Uma pipa a menos no céu do Maciço: adolescente negro é morto pela PM com seis disparos de fuzil na comunidade da Serrinha

Walysson Emanuel completou 16 anos três dias antes de sua morte; jovem havia ajudado a mãe a construir o próprio negócio no ano passado, na comunidade Marielle Franco

Reportagem de Rodrigo Barbosa

Cada linha de pipa que sobrevoa as quebradas de uma cidade carrega a história de um cria diferente. Na comunidade Marielle Franco, que faz parte do maior aglomerado de favelas de Florianópolis, uma das pipas mais famosas da região riscou os céus pela última vez em 31 de março de 2026. Naquela noite, através de disparos de fuzil, a polícia decretou o fim da linha do adolescente Walysson Emanuel, de 16 anos.

A história que a linha de pipa daquele menino carregava começou bem longe dali. Walysson nasceu na periferia de Coroatá, cidade no interior do Maranhão, onde passou os primeiros anos de sua vida. Embora sempre muito próximo da mãe, também moradora da cidade, viveu com o pai e a avó paterna dos 3 a 12 anos de idade. Daquele lado da família, Walysson era filho único. 

Seu pai é técnico de som automotivo e passou boa parte da infância do garoto viajando a trabalho durante a semana. Mas, quando o trampo era perto de Coroatá, o filho era quase parte do equipamento de viagem. Ainda muito jovem, Walysson aprendeu quase tudo o que se pode saber sobre a parte elétrica de um veículo.

Quando chegava a sexta-feira, o pai esperava o filho sair da escola para dar início aos planos do fim de semana. No sábado e no domingo, tomavam banho de rio, pescavam e davam rolê de moto. Uma infância simples e feliz.

A gente viveu pouco, mas a gente viveu as melhores coisas que a vida podia nos oferecer na simplicidade que a gente tinha. Ele fazia tudo comigo, eu levava ele pra todo lado. Fui eu que dei a primeira bicicleta, o primeiro celular, comprei a primeira moto para ele andar, pequenininho ainda”.

O celular dado pelo pai tornou-se um dos melhores amigos de Walysson. A avó materna era contra a ideia – mas, quando chegava a noite, seu pai o levava para seu quarto e o colocava deitado em seu peito. Dormia antes do filho que, já no final da infância, entrava noite adentro na frente da tela.

Pelo lado materno da família, Walysson era o homenzinho da casa. Após seu nascimento, sua mãe foi mãe de outras quatro crianças. Quando o mais velho tinha 10 anos de idade, partiu junto do marido e dos outros quatro filhos para Florianópolis, a mais de 3500 quilômetros de Coroatá. Prometeu voltar para buscar Walysson, que ficou com a família paterna, assim que conseguisse se firmar na capital catarinense. 

A família materna de Walysson chegou em Floripa para morar na casa da sogra, que já vivia na cidade há cerca de seis anos. Foram três meses de favor no bairro de Jurerê, no Norte da Ilha. Em seguida, mudaram-se para Canasvieiras, na mesma região, onde ficaram os seis meses seguintes. A próxima parada também durou seis meses e foi no Morro do 25, na região central da cidade. Para uma família nordestina, negra e periférica, viver em Floripa  significa uma peregrinação em busca de um aluguel viável. 

Mas a família, enfim, encontrou um lugar para chamar de seu. Há quatro anos atrás, chegaram à ocupação Marielle Franco – onde, pela primeira vez, conseguiram estabelecer residência. A comunidade havia começado a se formar cerca de três anos antes e fica localizada no Maciço do Morro da Cruz, maior aglomerado de favelas da cidade. Desde 2023, o território ficou mais conhecido pelo asfalto por ser uma das poucas áreas de Florianópolis contempladas por um projeto habitacional municipal desde o começo dos anos 2000. 

Comunidade Marielle Franco, em Florianópolis. Foto: Rodrigo Barbosa

Na Marielle, a mãe de Walysson montou um pequeno negócio na área de beleza. Dentro da própria casa, recebia moradoras do morro para fazer suas unhas e sobrancelhas. Seu marido também conseguiu trabalho e as quatro crianças estavam todas na creche ou na escola. Era a hora de buscar o menino mais velho. 

A mãe de Walysson viajou para o Maranhão levando a tropa inteira. Contando os trajetos de ida e volta a Florianópolis, passou mais de cinco dias dentro de um ônibus na companhia de todos os seus filhos. O pai de Walysson, para tentar amenizar a dor da saudade, foi passar um tempo em Goiânia assim que o filho foi embora do Nordeste. Para o próprio Walysson, as dezenas de horas na estrada cruzando o Brasil foram inesquecíveis. 

