Reduzir a abstenção nestes territórios pode definir o resultados do segundo turno das eleições
Reportagem de Rodrigo Barbosa
A adesão próxima de 70% aos candidatos da família Bolsonaro nas últimas três eleições presidenciais reforçou a imagem de Santa Catarina como um dos estados mais conservadores do país – estivemos sempre entre os quatro estados com maior apoio à extrema-direita no período. Mas nem só da extrema-direita é feita Santa Catarina – nosso território é marcado também pela resistência de quem defende a democracia.
Em nossa capital, Florianópolis, a adesão à extrema-direita é consideravelmente menor que a média estadual. Ainda que os Bolsonaro tenham levado vantagem nas três últimas eleições, Floripa nunca esteve no top 10 das capitais com maior porcentagem de voto a essas candidaturas.
Existem diversos focos de resistência em Florianópolis. O Sul da Ilha, onde se tem um forte movimento ambientalista, e a região das Universidades Estadual e Federal, são reconhecidamente redutos da esquerda na capital catarinense.
Mas, nos becos onde vidas são perdidas para o Estado, vive a população que primeiro fica sem comida no prato quando a extrema-direita ganha força e chega ao Poder. Nas quebradas de Floripa, da Ilha ao Continente, os desejos de quem vota vão na contramão da maioria da cidade e do estado.
O mesmo se repete em outras regiões de Santa Catarina. Num interior fortemente branco e conservador, a resistência da democracia nas eleições 2026 se deu em territórios indígenas e quilombolas.
O Desterro analisou a votação de mais de 150 urnas distribuídas por cinco regiões do estado de Santa Catarina e constatou a força da resistência favelada, indígena e quilombola contra o extremismo em nosso estado. Nas favelas da capital, Lula venceu mais de 90% das urnas. Nos territórios tradicionais do interior, a vitória do atual presidente foi ainda mais expressiva.
Há, porém, um ponto que liga o alerta: as abstenções em favelas e territórios indígenas foram quase sempre maiores se comparadas a áreas com metro quadrado mais caro que ficam no entorno desses territórios. Nas seções analisadas pelo levantamento, os patrões compareceram mais às urnas que seus empregados.
A vitória da democracia brasileira só será possível por meio do combate à abstenção – em especial, nestes territórios. É preciso aumentar a presença dos eleitores nas comunidades onde há melhor entendimento sobre os impactos que um governo de extrema-direita traz à parcela da população que mais precisa de suporte do Estado.
De um lado, o samba. Do outro, iates
Nem toda pessoa periférica vota em sua própria comunidade. A divisão dos locais de votação de Florianópolis faz com que moradores do morro e do asfalto compartilhem várias seções eleitorais. É o que acontece, por exemplo, com a maior parte dos moradores das quebradas da região da Agronômica, do Norte da Ilha, da Costeira e de algumas comunidades das regiões central e continental.
Esta dinâmica impossibilita saber com maior precisão como cada uma dessas comunidades votou. Mas, há exceções, sobretudo nos dois maiores aglomerados de favelas da capital catarinense. O Desterro identificou 31 seções eleitorais localizadas em territórios periféricos – e que, por conta disso, recebem pouca ou nenhuma influência dos votos do asfalto. Todas estas seções estão localizadas no Maciço do Morro da Cruz (aglomerado de favelas da região central, na Ilha) ou no Complexo do Monte Cristo (aglomerado localizado na parte continental de Florianópolis).
A distribuição de votos nas seções periféricas mostra um cenário diferente ao do restante da cidade de Florianópolis, que votou majoritariamente em Flávio Bolsonaro para presidente no primeiro turno. Das 31 seções mapeadas, Lula teve vantagem em 29 – o que significa que o atual presidente levou vantagem em 93.5% das urnas analisadas.
O território que se coloca estatisticamente como maior resistência à extrema-direita em Florianópolis é o Monte Serrat, no Maciço do Morro da Cruz. Também conhecido como Morro da Caixa, este é um dos territórios periféricos mais antigos de Florianópolis e um dos principais redutos da população negra da cidade – sendo o berço das primeiras escolas de samba da história de Floripa, fundadas ainda na primeira metade do século passado.



