Hip-hop é favela!

Coletivo Gruve-se reaproxima cena hip-hop de Floripa de suas raízes periféricas e valoriza a história do Morro da Penitenciária

Reportagem de Rodrigo Barbosa

Em Floripa, a cena do hip-hop começou a tomar forma na década de 1980 no Complexo do Monte Cristo – maior aglomerado de favelas da região continental de Florianópolis. Não demorou muito até que as batidas do rap e as danças de B-boys e B-girls se espalhassem por outras quebradas da cidade. Entre o final dos anos 1990 e 2000, comunidades como a Vila Aparecida, o Monte Serrat e o Morro da Costeira também viram nascer coletivos e artistas de hip-hop. 

Com o passar do tempo, o asfalto tentou tomar para si o que sempre pertenceu à favela. Como já havia acontecido com samba e viria a acontecer com o funk anos mais tarde, a cultura do hip-hop começou a ser valorizada nas casas de shows e beach clubs da Ilha da Magia. Morro abaixo, a elite se divertia ao som que nasceu na quebrada.

Morro acima, a raiz do hip-hop sempre encontrou barreiras para seguir em frente. A falta de financiamento e a ausência de espaços públicos periféricos adequados para a realização de bailes e batalhas fez com que os sonhos de vários artistas de quebrada tenham sido interrompidos ao longo dos anos. Duas das comunidades pioneiras do movimento – o Monte Cristo e a Costeira – são algumas das poucas quebradas da cidade que conseguiram manter suas cenas constantes nos últimos anos.

Nas favelas da região da Agronômica, bairro nobre da cidade, o hip-hop se faz muito presente desde os anos 1990. O Morro do Horácio, em especial, é conhecido por ter sido berço de grupos e artistas de breaking, graffiti e rap. Mas, por ali, sempre houve dificuldade de se manter uma cena sólida – quando todo o investimento do Poder Público sempre vai para o asfalto, a prioridade do morro é sobreviver.

O cenário vem mudando desde 2024, impulsionado por um coletivo que atua na comunidade vizinha ao Horácio. Batizado em referência ao presídio que fica aos pés das ladeiras, o Morro da Penitenciária tem sido palco importante da cena do hip-hop de Floripa. O responsável pela retomada é o Coletivo Gruve-se – que, fundado por uma moradora da Penita, tem ocupado diversos espaços do morro e trazido mais diversidade à cena hip-hop da capital catarinense.

Uma elite de costas para o morro

A Penitenciária de Florianópolis está com os dias contados. A demolição do prédio, iniciada em dezembro de 2025, é parte de um programa do Governo de Santa Catarina que gastará mais de R$1 bilhão com o objetivo de encarcerar um número ainda maior de pessoas em nosso estado. Aos poucos, pessoas privadas de liberdade que cumprem suas penas na capital serão realocadas para unidades do interior catarinense. 

Há quase cem anos, a migração era justamente a oposta. Em 1930, quando a Penitenciária foi inaugurada, pessoas presas do interior de Santa Catarina eram mandadas à capital. Por muitos anos, seus parentes pegavam horas de estrada para poder abraçá-los em seus dias de visita, em trajetos que demandavam boa parte do orçamento das famílias.

Entre as décadas de 1960 e 1970, o bairro da Agronômica, onde fica a Penitenciária, foi mudando de cara. De frente para o mar, chácaras davam lugar a prédios residenciais e transformavam a vista da região. Construções do próprio Estado, como a Casa do Governador, complementam a paisagem e a estrutura social daquele território, pensado para ser uma das áreas mais elitizadas da capital catarinense. 

A saudade dos parentes de quem estava detido na Penitenciária batia forte e moldou a metade de trás do bairro. Para ficarem próximos dos entes amados, começaram a ocupar as encostas da região na mesma época em que os prédios de luxo nasciam à beira-mar – dando origem a comunidades como os Morros do Horácio e do 25.