Ah, pra ele era uma aventura. Ele ficou todo feliz”.

Aos 12 anos de idade, ele ainda não sabia que nunca mais colocaria os pés em sua terra natal.

Cria criado

A adaptação de Walysson a Florianópolis foi tranquila. Sua família já tinha uma rotina na cidade e ele logo fez muitos amigos na escola da Serrinha, comunidade vizinha à Marielle Franco, onde seus irmãos também estudavam. Um namoro iniciado pouco depois de sua chegada foi mais um fator que facilitou a adaptação. O relacionamento estava prestes a completar quatro anos quando o jovem foi morto.

Além disso, ele se aproximou de vários crias que frequentavam a igreja de sua família. Na falta de políticas públicas para as crianças do morro no contraturno escolar e nos fins de semana, Walysson participou de uma série de projetos voltados à juventude do território promovidos pela Assembleia de Deus. 

Tem vários vídeos dele participando dos projetos. Tem várias fotos dele pintando vidro, fazendo as coisinhas, decorando os vidros na igreja”.

Mas o mais comum era encontrá-lo com uma linha de pipa na mão. Assim que chegou à comunidade, Walysson se tornou mais um dos vários meninos da Marielle que passava boa parte do dia em uma região do morro conhecida como Deserto – área plana da comunidade que, na infância de Walysson, abrigava um campo de futebol e era onde os garotos dali costumavam soltar pipa. No meio da criançada do morro, o menino maranhense se tornou cria criado da comunidade Marielle Franco.

As obras do futuro conjunto habitacional da Marielle iniciaram-se justamente no Deserto, diminuindo o espaço que as crianças e adolescentes do morro têm para brincar. Desde então, Walysson adotou o telhado da própria casa como ponto favorito para soltar pipa ao lado de seu único irmão menino, quatro anos mais novo que ele.

Eles ficavam em cima do meu telhado empinando pipa. Eu tinha medo de eles irem pra cima, aí pedia pra eles ficarem ali. Pelo menos eles estavam perto de casa”, conta a mãe dos garotos.

Ainda no começo da infância, Walysson ganhou um apelido carinhoso da coroa: Neném. Embora tenha tido outros apelidos na adolescência, este o acompanhou até o final de sua curta trajetória de vida.

Porque ele é todo neném. Se eu fosse brigar com ele, ele já chorava logo. Ele era todo grandão, todo cara de brabo. Mas na hora de falar com ele, ele já começava a chorar. Era o Neném”.

Quase sempre agitado, era Neném quem costumava fazer o restante da família rir. Quando Walysson saía para passear com os amigos, a casa ficava mais silenciosa. Ao voltar do rolê, berrava para a comunidade inteira o carinho que tinha pela mãe.

Quando ele chegava, ele entrava no beco igual um doido já me chamando, avisando que tinha chegado. Já entrava batendo a porta da geladeira. Chamava a atenção de todo mundo, bem alegre, falando alto. Pedia pra todo mundo largar o que tava fazendo pra dar atenção só pra ele ali”.

Segundo a mãe, a praia da Barra da Lagoa era o passeio favorito do menino fora da favela. Juntava os amigos e iam da comunidade até o Leste da Ilha de ônibus, em um trajeto que pode durar até uma hora – bem menos tempo que as cinco horas de carro de distância de sua cidade natal até o litoral maranhense. Na Praia da Barra, Neném foi responsável por ensinar boa parte de sua turma a nadar. 

Mas o menino sentia saudades da água doce e gelada dos rios do Vale do Itapecuru, no Maranhão. O Poção do Córrego Grande, cachoeira localizada nas proximidades do Maciço do Morro da Cruz, tornou-se outro refúgio do jovem. Por lá, saltava mortal e usava suas habilidades de cria do interior para subir nas árvores e pegar frutas para os amigos. 

De todo mundo, ele era o único que tinha coragem de trepar no pé de manga, ele tirava manga pra todo mundo. E jaca também. Ninguém tinha coragem de trepar no pé de jaca, mas ele trepava e tirava pra todo mundo”, lembra a mãe.

O homenzinho da casa

Embora distante fisicamente do pai desde que se mudou para Florianópolis, Walysson manteve-se muito próximo dele. As conversas e ligações de vídeo entre os dois eram quase diárias. Do Maranhão, o pai se orgulhava de ver o filho crescendo com a responsa de ajudar a família materna no dia a dia. 

“Se alguém me perguntar qual foi a minha realização, o meu feito, foi ele. Eu tenho muito orgulho, cara. A verdade é essa. Eu tenho muito orgulho de ter tido ele em vida, como filho. Eu ainda carrego aqui dentro de mim, eu ainda sou muito ligado nele”.

