Comunidades pesqueiras e maricultores enfrentam os impactos da expansão imobiliária sem a correspondente ampliação da coleta e do tratamento de esgoto
Reportagem de Camila Borges
Na fria madrugada de sete de julho, quando os termômetros marcavam menos de 10°C, Jorge Pereira saiu para pescar camarão-branco, peixe-espada, robalo e o que mais viesse na rede. O trabalho começou cedo, às 4h da manhã, antes mesmo que os primeiros raios de sol chegassem ao Bairro João Paulo, na Baía Norte de Florianópolis.
A pesca é uma tarefa diária e multifacetada: exige força para puxar a rede de caceio, depende das condições do tempo e também da sorte. Jorge só retorna ao final do dia, por volta das 19h, quando entrega o pescado para sua esposa, Deise da Silva, que é responsável por descascar, manipular e comercializar o alimento.
O casal integra um grupo de 43 famílias que vivem da pesca artesanal no bairro João Paulo e resistem aos impactos do crescimento urbano no entorno. “Por causa desse monte de prédio, nossa praia piorou muito. Vem peixe morto, o camarão tá vindo sujo. Quando a gente puxa a rede vem sujeira de tudo que é coisa”, lamenta Deise.
A maré baixa é capaz de revelar o lodo depositado às margens da praia que até a década de 90 era um local de convivência e lazer. “Se você entrar e andar, vem lama até o joelho. Agora tá feio, mas antigamente a gente tomava banho aqui”, relembra Deise.
Para evitar o contato com a lama, Jorge e outros pescadores utilizam o trapiche como forma de acessar o mar. A estrutura de 220 metros de comprimento foi construída pela Prefeitura de Florianópolis e inaugurada em 2021, após reivindicações da Associação dos Pescadores Profissionais, Artesanais e Amadores do João Paulo (APPAAJP).


À direita: Lodo na praia do João Paulo em 2026. Foto: Camila Borges
“Antes do trapiche nós tínhamos que enfrentar a lama pura. A gente ficava no mar fazendo força e na volta ainda tinha que enfrentar a lama”, relembra o pescador Silvani Ferreira, que trabalha no local há 30 anos. O trapiche facilitou o acesso ao mar e conferiu maior segurança aos pescadores, mas não resolveu a origem do problema.
Os 20 centímetros de lodo acumulados na praia do João Paulo podem estar associados à urbanização do local e também ao início da operação da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) do Saco Grande, aponta uma nota técnica publicada pelo grupo Ecoando Sustentabilidade e pelo Laboratório de Oceanografia Química da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em 2021.
A praia do João Paulo possui características lodosas, por estar em águas protegidas dentro da baía, explica o biólogo Fábio Wiggers. “Esse tipo de praia é especialmente sensível às alterações do ambiente, e o aumento da contaminação por esgoto na baía pode estar influenciando o aumento do lodo no local“, afirma. Segundo ele, a lama observada na praia está relacionada principalmente ao aumento da carga de esgoto lançada em toda a baía.
A partir da década de 1980 o bairro João Paulo deixou de ser um local predominantemente rural e passou por um intenso processo de urbanização. A expansão, porém, ocorreu sem a implantação da infraestrutura necessária de coleta e tratamento de esgoto.


À direita: Mancha urbana no Bairro João Paulo em 2019. Fonte: GeoPortal de Florianópolis
O pescador Silvani, que mora no local desde criança, viu como o processo de urbanização, desacompanhado do tratamento de esgoto, levou espécies consumidas pela comunidade local à extinção.
“Por causa dessa questão do esgoto o berbigão sumiu. Outros peixes diminuíram, principalmente na beira da praia. Nossa praia era um tapete de concha de berbigão, era lindo.”
Ele também critica a maneira como o bairro se transformou: “Para crescer dessa forma, primeiro teria que ter que ter visto para onde que iria todos esses esgotos. Isso não foi visto. Foram fazendo, foram fazendo, foram fazendo.”
Solução questionada pelas comunidades tradicionais
Em 2006, a Casan colocou em operação a Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) do Saco Grande. A estrutura trata o esgoto coletado na região e lança o efluente — o líquido resultante do tratamento do esgoto, que não é água potável, mas deve atender a padrões de qualidade para ser lançado na baía — por meio de um emissário submarino localizado a cerca de 800 metros da praia do João Paulo. Segundo a nota técnica elaborada pelo grupo Ecoando Sustentabilidade e pelo Laboratório de Oceanografia Química da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a ETE pode estar contribuindo com 3% a 30% do material que chega à praia. Em uma eventual ampliação da estação, essa contribuição poderá variar entre 20% e 80%.