O Morro da Penitenciária fica na divisa entre os bairros da Agronômica e da Trindade. Foto: Warley Alvarenga

Somos comunidades irmãs, criadas no mesmo movimento da luta pela terra. As famílias eram as famílias de quem ocupava as galerias da Penitenciária”, conta Danilo Novais, neto de um sobrevivente do cárcere e liderança comunitária do Morro do Horácio, a maior favela do bairro.

Moldada pelas trajetórias de pessoas pretas e empobrecidas, a Agronômica foi se tornando, também, território de resistência. Com o avançar dos anos, passaria a conviver diariamente com o ritmo do samba, do funk e do hip-hop – que, em Floripa, como nas demais cidades do Brasil, têm suas raízes na periferia.

O Morro da Penita

A demolição do complexo prisional não apagará sua relação com aqueles que viveram por décadas atrás do presídio. Uma das maiores provas está na divisa com o bairro da Trindade. Por ali, o Morro da Penitenciária carrega essa história em seu próprio nome. 

As primeiras casas que foram vendidas aqui foram na Rua da João da Cruz Meira, eram pessoas que tinham parentes presos ali na Penitenciária. Uma família ocupou primeiro o terreno e criou a comunidade”, conta Ana Paula Chaves Goularte, moradora do Morro da Penita.

Ana é uma das três filhas de Argeu e Iracema, que chegaram ao morro quando poucas pessoas viviam por ali e o chão ainda era de terra. A trajetória de sua família mostra que, desde o começo, o acolhimento fez parte do território. 

Seu Argeu e Dona Iracema nasceram no interior de Santa Catarina, casaram-se e vieram tentar a sorte na capital, onde Argeu conseguiu emprego na construção civil. Não tinham parentes presos, mas foram abraçados por um dos morros que começavam a tomar forma atrás do presídio. O casal abraçou de volta aquela terra. 

Ele foi um dos primeiros moradores que veio morar aqui na comunidade. E ele acabou abraçando a comunidade. Ele tinha um coração muito bom e deixou um legado muito importante de amor ao próximo, compaixão e humildade com a sua comunidade, com o outro”, lembra Ana, se referindo ao pai.

Considerado um dos melhores pedreiros da cidade, Seu Argeu foi ajudando moradores que chegavam a construir seus barracos. Vários dos novos moradores, assim como ele próprio, também trabalhavam na construção civil. Ao terminarem as obras que os levava à capital, acabavam por fazer do Morro da Penitenciária seus lares.

O território foi crescendo e, com ele, cresceu também a necessidade de intervenções em sua infraestrutura. Ainda nos anos 1970, mais de 300 famílias já viviam por ali. Argeu e Iracema fizeram parte da primeira geração de lideranças comunitárias do morro. Escadarias, saneamento básico, o calçamento das ruas, o acesso ao transporte público e a construção da primeira igreja da comunidade foram algumas de suas conquistas. 

Hoje o Formiguinha tá circulando aí, mas antigamente foi ele que conseguiu em uma das gestões dele na Associação de Moradores. Antigamente a gente chamava o ônibus menor de micrinho. A Rua João da Cruz Meira antes era toda de barro, não tinha estrada. Primeiro foram atrás da rua, e depois conseguiram o ônibus para ajudar a população a subir e descer o morro. Ele foi participando, foi se destacando na comunidade, conseguiu vários projetos, fez com que a comunidade fosse vista pelos pelos líderes da época, pela prefeitura”.

Morro da Penita foi erguido pelas mãos de seus próprios moradores. Foto: Warley Alvarenga

Fazer com que os morros de Florianópolis sejam vistos de uma maneira não-violenta pelo asfalto e pelo Poder Público sempre foi um enorme desafio. Um dos primeiros vídeos que viralizaram em nosso estado no ano de 2026, por exemplo, definia o centenário Morro do Mocotó, um dos berços do samba e da Umbanda na capital, como “lixo” – e associava o viver naquele território à prática de atividades criminosas. Na década de 1970, quando Argeu e seus vizinhos construíam o Morro da Penita com as próprias mãos, a violência era ainda maior. 