Os irmãos de Neném tiveram a presença de pai e mãe durante toda a infância, mas Walysson exercia papel central em suas criações. Ele era o responsável por levar a mais nova, aos 4 anos de idade, para a creche todos os dias. Em caso de ausência da mãe, era ele quem acordava os irmãos e preparava-os para o dia. Também cozinhava e lavava a louça. 

As habilidades adquiridas pelo adolescente ao acompanhar o pai no trabalho durante a infância foram colocadas em prática em Florianópolis. Ajudou o padrasto em pequenos serviços de construção pela comunidade e fazia reparos elétricos na própria casa. A obra mais marcante da trajetória de Walysson Emanuel foi a construção do salão de beleza da mãe. 

A mãe de Neném faz as unhas e sobrancelhas das vizinhas desde que a família mudou-se para a Marielle – sendo o empreendimento fundamental para o sustento da casa. Mas foi a partir do último ano, com ajuda do filho mais velho, que o negócio deslanchou de vez. 

Tem um vídeo dele me ajudando a pintar o salão. Pintou o salão todinho pra mim. Ele me dava a maior força. Só do ano passado pra cá que eu consegui pintar, forrar, comprar minhas coisinhas. E ele sempre ali”.

Além do forro e da pintura da parede – rosa choque com corações pretos e brancos – Walysson foi também o responsável por ajeitar a parte elétrica do espaço. De suas mãos, nasceram todas as gambiarras que fizeram os equipamentos da mãe mais úteis no ambiente de trabalho. 

As minhas lâminas vieram com cabo pequeno e ele emendava, é tudo emendado pra fazer o cabo ficar mais longo e eu levar pra onde eu quisesse. Todas têm o cabo longo. O espelho também ele ajudou a colocar. Tá lá o ventiladorzinho dele, não sei como que ele arrumou aquele ventiladorzinho, mas até hoje tá lá abanando. Tem só duas pás, mas ele fez uma gambiarra no cabo e até hoje tá lá”.

Walysson dividia um dos quatro quartos da casa com seu irmão. O cômodo era marcado pela presença das várias pipas da dupla. Dormia na beliche de cima, quase sentado – uma condição de saúde herdada do pai e nunca diagnosticada fazia com que ele tivesse tonturas ao se deitar. 

Para o futuro, o grande sonho do garoto era reformar o restante da casa para deixá-la exatamente como a mãe queria. Salão de beleza, um quarto para cada filho, dois pavimentos e o mais importante de tudo: uma laje para que ele, o irmão e seus amigos pudessem soltar pipa. 

Era um menino sonhador, um menino que não dava problema pra gente. Nunca teve problema de briga de rua. A prioridade era o sonho dele, a gente pretendia realizar o sonho dele, de ter uma moto, uma casa melhor”, conta o pai do adolescente.

Na estica

Não há uma pessoa que tenha convivido com Walysson Emanuel e não recorde de seu cuidado com a aparência. Na adolescência, era regra que o menor estivesse sempre com cabelo e sobrancelha na régua. A franjinha, uma de suas marcas registradas, virou referência para os meninos mais novos da Marielle – com quem Walysson sempre teve relação de amizade.

Quando ele cortava o cabelo e puxava assim, cortava certinho, os meninos falavam que era a franjinha. E eles querem fazer franjinha também, ficam perguntando se vai ficar bom”.

Uma das barbearias do morro. Foto: Rodrigo Barbosa

Walysson andava bem trajado, usando brincos nas duas orelhas e quase sempre de cordão. Seu favorito era um colar de moedas antigas que sua mãe lhe presenteou. Para o adolescente, era proibido sair desarrumado de casa.

Sua mãe lembra que, na maioria das vezes que ele saía com os amigos à noite, o destino era algum lugar na própria comunidade. Ela ainda relata que Walysson nunca foi de se envolver em brigas e que era incomum vê-lo chegar em casa tarde da madrugada. No retorno, sempre avisava a mãe que estava de volta na segurança de casa e dava um beijo na irmã mais nova antes de se deitar. 

Mas a própria casa da família era também um ponto de encontro para os adolescentes do morro. Ficavam por ali conversando por horas, com Walysson sendo um dos mais falantes. Quando o relógio se aproximava das 01h30, o padrasto do adolescente levava cada um dos jovens até a porta de suas casas – incluindo a namorada de Walysson que, àquela altura, já havia se tornado parte da família.

Com a família, o destino favorito do adolescente era a Pizzaria Diroma, localizada no bairro da Trindade. Era lá que eles iriam comemorar os 16 anos de Walysson, completados no dia 28 de março de 2026. Uma cirurgia que a mãe iria fazer no dia 30 acabou adiando os planos. Iriam no restaurante depois que ela se recuperasse.