A nota técnica considera que o Estudo Ambiental Simplificado (EAS) para instalação do emissário não apresentou a capacidade real de diluição desse efluente no local. O professor Pablo Sezerino, do curso de Engenharia Sanitária da UFSC, explica que não é adequado fazer a dispersão de efluentes em uma Baía devido à necessidade de maior circulação marítima para diluir o efluente.

No entanto, para o emissário atingir uma maior distância da praia “é necessária muita tecnologia e o Estado precisa conseguir muitos parceiros e ter poder de negociação. É uma obra complexa, demora, tem que ter experiência“, afirma o professor
O estudo ambiental utilizado para licenciar o emissário da ETE do Saco Grande define que, na área de lançamento do efluente, não há pesca profissional nem navegação de lazer. A afirmação, porém, é contestada pela nota técnica da UFSC, que enfatiza como o local é historicamente utilizado por pescadores artesanais.
Silvani conta que a comunidade de pescadores foi contra a instalação do emissário e que percebeu uma piora na poluição da praia a partir de 2006. Ele também questiona a qualidade do efluente tratado que é despejado na baía:
“Tem esgoto sendo solto pelo emissário de qualquer forma e a poluição vem parar aqui na nossa praia. A lama chega muito forte. A gente não tem muito o que fazer, somos dependentes do poder público, são eles que ditam as regras.”
Os pesquisadores da UFSC responsáveis pela nota técnica solicitaram à Casan os resultados do monitoramento ambiental para compreender a dimensão do impacto do lançamento do efluente tratado da ETE na qualidade ambiental da praia de João Paulo, mas os dados foram negados por serem considerados “sigilosos” – o que foi definido, no estudo da UFSC, como “inaceitável”. Segundo a professora Alessandra Fonseca, uma das pesquisadoras que assinam a nota técnica, pela legislação vigente em julho de 2021, os dados deveriam ser acessíveis.
Questionada pelo Desterro sobre este sigilo, a Casan informou que as respostas às solicitações são avaliadas considerando as restrições preconizadas na Lei de Acesso à Informação. A Companhia também salienta que executa parcerias com a Universidade Federal de Santa Catarina em diversos convênios técnicos, com intercâmbio de informações e de estudos.
Apesar de os moradores locais relatarem à reportagem que perceberam uma piora na qualidade ambiental da praia após a instalação da ETE, a Casan disse ao Desterro que o acúmulo de lodo na região não está diretamente relacionado à atividade da Estação de Tratamento. Segundo a Companhia, a formação do lodo decorre de fatores como a hidrodinâmica natural do local – por se tratar de uma baía e não de mar aberto – e por causa da poluição das ligações irregulares na rede pluvial com esgoto não tratado.
Em julho de 2021 foi identificada contaminação por arsênio em um molusco consumido pela comunidade local – conhecido popularmente como tatu. A concentração encontrada ficou acima do limite previsto na instrução normativa que estabelece padrões de segurança alimentar. Pesquisadores apontam que o arsênio não é removido durante o tratamento convencional de esgoto e pode estar associado ao desenvolvimento de câncer, além de doenças cardiovasculares e de pele.
“Ainda tem tatu na nossa praia, é um bicho bem resistente. Ninguém ficou doente por comer tatu, que eu saiba. Mas depois que tivemos conhecimento que o tatu é tão contaminado, paramos de consumir. Inclusive, o pessoal tirava para vender, mas agora não tiramos mais, porque sabemos que está muito contaminado”, explica o pescador Silvani.
Vera Bridi, membro do Fórum dos Pescadores e das Pescadoras das Baías da Grande Florianópolis, denuncia que situações vivenciadas por pescadores artesanais e maricultores em Florianópolis violam a Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que assegura direitos às comunidades tradicionais.
“Temos direito à salvaguarda dos nossos territórios, da salubridade dos nossos territórios. Inclusive temos direitos prioritários de exploração e de gestão em cima desses territórios. No entanto, nós não conseguimos até hoje que houvesse uma manifestação, uma mediação adequada do Ministério Público, da Defensoria Pública da União, para que realmente essa lei seja efetivada e factível”.

Sinais do colapso
O cenário observado no João Paulo não é uma exceção. Em diferentes regiões de Florianópolis, o crescimento urbano tem acontecido sem que uma infraestrutura de saneamento adequada acompanhe o aumento populacional.
“O tratamento que damos ao esgoto não é bom. Ou seja, não tratamos todo o esgoto que produzimos e o que nós tratamos ainda precisa melhorar muito antes de se pensar em incentivar o crescimento da cidade”, avalia Paulo Horta, professor da UFSC e especialista em ecologia marinha.