Fome, sujeira, promiscuidade. É o Morro da Penitenciária”, estampava a manchete do hoje extinto jornal O Estado de Santa Catarina, em maio de 1979. A publicação, preconceituosa da primeira à última linha, liga o morro à prática de crimes e à poluição ambiental, além de alertar que o crescimento da favela seria uma “séria ameaça aos futuros administradores da capital”. Os moradores do território são descritos como “gente desocupada e inválida” e suas trajetórias definidas como uma “vida desgraçada”.

Jornal O Estado de Santa Catarina, em maio de 1979. Fonte: Hemeroteca CIASC

O território também foi chamado na reportagem de “Morro dos Loucos”, “Morro da Bagunça” e “Morro dos Pobres” – escancarando o preconceito enfrentado pelos moradores da Penita desde o começo de sua história. Rostos e corpos de crianças da comunidade foram estampados ao lado da manchete. O jornal se dizia supostamente preocupado com a situação dos menores de idade que ali viviam pois, segundo a publicação, viveriam subnutridos e seriam chamados pelas próprias famílias de “diabos”.

Neste ponto, como em vários outros, a realidade da comunidade era exatamente a oposta da narrativa dos jornais. Doenças e insegurança alimentar eram, de fato, um problema para a juventude do morro – mas era o próprio morro quem tentava melhorar a vida de seus pequenos. A maior das mudanças também tomou forma na época de Argeu e Iracema à frente da Associação de Moradores. 

Tinha um grupo de mulheres também ali, que foi a Nete, a Hilda, que eram amigas e acabaram vindo morar aí na comunidade. Eles tiveram essa ideia de um projeto para cuidar das crianças, para elas não ficarem na rua enquanto os pais trabalhavam, dando alimentação e tal. As meninas, que eram mais estudadas, foram atrás de projetos da prefeitura, de viabilidade, para ver como é que poderia acontecer isso”. 

Hoje atendendo mais de cem crianças e adolescentes do Morro da Penita no contraturno escolar e administrada pela Paróquia da Santíssima Trindade, a Casa da Criança tem sua origem nos próprios moradores do território – que idealizaram, buscaram recursos e passaram anos construindo o espaço que levaria mais educação, cuidado e segurança alimentar para seus crias. A prefeitura até apoiou, mas, via de regra, só fornecia o material de construção. 

Antigamente eles conseguiam material, mas não tinha as obras em si. A prefeitura não disponibilizava as pessoas para construir as coisas, só os materiais. Então o meu pai ajudou as meninas nessa parte, construindo a Casa da Criança junto com outros pais”, lembra Ana.

A Casa da Criança foi oficialmente inaugurada em 1988, menos de uma década depois da reportagem do jornal O Estado que mentia dizendo que as crianças do território não eram cuidadas por suas famílias. Com o espaço já de pé, Seu Argeu e seus amigos seguiram contribuindo com a juventude, realizando campanhas e bingos dançantes para arrecadar dinheiro para as atividades das crianças. 

Argeu ainda trabalhava voluntariamente como padeiro na Casa da Criança. Com o tempo, deixou de fazer pães apenas para os jovens e abriu um posto de pão e leite no morro para vender os alimentos a preço baixo para seus vizinhos e repassar o dinheiro para o projeto social que ajudou a construir. 

O cuidado com os menores era levado também para fora dos limites do projeto. Além das três filhas, Argeu e Iracema cuidaram de centenas de crianças e adolescentes da Penita em sua própria casa. 

Numa da gestão deles na Associação de Moradores, eles compraram um nebulizador para ajudar as mães que na época precisavam fazer nebulização e às vezes não tinham condições de ir no posto, levar no médico, porque era longe. A gente ficava disponível lá em casa, as mães iam lá, faziam esse atendimento aos seus filhos e eles melhoravam. Eles se curavam dessas bronquiolites”, lembra Ana, que também auxiliava os coroas nos atendimentos.

Argeu Goularte permaneceu ativo e amado pelo Morro da Penita até o ano de 2024, quando faleceu. Junto de outras lideranças que viveram e trabalharam ao seu lado, é lembrado como alguém que dedicou a vida para fazer do morro um lugar onde a juventude pudesse ser cuidada e expressar sua potência.