A gente ia marcar uma pizza, ele gostava muito. O rodízio de pizza era a festa de aniversário que ele queria”.

No dia em que a mãe realizou a cirurgia, Walysson acordou cedo e assumiu a responsa da casa. Às 07h, já organizava o dia do restante dos irmãos. No dia seguinte, quando a mãe recebeu alta, mostrou o bom humor de sempre ao recepcioná-la em casa – comparando as marcas que ela tinha na barriga a uma cicatriz que ele mesmo adquiriu quando fez uma cirurgia de apendicite.

 “Mãe, os furinhos que a senhora tem na barriga é igualzinho os meus”.

Dali em diante, o dia 31 de março seguia em um ritmo de uma terça-feira como outra qualquer. À tarde, Walysson pegou dinheiro com a mãe e foi até o barbeiro da comunidade dar um tapa no visual. Fez as sobrancelhas e cortou o cabelo – que já estava colorido de vermelho há alguns dias, quando Walysson inspirou-se em seu ídolo Oruam para arrumar o visual.

Em seguida, voltou para casa, tomou um banho e foi para a casa da namorada. Ali, soltou pipa pela última vez. Saindo de lá, já no fim da tarde, foi chamado por amigos para jogar bola no campinho do morro. Disse a eles que não iria, pois tinha uma coisa para resolver. O adolescente então foi em direção à comunidade vizinha à sua, a Serrinha. 

A Serrinha vista da comunidade Marielle Franco. Foto: Warley Alvarenga

Já fazia alguns meses que Walysson Emanuel não ia mais à escola. Começou a faltar às aulas no final do ano de 2025. Foi quando se aproximou da boca de fumo. Por conta da idade e pelo fato de viver em um ambiente familiar afastado daquele contexto, foi impedido de vender drogas em sua comunidade. Mas, em seus últimos meses de vida, não distanciou-se por completo de outros meninos do corre.

Ao contrário do que foi divulgado após sua morte, o adolescente não tinha uma ficha criminal extensa. Não há registros, por exemplo, de Walysson portando armas ou grande quantidade de drogas.

O primeiro Boletim de Ocorrência registrado contra o jovem data de setembro de 2025, quando Walysson ia de ônibus a um jogo do Avaí Futebol Clube no Estádio da Ressacada, na região sul da capital catarinense. Desde que chegou a Floripa, o adolescente tornou-se torcedor fanático do Leão da Ilha. Ia a quase todos os jogos, o que motivou a mãe a fazer um plano de sócio-torcedor júnior para o filho. Ela também presenteava Walysson com os trajes da torcida organizada Mancha Azul, da qual ele era integrante. 

Na noite em que foi abordado indo para o estádio, uma confusão havia iniciado-se no ônibus em que Walysson estava. A polícia interveio e abordou todos os jovens que estavam uniformizados dentro do veículo. Segundo a família, no Boletim de Ocorrência do caso consta que Walysson, no fim das contas, nada tinha a ver com o problema. Mesmo assim, o trauma vivido durante a abordagem violenta a caminho da Ressacada marcou o adolescente. Desde aquele episódio, parou de ir aos jogos do Avaí.

A única apreensão de fato relacionada a Walysson data de alguns meses depois. Em fevereiro de 2026, cerca de 40 dias antes de sua morte, o adolescente foi abordado próximo à praia de Canasvieiras, no Norte da Ilha, por uma guarnição da polícia. De acordo com o Boletim de Ocorrência, os policiais encontraram com o jovem 36g de maconha, 11g de cocaína e R$84.

Ele foi conduzido à delegacia da região, para onde sua mãe foi chamada. Ao chegar ao local, a mãe conseguiu a liberação do filho na mesma noite. Antes disso, ainda dentro da delegacia, presenciou uma agressão de um policial contra ele. 

 “Ele falou que a droga não era dele e aí deram um tapa nele na minha frente”.

A família de Walysson ainda contesta o fato de que o celular apreendido com o jovem naquela noite nunca foi devolvido. Segundo a mãe, o adolescente não relatou nenhuma ameaça de agentes de segurança desde então. 

Em Coroatá, o pai de Walysson recentemente havia gasto cerca de R$20 mil em uma moto para ajudar a convencê-lo a passar um tempo ao seu lado no Maranhão. O coroa viria buscá-lo em breve para que pudesse voltar à terra natal, para onde nunca tinha voltado desde que veio morar em Santa Catarina. Uma mudança de ares.

O reencontro entre pai e filho nunca aconteceu. No dia 31 de março, quando Walysson deixou a casa da namorada a caminho da Serrinha, a polícia estava à sua espera.