Apenas 63% do esgoto produzido em Florianópolis é tratado, segundo dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (Sinisa) de 2024. A capital possui 537 mil habitantes, no entanto 190 mil pessoas não têm acesso à rede de coleta de esgoto, como aponta o Censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ainda segundo o Instituto, em 2022, mais de oito milhões de litros de esgoto sem tratamento foram despejados na natureza em Florianópolis.
De acordo com o professor, esses números são resultado de decisões do Poder Público. Esta falta de tratamento adequado apresenta risco para o funcionamento dos ecossistemas, explica o professor “Estamos passando por uma política colapsista que é ruim para todos. Quando ignoramos a capacidade de suporte de um ecossistema, estamos produzindo um colapso”, avalia.
Um dos sinais desse colapso ficou evidente em abril de 2026, quando milhares de peixes foram encontrados mortos no manguezal do Itacorubi, em Florianópolis. Em nova nota técnica, pesquisadores do projeto Ecoando Sustentabilidade mostraram que a mortandade dos peixes está relacionada à presença de esgoto não tratado, à estiagem e às altas temperaturas – conjunto de fatores que causou a asfixia da fauna.
“Se a gente continuar sem saneamento básico, vamos transformar nossos rios, nossos estuários e nossos manguezais, que eram berçários, em necrópoles”, considera Paulo.

O colapso observado no manguezal do Itacorubi também se manifestou na maricultura. Em 2026 foi registrada a morte de 90% da produção de ostras em Florianópolis – local considerado Capital da Ostra no Brasil, sendo responsável por 97% da produção nacional.
Paulo explica que as perdas na produção são resultado da proliferação de microalgas, favorecida pela combinação entre o aquecimento dos oceanos e a deficiência no tratamento de esgoto: “Quando não ocorre o tratamento terciário para esgotamento sanitário, é produzido o efeito de eutrofização. Na medida que o oceano vai ficando fertilizado, vai perdendo a capacidade de manter o oxigênio e é favorecido o florescimento de algas que podem ser nocivas. Estamos envenenando nossos territórios, nossos maretórios”.
As perdas na produção afetam a segurança alimentar, a renda dos maricultores e também a cadeia de restaurantes e de turismo que lucram com a venda das ostras, explica Tatiana Gama, da diretoria da Associação de Maricultores do Sul da Ilha (Amasi).
“É preciso de investimento para cultivar ostras e muitas vezes o produtor só vai conseguir recuperar isso com a venda. Por causa da mortalidade não conseguimos ter esse retorno. Algumas empresas demitiram funcionários, deram férias coletivas. Alguns não tinham dinheiro nem para pagar a conta de luz. E esse prejuízo também está influenciando na aquisição de compra de sementes para a próxima safra.”
As consequências do crescimento sem garantia de um tratamento de esgoto adequado são sofridas principalmente pela maricultura, que depende da qualidade da água para subsistir, pondera Tatiana:
“A gente não tem nenhum estudo contínuo que nos explique exatamente o que causou essa mortalidade em abril. Percebemos que a água estava mais quente do que o normal e a mortalidade pode ter acontecido por um conjunto de fatores. A falta de tratamento de esgoto adequado impacta na qualidade da água. Altos volumes de água doce, de chuva entrando na baía, também interferem na salinidade da água e no desenvolvimento das ostras”.
O avanço imobiliário em Florianópolis desacompanhado da expansão da coleta e tratamento de esgoto coloca o lucro imediato acima da manutenção da qualidade ambiental, explica Vera: “não dá para você querer fazer uma expansão de ocupação dentro desse território, porque ele não têm capacidade de suporte, nem de saneamento e muito menos de abastecimento de água. Então, quem constrói, vende e vai embora. O construtor não sofre impacto.”
Ela lamenta que uma região considerada ideal para o desenvolvimento de moluscos, como Florianópolis, esteja sendo prejudicada pelo avanço imobiliário: “Aqui no Brasil em sete, nove meses nós temos produção. Na França demora três anos, no Japão cinco anos. Nós temos um tesouro nas mãos e simplesmente porque alguns donos de grandes construtoras querem estar no super lucro, querem simplesmente chegar e agir como se não fosse terra ou mar de ninguém. Então nós precisamos lembrá-los de que a maricultura existe e que esse mar é nosso”, reitera.