Seu velório mobilizou centenas de pessoas e foi um dos mais cheios da história da comunidade. Meses mais tarde, representado como um anjo, ele foi homenageado em mural de graffiti feito por um coletivo que tem levado cultura ao Morro da Penita e busca se conectar com as raízes daquele território. 

A homenagem do Morro da Penita a Seu Argeu. Foto: Warley Alvarenga

Gruve-se

O nosso carinho por ele se estendeu naquela imagem ali, a gente não deixou essa memória dele morrer”.

O mural em homenagem a Seu Argeu foi feito em uma das várias atividades realizadas pelo Coletivo Gruve-se no Morro da Penitenciária. O grupo, que surgiu em 2024, é formado por artistas de Hip-Hop e Ballroom, que buscam fortalecer as artes urbanas em Florianópolis através da formação, criação artística e promoção de eventos e artistas locais.

Em um contexto onde a cena de batalhas, eventos e coletivos de hip-hop vêm crescendo em Floripa, o Gruve-se se destaca pela valorização a recortes de classe, raça, gênero, sexualidade e território. Ter a inclusão como pilar foi um dos fatores que levou o Coletivo a atuar no Morro da Penita, resgatando a raiz periférica da cultura hip-hop. A maior parte dos encontros promovidos por outros coletivos da cidade costuma acontecer no asfalto. 

A relação de uma das fundadoras do Gruve-se com a Penita foi outro fator que facilitou que seu coletivo levasse arte urbana ao território. A artista, educadora e produtora cultural Duda Movimenta mora no morro há cinco anos. Rodou por vários outros endereços na capital até que, ao ter que sair de um deles do dia para a noite, foi mais uma entre milhares de pessoas que o Morro da Penita acolheu ao longo das últimas seis décadas.

A cultura hip hop é esse caminho que eu encontrei para criar uma raiz aqui no Morro da Penitenciária. Aqui eu encontrei uma maneira de me enraizar um pouco mais. E é por isso que tudo isso faz muito sentido, é isso que me dá energia para fazer as paradas acontecerem aqui”, diz Duda.

Antes mesmo de se mudar para o território, ela já havia percebido que a Penita contava com espaços que poderiam ser usados para intervenções artísticas. Também reparou que os moradores do morro tinham o hábito de se encontrar e conviver pela comunidade.

Quando eu morava no Pantanal ou no Córrego Grande, não tinha um lugar que eu passava e via esse fluxo de pessoas apenas estando juntos. Aqui tem isso. A galera às vezes fica na frente do mercadinho ali embaixo jogando dominó, a galera fica aqui na distribuidora bebendo. Esse fluxo de pessoas também me instigou a tentar estar junto, só que eu não vou no bar beber porque eu não bebo. Então eu procuro provocar e propor formas ampliadas de estar junto. Você pode continuar bebendo e jogando sinuca, mas você pode pintar, dançar e tocar, sabe?

A primeira batalha de dança promovida por seu coletivo no território foi na rótula que marca o ponto final do ônibus que sobe o morro. Antes disso, espaços da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) e da comunidade vizinha à Penitenciária, o Morro do Horácio, já tinham sido palco de atividades do Gruve-se.

Existe uma força dos movimentos culturais de favela. Isso existe, de fato. Só que, cara, as favelas, na verdade, precisam de mais espaços culturais, de mais esse movimento. Não é toda favela que tem um movimento que vai ter um grupo de rap”.

Entre shows, oficinas, rodas de conversas e novas batalhas realizadas na Penita, também já foram ocupados um espaço anteriormente usado como depósito de lixo, um bar e um pátio localizado ao lado de uma igreja – onde se tem uma das vistas mais bonitas da cidade de Florianópolis.

Além disso, as vielas do morro mudaram radicalmente de aparência desde a fundação do coletivo. Além de Seu Argeu, locais relevantes da comunidade – como a Rua Nova e o próprio nome do morro – também estão representados em murais coloridos pela Penita. Ainda há uma série de representações da cultura periférica, com imagens de pipas, B-boys, dançarinos e caixas de som. As pinturas de muro realizadas pelo Gruve-se ao longo dos anos contaram com o apoio da Associação de Produtores e Arte Educadores em Cultura Urbana de Florianópolis (APAECUF) e do Agenda Urbana – empresa de graffiti fundada pelas artistas Sari e Amanda.