Emboscada

Uma moto roubada no bairro da Trindade repousava em uma área de mata na comunidade da Serrinha desde, pelo menos, o começo do dia 31 de março. Mais cedo, jovens haviam ido até o local para tentar realizar uma ligação direta e dar partida na moto. 

Não conseguiram. Chamaram Walysson, que era conhecido pelas habilidades com veículos desde pequeno, para ir ao local mais tarde. O adolescente relutou, mas acabou concordando. Foi ao local de bermuda e chinelo, com uma camisa azul pendurada no ombro.

Segundo relatos da comunidade, o período de algumas horas entre a ida dos primeiros jovens até a moto e o momento em que Walysson chegou ao local foi marcado pela presença da polícia na área. Trata-se de uma região afastada da parte mais habitada da Serrinha – sendo marcada pelo chão de terra, poucas residências e por uma grande área de mata no entorno.

A cena do crime, na Servidão Maria Rosa Martins, na Serrinha

Quando Walysson Emanuel chegou à Servidão Maria Rosa Martins, policiais já estariam à espera de quem iria resgatar a moto com registro de roubo. Parte da guarnição encontrava-se em uma casa, parte estaria na área de mata. 

Eles estavam escondidos. Depois que os guris saíram de lá mais cedo, a polícia foi lá. Poderia ser qualquer um, mas eles sabiam que alguém ia voltar à noite pra colocar a bateria da moto. E aí foi ele que voltou…

A ação da guarnição foi quase automática.

Quando ele chegou perto da moto, já deram um disparo. Na hora que ele abaixou, pegou um disparo no peito. Entrou direto no peito. Ele caiu na hora”.

De acordo com fontes da comunidade, a guarnição teria avançado em direção ao adolescente negro, caído no chão próximo à moto, para efetuar o restante dos tiros. 

Foram disparados 22 tiros de fuzil contra Walysson, que foi atingido seis vezes. O laudo do corpo do adolescente confirma que ele foi atingido no peito, como foi denunciado pela comunidade. Quatro dos seis disparos atingiram a região do tórax, com perfurações no coração, nos pulmões e em vasos sanguíneos vitais – causando uma grande perda de sangue. Há entradas de disparos em ambos lados do corpo do adolescente. 

Os outros dois tiros foram disparados na região da perna do jovem, um em cada coxa. O tiro que atingiu a coxa esquerda chocou quem viu o enorme tamanho do ferimento – um tipo de ferimento que só é causado por balas de armas de grosso calibre. Muitos na comunidade, inclusive, achavam que Walysson havia recebido mais tiros naquela região do corpo.

Depois que atiraram no peito, fuzilaram a perna dele. Quase arrancaram, deixaram só o bagaço a perna esquerda dele”.

Como de praxe, a cena do crime foi logo cercada pela guarnição, que chamou reforços. Em poucos minutos, a viela de terra estava tomada por agentes de segurança. Eles impediam que moradores pudessem ter informações sobre o que havia acontecido naquela região da comunidade, que não tem grande histórico de episódios violentos. 

Há denúncias de que policiais teriam mandado moradores da vizinhança apagar as luzes de suas casas. Ainda segundo relatos da comunidade, a ambulância do SAMU só teria chegado ao local no fim da noite – horas após o crime, que aconteceu próximo das 20h.

Eu achei muito estranho o jeito que a mão dele tava. Ele já tava rígido. Eles são tão ruins, que só chamaram depois que ele…

A camisa que Neném usava sobre o pescoço na noite em que morreu. A peça de roupa não foi periciada pela polícia, sendo encontrada por um familiar da vítima próxima à cena do crime dias depois

As inconsistências do Estado

A polícia não tem uma única versão sobre o que aconteceu naquela noite. No Boletim de Ocorrência do caso, um policial afirma que sua guarnição patrulhava a área quando avistou a moto roubada próxima a uma residência. Eles teriam então abordado moradores daquela viela. 

Em “dado momento”, os policiais teriam visto a aproximação de dois “masculinos armados” em direção à moto e à própria guarnição. O PM que depôs para o Boletim afirma que a guarnição teria dado voz de parada aos dois – que, neste momento, teriam apontado armas na direção da polícia. Nesta versão, não houve disparo de arma de fogo por parte dos dois homens supostamente armados. Apenas os 22 tiros de fuzil da polícia. 

No inquérito do caso, a versão da PM muda. No documento, está relatado que um tiro foi disparado contra a casa da qual a guarnição estava próxima – e só então a guarnição teria revidado, efetuando os 22 disparos.