Em resposta ao Desterro, a Casan reconheceu que todo tipo de esgoto lançado de maneira irregular é prejudicial ao meio ambiente e disse que busca expandir a cobertura da coleta para áreas da cidade onde são realizadas atividades de maricultura e pesca artesanal – como a bacia do João Paulo e o Sul da Ilha. A Companhia informou que trabalha para aumentar a cobertura de esgoto e cumprir em Florianópolis as metas estabelecidas pelo Marco Legal do Saneamento, com expansão para 90% da rede coletora em 2033.
Diante da mortandade de peixes, a suspensão da emissão de novos alvarás e licenças para construção em áreas que ainda não possuem tratamento de esgoto adequado foi solicitada em uma denúncia feita pela vereadora Ingrid Sateré Mawé (PSOL) ao Ministério Público Federal (MPF). Como resposta, o procurador Renato de Rezende Gomes determinou a instauração de uma Notícia de Fato Criminal para apurar a responsabilidade pela mortandade dos peixes na Bacia do Itacorubi. Ele também ordenou a abertura de uma Notícia de Fato Cível para apurar a capacidade de suporte da Bacia do Itacorubi e a necessidade de conter a expansão imobiliária.
O reflexo das decisões políticas
Enquanto o potencial construtivo da cidade é ampliado com a última revisão do Plano Diretor em 2023, que permitiu a construção de prédios com o dobro da altura, Florianópolis permanece com a menor cobertura da rede de coleta de esgoto entre as capitais do Sul do país. Segundo dados do Sinisa, 67% da população da cidade é atendida por rede coletora de esgoto. O percentual coloca Florianópolis na 16ª posição entre as capitais brasileiras e na última colocação entre as capitais da Região Sul. Em Curitiba, a rede alcança 100% da população; em Porto Alegre, 72%.
Para o professor da UFSC Paulo Horta, essa posição é resultado de escolhas do Poder Público. “É uma decisão política do Executivo da cidade por décadas. Não existe limitação técnica para se ter universalização do saneamento básico em Florianópolis ou em qualquer outra cidade”, afirma.
Conforme o censo do IBGE de 2022, mais de 217 mil moradores de Florianópolis utilizam fossas sépticas ou fossas-filtro não ligadas à rede coletora, o que corresponde a 40% da população. Outros 14 mil despejam o esgoto em fossas rudimentares ou buracos. O professor Paulo destaca que o modelo de fossa séptica pode funcionar em áreas rurais e pouco adensadas, mas não é eficiente em cidades costeiras densamente ocupadas como Florianópolis, que possui lençol freático superficial em determinadas localidades, como no Campeche. Além disso, estas fossas precisam passar por manutenção regular para que funcionem de maneira adequada.
Questionada pela reportagem, a Casan esclareceu que é responsabilidade do morador fazer manutenção dos sistemas de tratamento de esgoto no terreno onde não há rede coletora de esgoto. No entanto, a lei nº 11.445/2007, que estabelece diretrizes nacionais para o saneamento básico, discorda. Ela define como serviço público a disposição final dos esgotos das unidades de tratamento coletivas ou individuais de forma ambientalmente adequada, incluindo as fossas sépticas.
Membros da Associação dos Servidores de Urbanismo e Meio Ambiente de Florianópolis (Asuma) reforçam que a remoção do lodo das fossas sépticas é um serviço que deveria estar sendo prestado pelo Poder Público. “A concessionária tem a obrigação de fazer a limpeza, fazer a inspeção correta”, ressalta um servidor ouvido pela reportagem.
A consequência dessa falta de manutenção é desastrosa para o meio ambiente. O aquífero do Campeche, por exemplo, possui indícios de contaminação que podem estar relacionados à ausência de um sistema público de coleta e tratamento de esgoto na região e ao uso de alternativas individuais como fossas sépticas, analisa a professora Alexandra Finotti, do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da UFSC:
“No Sul da Ilha, em toda a bacia do Rio Tavares, não existe sistema de coleta e tratamento de esgoto. Predominam sistemas individuais, com fossa, filtro e infiltração no solo. Nossa hipótese é que a contaminação identificada no aquífero esteja relacionada justamente à infiltração proveniente desses sistemas individuais”.
Nos locais onde há rede coletora de esgoto também são identificados problemas. Embora dados do Sinisa definam que Florianópolis coleta 67% dos efluentes produzidos, o sistema é apontado como ineficiente por representantes da Asuma.
“A rede da Casan é muito velha e furada. Por exemplo, o Continente, em tese, está todo com rede instalada. Então a gente não deveria ter problema no esgoto e nos rios do Continente, por exemplo. Mas em qualquer vala que você for no Continente, vai ver a podridão. Porque a rede não tem manutenção”, denúncia o servidor.