O Monte Serrat foi uma das comunidades mais beneficiadas pelas obras do Programa de Aceleração do Crescimento do Maciço do Morro da Cruz (PAC do Maciço), que levou uma série de melhorias na infraestrutura das favelas do aglomerado durante os dois primeiros mandatos do presidente Lula.
No que dependesse dos eleitores que votam no Monte Serrat, Lula seria reeleito em 2026 com quase 73% dos votos. O percentual de votação de Lula no berço do samba manezinho é o maior de toda a cidade de Florianópolis. A porcentagem de eleitores de Lula na comunidade também é superior à de qualquer estado brasileiro.

Na contramão do Monte Serrat, o local de votação onde a extrema-direita encontrou maior adesão em Florianópolis fica em Jurerê Internacional. O bairro do Norte da Ilha é conhecido nacionalmente por abrigar empreendimentos de alto padrão à beira-mar e não fica próximo a nenhuma comunidade periférica. Ou seja, é um local de votação que expressa a ideologia política da elite da cidade. Por ali, menos de 25% dos eleitores votaram em Lula no primeiro turno.
As seções eleitorais do Jurerê Sports Center tiveram mais de 60% de adesão ao projeto de Flávio Bolsonaro – que, enquanto Senador, é relator de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que pretende justamente entregar o acesso às praias brasileiras a empresários do ramo imobiliário e do turismo de alto padrão.
Vizinha ao Monte Serrat/Morro da Caixa, a Serrinha foi outra comunidade periférica que registrou vitória folgada de Lula no primeiro turno: 55% a 30%. Chama a atenção, porém, que o índice de abstenção nestes territórios ficou acima da média da cidade: um a cada 4,8 eleitores dessas duas comunidades não foi votar no primeiro turno. Somando-se aos votos brancos e nulos, são cerca de 300 eleitores que não escolheram um candidato para presidente em 4 de outubro. É como se uma seção eleitoral periférica inteira tivesse deixado de votar.

A tendência progressista de Serrinha e Monte Serrat ficou evidente também nos votos para os outros cargos em disputa nas eleições de 2026: ambas comunidades mostraram ampla preferência para os candidatos apoiados por Lula ao governo do Estado (Gelson Merísio, do PSB) e ao Senado Federal (Décio Lima, do PT; e Afrânio Boppré, do PSOL). Candidatos ao Legislativo como Carla Ayres (PT) e Marquito (PSOL) também tiveram votações expressivas nestes territórios.
De acordo com um levantamento realizado pela Agência Mural de Jornalismo das Periferias, o plano de governo apresentado por Lula para as eleições de 2026 menciona as periferias 11 vezes – contra zero menções no plano de Flávio Bolsonaro. A discrepância no tratamento aos territórios favelados faz com que a rejeição à extrema-direita se faça presente também em outras quebradas de Floripa.
A relação das periferias catarinenses com o governo Lula vai além do já citado PAC do Maciço, no começo dos anos 2000. O Maciço do Morro da Cruz tem uma série de iniciativas premiadas pelo Programa Periferia Viva – lançado no atual governo e que busca levar melhorias estruturais, econômicas e urbanísticas a favelas de todo o país. O Programa é vinculado à Secretaria Nacional de Periferias, cuja criação também foi iniciativa de Lula. Entre os premiados, estão o Desterro, o Viva Monte Serrat e o Grupo Mittos.
Contrastes da região central
Além da Caixa e da Serrinha, comunidades do Maciço localizadas na região da Prainha também tiveram seções eleitorais mapeadas por nosso levantamento. Por serem mais próximas ao asfalto que as escolas já apresentadas, as seções eleitorais da Escola Jurema Cavalazzi e da Creche Celso Ramos podem ter maior interferência de votos do asfalto – mas são compostas em boa parte por moradores dos Morros do Mocotó e da Queimada.