Os relatos das duas testemunhas do caso ouvidas para a confecção do Boletim de Ocorrência são idênticos e têm poucos detalhes sobre a ação da polícia: “[A testemunha] relatou que estava com os policiais militares quando foi informado pelos mesmos da aproximação dos masculinos quando repentinamente os policiais saíram da casa”.

Os relatos da polícia à mídia comercial da cidade também apresentam inconsistências. Na maior parte das reportagens, os veículos afirmam (via de regra citando a Polícia Militar como fonte) que dois jovens/homens foram avistados “em uma moto”, dando a entender que eles pilotavam o veículo – o que não corresponde à realidade, visto que a moto em questão sequer tinha sua parte elétrica em funcionamento e não estava em condições de circular. 

Sobre a dinâmica dos disparos, as reportagens da mídia comercial variaram entre dizer (também citando a polícia como fonte das informações) que os supostos homens armados teriam “atentado” ou “reagido à abordagem com uso de arma de fogo”. A palavra “confronto” foi utilizada em todas as matérias analisadas por nossa reportagem. 

Páginas como o jornal Razão e o Floripa Mil Grau que, conforme denúncias da jornalista Amanda Miranda, recebem verba pública do governo estadual, divulgaram o nome e fotos da vítima sem o consentimento da família – o que viola o Estatuto da Criança e do Adolescente. 

A presença de um segundo jovem ao lado de Walysson, informação amplamente divulgada pela polícia e por veículos de imprensa, é uma incerteza para a família. Moradores da região afirmaram que só viram Walysson no local, mas a polícia diz que um segundo suspeito teria fugido. 

Quando a mãe do adolescente foi à escola em que ele estudava pedir imagens de câmeras de segurança que pudessem mostrar o filho descendo a rua principal da Serrinha minutos antes de morrer, a diretora da instituição negou o acesso – e chamou a Polícia Militar para ir até o local.

A posse da arma que a polícia afirma que estava com Walysson no momento de sua morte é fortemente contestada por família e comunidade. A arma supostamente apreendida é uma pistola AREX Delta 9mm. O modelo apreendido, que é da segunda geração da linha, foi lançado no Brasil em 2022 e custa pelo menos R$5 mil no varejo.

Não precisava ter armado cena pra colocar arma. A arma que eles pegaram é arma de polícia, não é arma que os jovens têm acesso, era uma pistola novinha. A verdade é essa: eles armaram todo o cenário”.

O crime foi cometido por uma guarnição de Patrulhamento Tático do 4º Batalhão da Polícia Militar de Santa Catarina. Dos quatro policiais envolvidos, dois participaram também da execução de José Romualdo, no Morro do Horácio, em outro caso denunciado por nosso jornal. Lolinha, como José era mais conhecido, foi morto dentro de casa nas primeiras horas da manhã de 24 de janeiro de 2025, na presença de sua família. Assim como no caso de Walysson, o jovem negro de 20 anos também foi atingido por múltiplos disparos de fuzil no tórax.

O choque e o adeus

Na noite do crime, a mãe de Walysson recebeu uma ligação de uma moradora da Serrinha. Do outro lado da linha, a mulher falou que tinha ouvido tiros na região da Servidão Maria Rosa Martins e que o filho dela havia passado por ali pouco antes. Neste momento, sentiu uma dor no peito. 

O menino mais novo da família, de 12 anos, fez uma garrafa de água com açúcar para a mãe recém-operada e disse a ela que iria atrás de mais informações. No escuro da noite, saiu correndo de sua comunidade e, assim como o irmão horas mais cedo, foi para a Serrinha. Ao chegar próximo à cena do crime, foi logo interrompido por um morador da vizinhança – não tendo contato com as guarnições que cercaram a viela logo depois do crime.

O cara falou pra ele que o Tomate tinha morrido”. 

Tomate era um apelido mais recente dado pelos amigos a Walysson Emanuel. A família não sabe direito a origem do vulgo, mas acredita que era por conta das espinhas no rosto do adolescente ou pelo fato de que sua pele ficava vermelha quando tomava sol. Quando ouviu o nome na cena do crime, seu irmão mais novo voltou correndo desesperado para a Marielle. 

Chegando em casa, deu logo a notícia para o restante da família. Sua mãe, que ainda sentia muitas dores da cirurgia, quis sair correndo. Foi segurada por amigos e familiares, que a deram um calmante. 

Por conta do trauma e do efeito do remédio, ela sequer sabe se passou as horas seguintes acordada ou dormindo. Seu marido foi o responsável pela maior parte da burocracia funerária. Como ocorreu no homicídio de Gustavinho, na Favela do Siri, a família também não pode reconhecer o corpo do jovem. Em ambos casos, apenas uma foto dos cadáveres dos adolescentes do ombro para cima foi mostrada aos familiares. Gustavinho tinha 17 anos e foi morto em 28 de março de 2026, dia do aniversário de 16 anos de Walysson.