Eugênio Gonçalves, do Conselho Comunitário da Costa de Dentro, também questiona a eficácia do sistema: “Se o Centro da cidade está todo coberto pela rede da Casan, por que Beira-Mar está contaminada?”
Em 4 de agosto de 2026 o Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) instaurou o Inquérito Civil n. 06.2026.00003200-2 para apurar as causas da falta de balneabilidade da Praia da Beira-Mar Norte, na área central de Florianópolis. A ação foi tomada a partir de análises do Instituto do Meio Ambiente (IMA) que indicaram contaminação da água pela bactéria Escherichia coli (E. coli), que vive no intestino de seres vivos de sangue quente, como seres humanos. O inquérito busca apurar a existência de ligações irregulares ou clandestinas de esgoto sanitário na rede de drenagem pluvial que deságua na praia e analisar as medidas tomadas pelo Poder Público e pela Casan para identificação e correção das fontes de contaminação.
Fiscalizações já realizadas pela Casan por meio do programa Trato pelo Saneamento, que promove vistorias e orientações sobre as instalações de esgoto dos imóveis, indicam um elevado índice de irregularidades. Os dados mais recentes, referentes ao Trato pela Costa Norte, mostram que, em 2025, dos 6.140 imóveis vistoriados, apenas 5,73% estavam regulares. Após a primeira inspeção, outros 579 imóveis foram regularizados.
Fonte: Dados disponibilizados pela Casan
Segundo a Casan, as principais irregularidades identificadas são a ausência de ligação do imóvel à rede coletora de esgoto, a conexão da água da chuva à rede de esgoto, a falta de caixa de gordura e o lançamento de esgoto na rede de drenagem pluvial.
A professora Alexandra explica que cada uma dessas irregularidades produz impactos diferentes ao meio ambiente. Quando o esgoto é lançado na rede de drenagem pluvial, os efluentes seguem sem tratamento para rios, córregos e, posteriormente, para o mar. Já quando a água da chuva é direcionada de maneira errada para a rede coletora de esgoto, pode ocorrer sobrecarga no sistema durante períodos chuvosos – provocando extravasamentos e o comprometimento das estações de tratamento.
“Em Florianópolis temos muita ligação cruzada: drenagem no esgoto e esgoto na drenagem. Temos uma situação de saneamento bem complicada. Por causa dessas irregularidades, há uma piora na qualidade da água em função do aumento da ocupação que o Plano Diretor atual prevê. Existe o sistema individual, mas ele não atinge o nível de tratamento necessário para que a gente tenha pelo menos a manutenção da qualidade ambiental”, pondera Alexandra .
Uma reportagem publicada pelo Desterro em maio de 2026, mostrou, a partir do cruzamento de alvarás de construção, que bairros como Campeche e Rio Vermelho, que ainda não possuem rede coletora de esgoto, concentram os maiores índices da expansão imobiliária recente. Como solução para continuar aprovando a construção em áreas sem rede de tratamento de esgoto, o Poder Público tem permitido a instalação de estações de tratamento de esgoto privadas, com lançamento dos efluentes na rede de drenagem pluvial, conforme Orientação Técnica da 09/2022 da Vigilância Sanitária de Florianópolis. No entanto, uma força tarefa do Pacto pelo Saneamento realizada em 2023 no Campeche revelou que as ETEs de 83% dos condomínios estão lançando efluentes fora dos parâmetros exigidos pela legislação vigente.
“Essa questão de permitir o lançamento dos efluentes desses condomínios no sistema de drenagem é um risco muito grande. Ainda que a operação funcionasse direito, é um impacto fazer esse lançamento sem passar por um tratamento terciário, de evaporação, infiltração. O maior problema que eu vejo é que estamos em uma cidade turística. Se a poluição estiver no nível médio, a pessoa passa uma temporada aqui e pega virose. Eu acho que pode impactar muito a questão do turismo, as comunidades artesanais, a própria criação de moluscos”, analisa Alexandra.
11 mil casos de doenças diarreicas e outras infecções virais foram atendidas pela rede municipal de Florianópolis apenas no primeiro trimestre de 2026, segundo dados da Secretaria Municipal de Saúde e da Vigilância Epidemiológica. De acordo com a prefeitura, “as ocorrências apresentam comportamento sazonal, com maior concentração no verão, período de maior circulação de pessoas na cidade.”
A professora Alexandra também questiona decisões do Poder Público que priorizam o adensamento sem a garantia da universalização do tratamento de esgoto: “Não temos um atendimento de 100% do poder público, temos muito sistema individual sem fiscalização. A poluição das nossas bacias está de média a alta. Então a gente está fazendo esse adensamento por quê? Qual é o objetivo disso se não conseguimos garantir que a qualidade ambiental vai ser mantida?”