A Queimada e o Mocotó são comunidades interligadas, sendo o Mocotó a favela mais antiga das duas (e de toda a cidade de Florianópolis). A região que compreende as duas comunidades é a que tem a maior concentração de terreiros de religiões afrobrasileiras da cidade – são cerca de 15, em sua maioria de Umbanda.
O Mocotó é também uma das regiões periféricas que mais sofre com a violência policial na capital: desde 2015, a polícia matou pelo menos 17 pessoas naquele território – que ocupa o terceiro lugar entre os mais vitimados pelo Estado no período. Um dos casos mais recentes do território foi o de Hudson, morto aos 17 anos em dezembro de 2025 quando ia ao ensaio da escola de samba Protegidos da Princesa, que representa a comunidade.
A morte do adolescente, capoeirista e trabalhador da construção civil, causou revolta no morro e levou centenas de moradores às ruas em duas manifestações realizadas no intervalo de menos de uma semana após o assassinato – bem como à Câmara Municipal, para denunciar a morte em uma audiência pública. Recentemente, moradores lotaram o refeitório da própria Escola Jurema Cavalazzi, um dos locais de votação analisados por nosso levantamento, para a estreia de um documentário em homenagem ao adolescente.



No território onde Hudson nasceu, cresceu e morreu, Lula venceu em todas as seções. Somando as 11 urnas analisadas, o atual presidente teve cerca de 50% dos votos, contra pouco mais de 35% para Flávio – candidato que se posiciona diretamente a favor da violência de Estado. Prova disso é que Flávio, já no cargo de Senador da República, atuou como advogado na defesa do Policial Militar Bruno Delaroli – que, em 2021, assassinou Ana Clara, de apenas 5 anos de idade, a tiros de fuzil.
O crime aconteceu em Niterói e a suposta troca de tiros alegada pelo PM foi desmentida pela perícia da cena do crime, onde só constavam projéteis da polícia. Assim como os policiais envolvidos nos mais de 50 homicídios cometidos por agentes do Estado no Maciço do Morro da Cruz já mapeados pelo Desterro, o PM carioca defendido por Flávio Bolsonaro nunca pagou por seu crime.
Nas seções eleitorais do Morro do Mocotó, também houve boa adesão às candidaturas progressistas para o Senado. Carla Ayres, do PT, foi a candidata a Deputada Federal mais votada em cerca de um terço das seções. A abstenção foi exatamente igual à registrada na Serrinha e no Morro da Caixa (1 a cada 4.8 eleitores não foi votar) – e, portanto, acima das médias municipal (20%), estadual (19%) e nacional (21%). Somando-se também os votos brancos e nulos, quase 900 pessoas das seções eleitorais do Mocotó e da Queimada não escolheram um candidato para presidente no primeiro turno.

Quando o Centro de Floripa se afasta das favelas, a realidade é outra. O Colégio Imaculada Conceição está distante cerca de 2km das seções eleitorais do Maciço, em uma área do Centro onde vivem famílias das classes média e alta. O resultado das urnas de suas seções eleitorais é o inverso ao registrado nos Morros do Mocotó e da Queimada, com vitória de Flávio Bolsonaro por 50% a 38% dos votos.
No Imaculada, a tendência da elite manezinha à extrema-direita também ficou registrada nos votos para os demais cargos: Caroline de Toni (PSL) e Esperidião Amin (PP) foram os Senadores escolhidos; Jorginho Mello (PL) teve votação superior à registrada nas periferias; e Júlia Zanatta (PL) foi disparada a candidata a deputada federal mais votada. Marquito (PSOL), que foi reeleito deputado estadual em 2026, foi o único nome da esquerda que liderou as intenções de voto para algum dos seis cargos em disputa entre o eleitorado do Imaculada.
Monte Cristo em disputa
Composto por cerca de 12 comunidades e sendo o maior aglomerado de favelas da região continental de Florianópolis, o Complexo Monte Cristo é contabilizado como um único território em nosso levantamento. Isto porque a dinâmica do Monte Cristo é diferente do Maciço do Morro da Cruz: ao contrário do Maciço, as comunidades do aglomerado do Continente votam de forma interligada.
Na prática, os eleitores das diferentes comunidades do Monte Cristo se misturam em três locais de votação localizados dentro do próprio aglomerado, não sendo possível distinguir como vota cada uma das comunidades inseridas no Complexo. Há moradores que votam no asfalto, mas poucas pessoas não-periféricas são direcionadas a votar dentro do Monte Cristo – sendo o resultado das seções analisadas fortemente influenciado pelos votos periféricos do Continente.
Assim como as comunidades do Maciço apresentadas anteriormente, o Monte Cristo também é um território majoritariamente negro. Entre os principais aspectos culturais do Complexo, está a forte influência da cultura hip-hop – que, em Florianópolis, deu seus primeiros passos por ali.