Fé nos crias

Eu procurei essa forma de me conectar com o morro através das crianças primeiro. A partir da dança, eu consigo me conectar muito mais com as crianças do que muito adulto. Para mim, o meu espaço de lazer é a roda de dança, é ir num rolê que tem um DJ, um espaço de arte”, diz Duda.

O ciclo de eventos mais recente do Coletivo, o Batalha Gruve-se, aconteceu em agosto de 2026. No dia 8, uma oficina de hip-hop e breaking reuniu dezenas de crianças e adolescentes da Penita em frente ao mural que leva o nome do morro. Seguindo o legado de figuras como Seu Argeu, faz parte da atuação do Gruve-se potencializar a juventude periférica.

Oficina de Hip-Hop e Breaking, em 8 de agosto. Foto: Danieli Finaú

A relação da co-fundadora Duda com os crias da Penita iniciou-se quase imediatamente depois de ela se mudar para o morro. Três anos antes de fundar o coletivo, quando ainda era estudante de Teatro da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), a educadora foi estagiária da Casa da Criança e criou laços afetivos com vários jovens. 

No evento do dia 8 de agosto, a própria Duda foi responsável por uma das oficinas – assim como Emi Índigo, que fundou e é produtora do Gruve-se ao lado da amiga.

O que a gente tá fazendo aqui é uma oficina para as crianças do morro e também para outras pessoas que quisessem vir colaborar. Essa é uma oficina que tem o hip hop freestyle e o breaking como foco. Então, eu e a Duda, a gente dividiu essa oficina. A ideia é trazer um pouco mais essa parte do aprendizado, da arte-educação, para as crianças também se sentirem acolhidas. Para que na próxima batalha elas já saibam dançar um passinho, entrar na roda e se sentirem mais à vontade”, conta Emi.

Aos 11 anos de idade, Hartur Silva Santos foi um dos crias que compareceu ao evento para aprender sobre a cultura hip-hop – a qual ele já admirava através de vídeos na TV e na internet – e arriscar seus primeiros passos de dança. Sua mãe acompanhou a atividade orgulhosa, assim como familiares de várias outras crianças que passaram a tarde girando de ponta-cabeça.

Eu tava assistindo lá em casa uma coisa de desenho lá. Eles estavam girando, dançando. Eu queria fazer o mesmo, eu tentava e eu nunca desisti. Hoje foi minha primeira vez, achei incrível. Todo mundo tava dançando com alegria, muito legal e maneiro”, disse Hartur.

As atividades do Gruve-se sempre contam com lanches para as crianças – no dia da oficina, fornecido pelo E.G. Lanches, lanchonete que fica no morro. Via de regra, os menores treinam suas habilidades de fotografia através da partilha com fotógrafas e fotógrafos do Coletivo durante os eventos. As pinturas de murais e aplicações de lambes feitas pelo coletivo nas vielas da Penita também incluem intervenções dos crias. Campanhas de arrecadação de brinquedos e doces também já foram realizadas pelas artistas do coletivo. 

São ações que, como a construção da Casa da Criança anos atrás, buscam potencializar as habilidades da juventude da periferia. Mesmo que muito tenha sido conquistado ao longo de décadas de articulação comunitária, a Penita e seus jovens seguem sofrendo com a ausência do Estado. 

A gente tem um problema na creche, a estrutura não é adequada. A laje tem risco de queda, o parquinho é inadequado. […] O morro tá largado, tamo largado, é um descaso. Tem um monte de lugar aqui pra cima que tá precisando de corrimão, de arrumar os caminhos pra gente passar. […] Chega a época de eleição, é só promessa das coisas e não cumprem. Falta espaço pras crianças brincarem, um parquinho. No postinho tem que chegar às 04h da manhã pra pegar fila e conseguir uma consulta”, relataram moradoras da Penita à nossa reportagem.