Integrantes da Asuma ouvidos pela reportagem confirmam a falta de recursos humanos para realizar as fiscalizações necessárias. Eles também relataram que embora programas de vistoria como os Tratos pelo Saneamento auxiliem na ampliação das fiscalizações, essas iniciativas são pontuais e não recebem continuidade.
Uma servidora da Asuma ouvida pela reportagem enfatizou que os problemas no tratamento de esgoto em Florianópolis estão relacionados à atuação do poder público municipal. Ela chama atenção para as Leis Federais nº 11.445/2007 e nº 14.026/2020 que atribuem ao município responsabilidades como elaborar o plano de saneamento, estabelecer metas e indicadores de desempenho, fazer fiscalizações e acompanhar os resultados.
Há uma desgovernança no saneamento em Florianópolis, segundo Eugênio: “Se você somar a ineficiência da drenagem de Florianópolis com a ineficiência do esgotamento, o problema se avoluma. O sistema colapsa. Eu digo que existe uma desgovernança no saneamento de Florianópolis. O município contratou uma concessionária e tem objetivos que não estão sendo atendidos. No Plano Municipal de Saneamento Básico tem uma série de metas que não estão sendo atendidos“, denúncia.
Quando a viabilidade econômica é colocada como prioridade
O avanço de soluções adequadas para coleta e tratamento de esgoto, geralmente, não é colocado como prioridade pelos governos, explica a arquiteta e mestra em Engenharia Sanitária Zoraia Vargas: “O saneamento é um processo que tem alto custo. Exige investimento e tem aquela lógica da política, que o saneamento fica escondido, não dá voto”. Ela analisa que existem diversas tecnologias em todo o mundo que poderiam ser implementadas em Florianópolis.
No entanto, para colocar em prática essas tecnologias é necessária a priorização do Poder Público, pondera o professor Paulo: “Estamos colocando a viabilidade econômica como um elemento mandatório. Só que a viabilidade econômica é falsa porque não considera todos os custos da carência de saneamento. Qual é o custo de milhares de peixes mortos? Qual é o custo de uma criança crescer e não poder nadar na praia que seus avós nadaram? Qual é o custo de você ver pessoas doentes?”.
Em Florianópolis foram realizadas 351 internações e 13 pessoas morreram por causa de doenças relacionadas ao consumo de água contaminada e pela falta de saneamento básico em 2024, de acordo com dados do Sinisa.
Zoraia ressalta, ainda, que as soluções apresentadas pela Casan são precárias e que a empresa não recebe confiabilidade da população devido a casos como o rompimento da lagoa de evapoinfiltração da ETE da Lagoa da Conceição, em janeiro de 2021, e ao rompimento de um reservatório no Complexo do Monte Cristo, em setembro de 2023. Mais recentemente, em junho de 2026, a favela da Serrinha também foi inundada por uma falha mecânica no reservatório da comunidade.
A arquiteta também citou o caso Sul da Ilha que, apesar dos 40 quilômetros de rede coletora de esgoto instalados, ainda não tem o sistema operando por conta de impasses judiciais. “Antes de começar a obra é preciso fazer o estudo de impacto ambiental, discutir com a comunidade, avaliar uma tecnologia possível de ser lançada”, considera.
A ETE do Rio Tavares, projetada para coletar e tratar o esgoto do Sul da Ilha, deverá ocupar uma área vizinha à Resex Pirajubaé, a primeira reserva extrativista marinha do Brasil. No entanto, o projeto é alvo de denúncias. Pareceres contrários à instalação da ETE elaborados por servidores locais do ICMBio e emitidos em 2014 foram ignorados após autorização da presidência do órgão, em Brasília. A manobra ocorreu para evitar a perda de recursos de financiamentos externos, como os do banco japonês JICA, segundo a Nota Técnica 03/2026 do Conselho Deliberativo da Resex Pirajubaé.
O plano de lançar efluentes na Baía Sul, especificamente no Saco dos Limões, prejudicaria o maretório, aponta a nota técnica. Estudos alertam que a região possui uma baixa circulação hídrica, o que impediria a dispersão do efluente tratado e faria com que o lodo decantasse na orla, ameaçando a segurança alimentar e a sobrevivência de comunidades tradicionais.
