Jesus. Por vezes, ao ver jovens negros que têm aparência parecida com a de Matheus e circulam pelos becos onde ele trabalhava no Morro da Caixa, ainda os confunde com o próprio pai – mas, hoje em dia, aponta para as estrelas sempre que vai falar dele.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Veja mais

Papo reto

O Papo Reto é nosso boletim informativo diretamente no seu Whatsapp.

Ele traz um resumo da nossa última notícia de forma rápida e direta para você se manter informado. Você pode escolher receber o resumo em áudio, vídeo ou texto.

Disponível a partir de janeiro de 2025.



Apoie o Desterro

Jornalismo independente e antirracista nas favelas de Floripa

Apoie o Desterro

Jornalismo independente e antirracista nas favelas de Floripa