População do Morro da Penitenciária sofre com a ausência de políticas públicas no território. Foto: Warley Alvarenga

A Batalha

O segundo evento da Batalha Gruve-se aconteceu duas semanas após a oficina para os crias. A ideia inicial era realizar o evento no final da Rua Nova, sob os olhares do graffiti de Seu Argeu. A chuva que caiu durante toda a semana acabou transferindo o evento para o Tempero da Manu – empreendimento do morro que fica no começo da mesma rua. 

Em 16 de agosto, cerca de 100 pessoas de vários cantos do estado – entre artistas e amantes da cultura hip-hop – subiram o Morro da Penita. Naquela tarde de domingo, a primeira atividade foi uma roda de conversa sobre a presença e a invisibilização de mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ na cena do hip-hop, debate que é pautado pelo coletivo desde a sua fundação. 

O nosso grupo é LGBTQIAPN+. A gente é um grupo de hip-hop e cultura ballroom, a gente tem um mix aí, mas todo mundo é cultura hip-hop. E todo mundo é LGBT. Então, quando a gente faz evento, as LGBTs vêm, as travestis vêm, porque é o nosso público. Tipo, vem de tudo, mas essa galera vem porque se sente confortável, porque é um grupo LGBT que tá produzindo”, relata Duda.

Durante a roda de conversa, foi destacado como esta comunidade historicamente sempre encontrou barreiras para se expressar na cena. Ainda que siga existindo preconceito com pessoas LGBTQIAPN+ no hip-hop, incluindo na própria periferia, o Gruve-se foi apontado como espaço de acolhimento para artistas urbanas que fogem de padrões pré-estabelecidos de gênero e sexualidade.

A gente questiona o momento atual da nossa cena, a gente sente a ausência e o apagamento da presença feminina e LGBT pra galera do rap, dentro das batalhas de rima. Eu sinto que aqui tá tendo uma crescente muito grande das minas estarem cada vez mais presentes nas batalhas. As travestis, as pessoas LGBTs estão mais presentes”, disse Saturno Alive, artista trans não-binárie que participou da Batalha Gruve-se.

Saturno é membro do Cia Abelhas, outro coletivo formado por pessoas LGBTQIAPN+ que promove eventos culturais de arte urbana pela cidade de Florianópolis. O Cia Abelhas é dirigido por Luna Luh. Luna é uma pessoa negra de gênero fluido e foi um dos artistes que auxiliou o Coletivo Gruve-se na oficina do dia 8. 

É maravilhoso tá fazendo essa ação aqui no Morro da Penitenciária. Nós, enquanto coletivos que abordam cultura hip hop pelas minorias sociais, a gente gosta de colar para se fortalecer porque essa é a essência, essa é a vida toda”, afirmou Luna.

Após a roda de conversa, a pista montada no Tempero da Manu ficou aberta para quem quisesse se expressar – incluindo crianças do morro, que prestigiaram e fizeram fotografias do evento. Neste momento, mais de 20 artistas se inscreveram para a batalha de dança que encerraria o evento.

A Batalha Gruve-se foi uma competição da modalidade Open Style, que permite a expressão de diferentes danças urbanas na mesma pista. Dançarinos de breaking, dança que costuma ser mais tradicionalmente relacionada ao hip-hop, competem com artistas que têm em sua base ritmos como o Vogue – dança urbana que é símbolo da comunidade LGBTQIAPN+.

A trilha sonora da batalha também acompanhou a diversidade de corpos e movimentos que tomaram conta da pista de dança. O som foi ao vivo e ficou por conta da banda Vênus de Marte e a Tanatose, composta por artistas LGBTQIAPN+. A setlist que guiava as dançarines misturava diversos gêneros e teve reproduções de artistas como Criolo, MC Marcinho, Valesca Popozuda, Snoop Dogg, Tim Maia e Beyoncé. 

Os mais de 20 artistas fizeram uma apresentação inicial, por ordem de inscrição. Os 16 melhores avançaram para a fase seguinte e foram enfrentando-se em duelos até definir o campeão – Calê, que venceu a dançarina Locker Ally na final. Os oito melhores da noite voltaram para casa com premiações em dinheiro.

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