Documentos e manifestações de órgãos públicos também apontam que o projeto da ETE do Rio Tavares esteve ligado às demandas da expansão imobiliária. Durante audiência pública realizada na Assembleia Legislativa de Santa Catarina em novembro de 2023, a então procuradora-geral da República Anaúcia Hartmann afirmou que o projeto foi concebido para atender ao crescimento construtivo do Itacorubi.
“A ETE do Rio Tavares foi pensada inicialmente para receber o tratamento de esgoto, é incrível isso, do Itacorubi. Por quê? Porque o Sinduscon [Sindicato da Construção Civil] estava brigando contra o Município porque iria construir uma centena de prédios, que construiu, no Itacorubi, e tinha que ter tratamento de esgoto. Então tinha que fazer em algum lugar. […] Resolveram, ampliando a capacidade da ETE insular e levaram para lá o do Itacorubi”.
Para o economista André Ruas, doutor em Geografia, a garantia da infraestrutura básica tem sido historicamente ignorada: “Não há preocupação com a infraestrutura, a não ser que essa infraestrutura venha a impedir a lucratividade da própria elite. Em Florianópolis há uma ação planejada de captura do Estado por parte do setor privado da construção civil que tem como alvo a especulação imobiliária”, considera.
Vera critica ainda a falta de transparência da Prefeitura de Florianópolis e da Casan sobre os planejamentos para ampliação da coleta e tratamento de esgoto: “Não dizem exatamente quem vai receber, quais são as prioridades, qual exatamente é o tipo de sistema, aonde que vão ser lançados os efluentes finais. Não dizem quais são as áreas prioritárias de recebimento de saneamento básico, porque existem as zonas especiais de interesse social, que são assentamentos muito grandes, irregulares, mas de população de baixa renda, que precisam realmente que esses equipamentos tenham uma certa celeridade. No entanto, isso não é colocado na pauta. Eles podem querer fazer uma distribuição de rede em lugares onde, na verdade, estão programando uma expansão imobiliária. E isso vai nos trazer muito mais transtorno”.
Movimentos sociais defendem soluções baseadas na natureza
Diante da percepção da necessidade de ampliar o tratamento de esgoto na Capital, pesquisadores e movimentos sociais passaram a construir propostas alternativas, baseadas em soluções sustentáveis. O Coletivo Ecolhar, criado em 2023, ressuscita a visão do Movimento Saneamento Alternativo (Mosal) e defende um modelo de saneamento descentralizado. Para Gert Schinke, um dos representantes do Ecolhar, a insistência da Casan em grandes sistemas, como a ETE Rio Tavares, que pretende bombear o esgoto de todo o Sul da Ilha para um único ponto, desconsidera a dinâmica das bacias hidrográficas e a lógica do ciclo natural da água. Ele defende que o Sul da Ilha deveria ter entre 9 e 12 pequenas estações de tratamento.
“Ao invés de concentrar num único ponto, é mais ecológico diminuir o volume concentrado para ter a capacidade de dispersar e voltar para o meio ambiente sem causar tanto impacto. É uma questão de escala. Se forem bombeados para aquele ponto milhões de metros cúbicos o problema para dispersão do efluente será na mesma proporção”, explica Gert.
Ele também considera que há interesse de garantia de lucros do setor de construção civil por trás de grandes estações de tratamento: “Em uma pequena estação, média ou grande, todos os equipamentos que envolvem a construção civil estão presentes, desde a borracha dos vedantes, dos isoladores, tudo em larga escala. E tudo interessa à construção civil”.
Gert reitera que as soluções devem ser baseadas na natureza diante das mudanças climáticas. Vera aponta as wetlands (áreas alagadas) como uma alternativa viável e ecologicamente sustentável para ampliar o tratamento de esgoto em Florianópolis. A tecnologia reproduz o funcionamento das áreas úmidas naturais e, ao invés de processos químicos, são utilizadas plantas aquáticas, brita, areia e microrganismos para remover poluentes. As raízes das plantas servem de suporte para bactérias que decompõem a matéria orgânica presente no esgoto, permitindo que o efluente seja tratado de forma natural antes de retornar ao meio ambiente.
“Nós moramos aqui na Caieira da Barra do Sul, estamos a quase 40 quilômetros do centro e nossa proposição é que se faça uma wetland. Tem vários locais, poderíamos ter inúmeras wetlands, que são bem baratas e dão conta de um grande número de pessoas”, propõe.

O professor de Engenharia Sanitária Pablo Sezerino defende que Florianópolis também precisa incorporar soluções de reúso. Segundo ele, é um contrassenso utilizar água potável para atividades que não exigem esse padrão de qualidade, como a descarga de vasos sanitários. Como alternativa, o pesquisador propõe a separação das redes hidráulicas nos edifícios. Nesse modelo, as chamadas águas cinzas, provenientes de chuveiros, pias e lavanderias, que não têm contato com material fecal, seriam coletadas por uma tubulação específica, tratadas e reutilizadas para abastecer as descargas dos vasos sanitários.