Por ser contabilizado como um único território, o Monte Cristo é a quebrada que teve o maior número de urnas identificadas pelo nosso levantamento. Das 13 seções eleitorais do território, Lula venceu em 12 delas. Além disso, o campo democrático também teve vitórias nas votações ao Senado. Os votos para deputados alternaram-se entre esquerda e direita.
Mas o que mais chama a atenção no Monte Cristo é o índice de abstenções. De todos os territórios analisados por nosso levantamento, a região lidera com folga nesse quesito. Mais de 26% dos eleitores do Complexo não foram às urnas no primeiro turno – ou seja, a cada três votos contabilizados, um eleitor não foi votar.
O território registrou a seção com maior abstenção dentre todas as mais de 150 analisadas por nosso levantamento: na seção localizada no Bairro Educador do Monte Cristo, onde Lula seria eleito ainda no primeiro turno, mais de 43% das pessoas faltaram à votação.
Somando eleitores ausentes aos votos brancos e nulos do Monte Cristo, quase 1400 votos ainda estão em disputa no Complexo – um dos territórios onde há mais margem para se conquistar votos para o 2º turno na cidade de Florianópolis.

A dinâmica entre asfalto e favela percebida na região central, onde comunidades periféricas registram menos adesão à extrema-direita que moradores de áreas mais ricas, também é percebida no Continente. Se o principal aglomerado de favelas da região mostrou preferência por Lula, o colégio eleitoral da Fundação Nacional da Saúde (FUNASA) elegeria Flávio Bolsonaro ainda no primeiro turno. A FUNASA é um local de votação que fica em uma área de classe média/alta no bairro do Estreito, a pouco mais de 2km de distância do Complexo do Monte Cristo.

A elite do Continente ainda expressou sua preferência à extrema-direita nos votos ao Governo do Estado e ao Senado. Júlia Zanatta e Ana Campagnolo, ambas do PL, foram as deputadas mais votadas em todas as seções eleitorais da FUNASA. A abstenção por ali foi de 17.4%. É um número abaixo das taxas municipal, estadual e nacional – e quase 10 pontos percentuais menor que a abstenção registrada no Complexo do Monte Cristo.
Os focos de resistência no interior catarinense
Das 295 cidades de Santa Catarina, em apenas 5 Lula teve vantagem sobre Flávio – todas localizadas no interior do estado. Quando analisamos os perfis de suas populações, percebemos mais uma mostra de como a raça da população pode interferir na votação de um território. Em quatro das cinco cidades onde o atual presidente levou vantagem, pelo menos ⅓ da população é não-branca – proporção consideravelmente mais alta que o restante de Santa Catarina, onde essa taxa fica pouco acima dos 20%.
A líder do ranking de cidades mais progressistas de Santa Catarina no primeiro turno das eleições de 2026 é Calmon. Trata-se de uma das poucas cidades do estado onde a maior parte da população é negra. Em segundo lugar, Ipuaçu – um dos poucos municípios catarinense onde mais de metade da população é indígena. Ambas cidades ficam no Oeste do estado. Fecham a lista as cidades de Cerro Negro (Região Serrana, cerca de 45% da população negra), Entre Rios (Região Oeste, cerca de 36% da população indígena) e Saltinho (única cidade da lista com ampla maioria de pessoas brancas).