A família de Walysson ainda reclama do tempo oferecido pelo Estado para que o corpo do cria criado da Marielle Franco fosse velado. As três horas disponíveis no cemitério do Itacorubi não seriam suficientes para que todos pudessem se despedir do garoto. Seu corpo foi então levado para a Assembleia de Deus da comunidade. 

No dia do velório, a gente viu como ele era querido. Era muita gente, muita gente”, diz uma amiga da família.

O velório começou na tarde de 1º de abril e, como um velório das antigas, virou a noite. A igreja esteve sempre lotada e com a presença de muitas crianças. Mesmo a contragosto de alguns pais, a insistência dos menores em se despedir do amigo acabou fazendo com que os moradores os levassem ao local.

Ele era todo meninão, brincava com esses menino aí tudo”, conta a mãe de Neném.

As tradicionais camisas brancas que são feitas quando a polícia mata uma pessoa estavam por toda parte: foram confeccionadas pelo menos 80 unidades. A namorada de Walysson foi quem ficou à frente do corre das camisas. À noite, fogos de artifício iluminaram o céu do Maciço para homenagear o adolescente. 

A polícia esteve presente na Marielle durante a cerimônia fúnebre. Além de viaturas nas ruas do morro, drones também foram vistos por moradores sobrevoando a comunidade.

Casa silenciosa

Desde sua morte, a rotina na casa de Walysson não é mais a mesma. A começar pelas refeições. O cardápio do café da manhã começava com um hábito que Neném repetia quase todas as noites. Antes de se deitar, deixava um bilhete para a mãe na geladeira. 

Mãe, compra pão doce”. 

Assim que acordava, sua mãe ia direto na mercearia do morro. Comprava R$15 de pão doce com farofa e uma garrafa de refrigerante Pureza. Ao retornar para casa, acordava primeiro Walysson – que, animado, saía acordando o resto da família para comer. Desde que ele se foi, o antes organizado ritmo de café da manhã, almoço e jantar de sua família foi substituído por pequenos lanches esporádicos ao longo do dia. O apetite ainda não voltou.

A mãe do adolescente, cerca de um mês depois do crime, ainda não tinha tido forças para reabrir o salão de beleza que construiu ao lado de Walysson. Ela, que pouco sai de casa, ainda pensa que os barulhos que ouve pela casa e pelos becos da comunidade vêm da correria alegre do filho. 

É muito estranho quando chega à noite, na hora de dormir. Qualquer coisa que mexe na porta, eu penso que é ele. E volto de novo sabendo que não é ele. Quando eu vejo alguém entrando no beco, eu já penso que é ele. Eu penso, mas aí eu sei que não é. Ele já vinha gritando, sempre”.

Uma das escadarias da comunidade Marielle Franco. Foto: Warley Alvarenga

Os quartos também sofreram mudanças. O cômodo que antes abrigava Walysson e seu irmão foi desmanchado pouco após a morte do mais velho para amenizar a dor do luto.

A gente desmanchou porque quando eu acordava de manhã eu já ia pra lá já”, conta a mãe dos meninos. 

Hoje, o menino mais novo tem dormido na sala e cada um dos três quartos da casa é ocupado por uma das filhas meninas. Têm sido o refúgio das irmãs – que, de acordo com a mãe, estão muito abaladas desde que perderam o irmão mais velho. O mais comum tem sido que cada uma fique em seu próprio canto, mexendo no celular. 

No telefone da mais velha, nasceu um desenho que mostra uma pessoa chorando e uma segunda pessoa com asas de anjo. Ela diz que tem sentido falta dos momentos que o irmão parava para ouvi-la. Quase sempre agitado, o papel de confidente da irmã era uma das poucas coisas que faziam o adolescente se acalmar. No sonho de outra irmã, Walysson se fez presente para dar adeus. 

Mãe, ele falou que não podia demorar muito comigo ali porque tinha que ir. Mas eu vi o mano, eu abracei ele”.

A menina mais nova, de 5 anos, ainda não entende direito o que aconteceu. Fala que o irmão virou uma estrelinha – mas, logo em seguida, pede aos pais para ligar para o mano. Era o que ela fazia quando ele demorava para voltar para casa, como está acontecendo agora. 