Opções de tratamento de esgoto alternativas e baseados em soluções ecológicas também são defendidas pelo movimento SOS Lagoa da Conceição, criado em outubro de 2025, a partir da indignação comunitária diante da floração de algas que surgiram na Lagoa da Conceição. Segundo Nando Pereira, o caso reacendeu a preocupação dos moradores que sofreram com o desastre na lagoa de evapoinfiltração da Casan em 2021, quando cerca de 180 milhões de litros de efluentes foram despejados na Lagoa da Conceição. “Chamamos uma assembleia por causa da floração das algas. As pessoas estavam muito revoltadas, descontentes com o que o poder público estava oferecendo”, relembra Nando.



O movimento, que reúne moradores e cientistas voluntários, ficou sabendo há dois meses de uma ação civil pública no Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) que reivindica a desativação do sistema de saneamento instalado nas dunas da Lagoa e obriga a Casan a oferecer uma proposta alternativa para o tratamento de esgoto no local. “Ficamos super preocupados com as soluções oferecidas pela Casan e pensamos que esse é o momento de nos mobilizarmos”, explica Nando. Na mesma semana, o movimento também descobriu que o Tribunal de Contas do Estado (TCE-SC) estava pedindo a desativação da lagoa de evapoinfiltração.
“A partir disso surgiu a ideia de procurarmos especialistas na área de saneamento e em várias áreas do conhecimento para tentar achar uma outra solução. Só que é um super desafio porque a gente não sabe nem se vamos ser escutados. Pensamos em escrever um documento técnico. Daí já não é mais só o movimento popular e gritando com cartaz na rua. É uma demanda popular, mas com respaldo científico.” explica Nando.
O grupo não concorda com as novas soluções apresentadas pela Casan – aspersão de efluentes nas dunas, emissário submarino na Baía Sul e emissário submarino no Campeche. Conforme explica o doutor em Engenharia Ambiental Victor Eduardo Cury Silva, que esteve na mesa de consensualismo do TCE para discutir uma solução para o tratamento de esgoto na Lagoa da Conceição, é necessário pensar em estratégias de reúso diante da crise hídrica e climática: “o que está sendo proposto pela Casan são modelos muito arcaicos de diluição que a água doce passa pela cidade e depois vai para o corpo receptor que dilui o esgoto todo. Quando na verdade o que é mais inteligente é a gente tratar a água a nível de reúso e reabastecer nossos lençóis freáticos e nossos rios, para que eles não sequem”, explica.
Para ele é preciso elevar o nível de qualidade do efluente tratado até remover os contaminantes a fim de promover o reabastecimento das bacias hidrográficas e dos aquíferos. “Precisamos elevar o paradigma de reúso para não apenas lavar calçada, irrigar jardins, lavar carro, mas também para reabastecer as bacias hidrográficas que estão fornecendo água para Ilha através do bombeamento dessa água de volta para os mananciais em locais que os estudos apontem como adequados para receber o efluente, sem falar também na possibilidade de recarga de aquíferos”, considera.
Apesar de a reunião na mesa de consensualismo do TCE não ter chegado a uma conclusão, Victor explica que parece haver uma tendência a maior abertura de adesão da Casan às propostas defendidas pelo movimento social.
Em 11 de agosto de 2026 o grupo enviou ao TCE e ao MPSC um documento que detalha o modelo de saneamento defendido pelo SOS Lagoa da Conceição. “A ideia é sensibilizar os integrantes da mesa de Consensualismo do TCE. Mostrar as fragilidades das opções que a Casan oferece como alternativas para a destinação final do esgoto tratado da Lagoa e sinalizar que existem outras opções, mais ecológicas, que devem ser consideradas, além da necessidade de ampliar nossa participação no processo decisório. Sabemos que não há muito interesse por parte da Casan e do poder público, mas vamos continuar insistindo”, explica Nando.
Tanto o movimento Ecolhar quanto o SOS Lagoa da Conceição reivindicam a pausa na construção de grandes empreendimentos sem que o problema do esgoto em Florianópolis seja resolvido. Para esses coletivos, a solução definitiva não virá de ações paliativas, mas de uma decisão de Estado que respeite a capacidade de suporte da Ilha e a integridade dos territórios tradicionais – hoje ameaçados pelo avanço do setor imobiliário.