No caso de Ipuaçu, a interferência da luta indígena na votação da cidade fica escancarada quando analisamos as seções eleitorais de duas escolas indígenas do povo Kaingang, onde Lula teve mais de 77% dos votos. Em uma escola do Centro da cidade, essa marca ficou abaixo dos 35%. Os candidatos mais votados nas escolas indígenas eram de partidos como PT, PSOL e PDT. Na escola da cidade, apenas PL e MDB apareceram liderando a preferência da população. Ou seja, a vitória de Lula no município como um todo é diretamente influenciada pela raça e pelo território dos votantes.
A mesma dinâmica acontece em Entre Rios, terceira cidade com maior proporção de votos para Lula em Santa Catarina. Ipuaçu e Entre Rios são cidades vizinhas e ambas abrigam a Terra Indígena Xapecó, maior território demarcado de Santa Catarina – que, além do povo Kaingang, abriga também famílias do povo Guarani.
Ainda na região Oeste, a Terra Indígena Toldo Chimbangue é mais um foco de resistência contra a extrema-direita. O Chimbangue é referência na luta pelos direitos dos povos indígenas do Sul do país, tendo sediado a 4ª edição do Acampamento Terra Livre Sul, maior mobilização indígena da região, em 2022.
As atividades do ATL Sul 2022 aconteciam justamente onde ficam as seções eleitorais do território: a Escola Indígena Fen’nó, nomeada em homenagem a uma das maiores lideranças femininas da história do povo Kaingang e responsável direta pela demarcação de suas terras.



O Chimbangue é cercado pela indústria agropecuária, que emprega boa parte de seus moradores em jornadas de trabalho insalubres e exaustivas. No território, a porcentagem de Lula foi quase a mesma da registrada em outras escolas indígenas da região Oeste. De cada quatro pessoas, três votaram no atual presidente. Em Chapecó, onde vivem os patrões dos frigoríficos, três de cada cinco eleitores escolheram Flávio Bolsonaro.

Um a cada quatro eleitores aptos a votarem nas seções eleitorais localizadas dentro de escolas indígenas do Oeste catarinense não depositou seu voto para um candidato a presidente no primeiro turno. Em Ipuaçu, as abstenções na Terra Indígena Xapecó ficaram quase 10 pontos percentuais acima das abstenções da escola do Centro da cidade. Na Terra Indígena Toldo Chimbangue, foram 4 pontos percentuais acima da média da cidade de Chapecó.

Quanto mais distante da aldeia, mais próximo à extrema-direita
Quando chove no Alto Vale do Itajaí, o povo indígena Xokleng paga a conta. Uma enorme barragem construída sem o consentimento da comunidade dentro da Terra Indígena Laklãnõ durante a Ditadura Militar protege a população majoritariamente branca de cidades como Blumenau das cheias do Rio Itajaí. Quando as comportas da Barragem Norte se fecham, o território indígena é inundado. A estrutura já foi responsável pela morte de centenas de indígenas e fragmentou o povo Xokleng: de uma única aldeia (localizada onde foi instalada a barragem), passaram a viver em nove aldeias diferentes.