O único irmão menino de Neném tinha uma relação de espelho com ele. Tinha no irmão mais velho um herói. Segundo a mãe, Walysson evitava levá-lo consigo quando saía porque queria protegê-lo. Mas as lembranças das pipas e do último rolê no Poção, quando Walysson convidou o irmão mais novo para ir ao local com os amigos em um dos seus últimos dias de vida, evidenciam o quão próximos os dois eram e o quão difícil tem sido para o menino mais novo conviver com a saudade. Sua coragem ao ir até a cena do crime logo após a morte, no meio da noite, impressionou a comunidade.

Todos os filhos da família, assim como a maioria dos colegas de Walysson na escola, têm recebido acompanhamento psicológico desde a morte precoce do jovem. Vários adolescentes do morro que usavam o cabelo vermelho, como Walysson, pintaram de preto após o acontecimento, por medo de serem perseguidos pela polícia. As crianças têm sido parte importante da rede de apoio da mãe enlutada. 

Eu acho que as crianças são até mais respeitadoras, porque vai um monte de criança lá em casa. Elas conheciam ele, sempre vai um monte de menino lá. Ficam lá tudo triste, um olhando pro outro. Eu fico sentada e eles olhando um pra cara do outro, sem saber o que me dizer. Porque é tudo criança. Mas mesmo sem saber o que fazer, eles querem ir lá. Eles vão e perguntam: Tia, precisa de alguma coisa? Tá doendo? Já sarou sua cirurgia?”

Um elo eterno

A dor pela morte de seu filho chegou ao pai de Walysson antes mesmo da notícia da morte em si. Em 31 de março, o homem já acordou se sentindo mal. Tinha febre, suor e sentia calafrios pelo corpo. Às 13h20, ligou para o filho. Não teve resposta e enviou um áudio perguntando como estavam as coisas. 

Walysson respondeu a mensagem por volta das 14h, mas seu pai estava distante do telefone e não viu de imediato. Enquanto o adolescente cortava o cabelo e quando estava na casa da namorada, foi ele mesmo quem não deu muita bola para o celular. 

Já no final da tarde, às 18h20, o pai de Walysson ligou para ele mais uma vez. O filho não atendeu. Cerca de duas horas depois, às 20h, as dores que o pai tinha pelo corpo desde quando acordou atingiram o seu ápice. Seu corpo tremia e ele sentiu uma forte dor no peito. Caiu no chão de sua casa. De acordo com o ele, aquele foi o momento em que, a milhares de quilômetros de distância, uma bala de fuzil atingiu o peito do filho. 

A dor que ele sentiu lá, foi a que eu senti aqui, foi instantâneo. Naquele momento, meu mundo desabou. Aí eu já entrei aqui pra dentro e fui pra mesa desabar. Aí foi só desespero. O pior desespero que você pode imaginar na sua vida”.

Ele ligou para Walysson uma última vez na esperança de que nada tivesse acontecido com ele, mas nunca mais teve resposta. Desde então, recebe a visita do filho que partiu todas as noites, quando dorme. 

Eu sonho com ele toda noite, cara. A última vez foi ontem. Eu sonhei carregando ele aqui no meu peito. Quando ele tava aqui, ele queria mexer no celular e minha mãe queria que ele dormisse cedo pra levantar cedo. Aí eu pegava ele lá e trazia pro meu quarto. Ele pequenininho, com uns 12 anos. Essas são as imagens que eu tenho dele, as memórias”

Para além dos sonhos e da saudade, os impactos psicológicos da perda precoce do filho têm sido presentes na rotina dele e da avó materna de Walysson como um todo. Como quando ele foi a uma loja comprar roupas mas, ao chegar, travou no meio do estabelecimento e não soube o que fazer. Segundo ele, era ao filho que ele recorria quando estava inseguro.

Não tem ninguém que possa me ensinar mais que o meu filho, ele era o meu espelho. Quando eu tava triste ou com medo, ele sempre dizia: Não, pai, vai dar tudo certo, eu te amo. E aí, de repente, você se pegar sem isso, sem esse braço forte que tá sempre apoiando, empurrando e dando força, é muito ruim”.

As duas metades de sua família, uma vivendo em cada ponta do Brasil, são ambas muito ligadas à espiritualidade e estamparam isso no segundo nome do jovem – Emanuel quer dizer “Deus conosco”. No Maranhão e em Santa Catarina, tentam superar a dor e se manter firmes na luta por justiça por Walysson. 

Onde você imaginar, sempre vai ter ele. Sempre, sempre, sempre. Por onde quer que eu for, por onde quer que eu esteja. Pra você ter uma ideia, acordado eu tô sentindo ele, e dormindo eu tô sonhando com ele. Ele se foi a parte da matéria, mas a alma dele tá aqui comigo. Em breve, a gente vai se encontrar em outra vida e a gente vai continuar a felicidade que a gente começou aqui”.

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