Governador reeleito de Santa Catarina, Jorginho Mello tem nos Xokleng um inimigo declarado de sua gestão. Defendendo o “progresso” supostamente representado pela Barragem Norte e a necessidade de reparos em sua estrutura, o Estado de Santa Catarina invadiu ilegalmente o território Xokleng em outubro de 2023, atirando bombas e projéteis letais e de borracha contra os indígenas. Em julho deste ano, em uma nova entrada do Estado no território sem a concordância de suas lideranças ou da Polícia Federal, Jorginho Mello agrediu verbalmente Antônia Patté, cacica do povo Xokleng.
Como resultado, menos de 20% do eleitorado da Terra Indígena Laklãnõ votou em Jorginho Mello – que foi reeleito com quase 70% dos votos de todo o estado. A porcentagem de Flávio Bolsonaro foi um pouco maior – mas, assim como os parentes Kaingang do Oeste, os Xokleng também demonstraram ampla preferência pelo atual presidente. Lula teve 74% dos votos das seções eleitorais localizadas na Escola Indígena Laklãnõ.
No Centro de José Boiteux (cidade onde fica a maior parte da Terra Indígena Laklãnõ), a cerca de 15km de distância do território indígena, o panorama é exatamente o inverso: 74% dos eleitores, em sua enorme maioria pessoas brancas, escolheram Flávio como presidente.
Em José Boiteux, há ainda um local de votação localizado entre a cidade e a aldeia. Uma escola da zona rural recebe tanto votos de pessoas brancas, quanto de indígenas que são direcionados pelo Poder Público a votarem fora de seu território – mais especificamente, a 5km de distância dos limites da T.I. Por ali, a votação fica equilibrada, com vitória apertada de Lula em cima do candidato do PL. O mesmo se repete na eleição ao governo do estado e aos cargos em disputa no Legislativo. Na região, quanto mais distante da aldeia, maior é a adesão da população à extrema-direita.

Entre os três locais de votação analisados em José Boiteux, a Escola Indígena Laklãnõ apresentou a maior porcentagem de abstenções – com uma marca acima das médias estadual (19%) e nacional (21%).

No fim de semana das eleições, várias estradas do território encontravam-se total ou parcialmente bloqueadas por conta da cheia da Barragem Norte, o que pode ter impactado no trânsito interno entre aldeias ou na viagem de indígenas que vivem em outras cidades e votam no território. Para o segundo turno, coletivos indígenas que vivem em Florianópolis já começaram a realizar campanhas para possibilitar o retorno dos parentes às aldeias no dia da votação.
Para além da Barragem Norte, o Marco Temporal é outro assunto que afeta diretamente o território Laklãnõ e que ajuda a explicar a maior adesão do povo Xokleng (e de outros povos indígenas de Santa Catarina e do Brasil) a um projeto progressista e democrático de país. O Marco Temporal é uma tese jurídica que defende que povos indígenas só teriam direito a um território caso estivessem ocupando a área no dia da promulgação da Constituição Federal, em 1988 – ignorando que várias aldeias foram dizimadas e expulsas de suas terras nos mais de 400 anos que se passaram entre a invasão portuguesa e a Constituição.
Jair Bolsonaro, pai de Flávio, se posiciona a favor do Marco Temporal desde que era deputado federal – a tese do Marco tem como sua principal âncora a bancada ruralista do Congresso. Como presidente, Jair disse que descumpriria possíveis medidas impostas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) ao governo em relação ao Marco Temporal. O julgamento da tese no STF tem como ponto central justamente a Terra Indígena Laklãnõ.



O único território do povo Xokleng reconhecido pelo Estado brasileiro perderia ⅔ de sua área em caso de aprovação do Marco Temporal e sua população ficaria ainda mais dependente das indústrias do tabaco e têxtil que dominam os limites das aldeias para sobreviver. Entre idas e vindas, o julgamento sobre o destino do território Xokleng aguarda um resultado no Supremo há cerca de quinze anos.
Lula, em contrapartida, vetou um projeto sobre o Marco Temporal apresentado pelo Congresso Nacional em 2023. Ele também foi responsável pela criação do Ministério dos Povos Indígenas, em janeiro do mesmo ano, elevando a importância das discussões envolvendo direitos desses povos.
Jair Bolsonaro, enquanto presidente, seguiu à risca sua promessa de campanha de “não demarcar um centímetro sequer de Terras Indígenas” durante seu governo. As homologações de territórios foram retomadas na atual gestão de Lula, com avanços em territórios em Santa Catarina – como Toldo Imbu (Abelardo Luz, Oeste catarinense) e Morro dos Cavalos (Palhoça, região metropolitana). Somando seus três mandatos, Lula já homologou quase uma centena de Territórios Indígenas. O projeto de governo apresentado por Flávio em 2026 segue as mesmas diretrizes das políticas anti-indígenas do pai.
O grito do povo Guarani e a votação no Quilombo mais antigo de Santa Catarina
A homologação das Terras Indígenas Morro dos Cavalos e Toldo Imbu, em 2024, não significaram uma vitória definitiva para essas comunidades. Menos de duas semanas após a decisão do presidente, o Senador Esperidião Amin (PP-SC) apresentou um Projeto de Decreto Legislativo com o objetivo de suspender as duas homologações. Mesmo que Amin tenha se baseado na tese do Marco Temporal, cuja legalidade segue em discussão no Congresso e no Supremo, a Comissão de Constituição Justiça do Senado aprovou o projeto e paralisou as homologações.
O Morro dos Cavalos é um dos vários territórios do povo Guarani espalhados pelo litoral brasileiro. Em Santa Catarina, há grande distribuição de territórios em cidades da região metropolitana, como Palhoça, Biguaçu e Major Gercino. Mas, via de regra, são territórios pequenos e de baixo potencial produtivo para a subsistência da comunidade – é o caso do Morro dos Cavalos, que é vítima do maior imbróglio territorial indígena da região metropolitana de Florianópolis atualmente.
Para além da especulação imobiliária que mira terrenos de Mata Atlântica e de praia da região, a BR-101 é ponto central da discussão envolvendo o Morro dos Cavalos. Construída pelo Exército Brasileiro nas décadas de 1950 e 1960, a rodovia cortou a Terra Indígena no meio e impactou severamente a vida de seus moradores. Desde então, escolas, casas, locais de reza e espaços de lazer convivem com o intenso vai e vem de caminhões, ônibus e carros. Para ir de uma aldeia a outra, é necessário passar por uma passarela em cima da BR.
Para boa parte da população branca do entorno, a existência dos Guarani é vista como um problema a ser enfrentado. Ao longo dos anos, o território indígena foi alvo de uma série de ameaças e atentados, envolvendo corte de água e luz, bombas, uso de armas brancas e de fogo. É essa ideologia que leva políticos como Esperidião Amin a propor medidas que vão contra os direitos da comunidade. Nas eleições de 2026, Amin perdeu sua reeleição ao Senado justamente para o irmão de Flávio Bolsonaro, Carlos – que deve ser ainda mais firme na pauta anti-indígena.



Nosso levantamento não conseguiu localizar nenhum local de votação na região metropolitana com ampla maioria Guarani. Na região do Massiambu, onde fica o Morro dos Cavalos, não há locais de votação dentro das escolas indígenas – o que faz com que a votação das seções eleitorais da região tenha forte influência de eleitores brancos. O mesmo acontece em Biguaçu e Major Gercino.
Mas, no Norte do estado, há um local de votação que ilustra o grito de resistência do povo Guarani. Em Araquari, o colégio eleitoral da escola da Aldeia Pindoty registrou o maior percentual de votação em Lula de todo o nosso levantamento: mais de 90% dos eleitores são favoráveis à reeleição do presidente. Na cidade de Araquari como um todo, essa marca não chegou aos 25%. Os moradores da Aldeia Pindoty ainda mostraram sua consciência política ao registrarem a menor abstenção de todas as mais de 150 seções analisadas pelo Desterro: pouco acima de 10%.

Outro local de votação mapeado por nosso levantamento que teve taxa de abstenção abaixo da média estadual e da média da cidade de seu entorno fica na região do Quilombo Invernada dos Negros, primeiro território quilombola oficialmente reconhecido em Santa Catarina, no começo dos anos 2000.
Embora com votação menos expressiva que a registrada nas aldeias indígenas, trata-se de mais um território tradicional catarinense onde Lula seria eleito ainda no primeiro turno e onde houve predominância de candidatos progressistas nos outros cargos em disputa.
Como nos demais contextos, também aqui há diferença em relação ao voto do entorno. A adesão do restante da cidade de Abdon Batista, onde fica o Quilombo, à candidatura de extrema-direita à Presidência foi 64% maior que a registrada no Centro Comunitário de Arroio Bonito, na região do Quilombo.

