Nossos mortos têm voz: 9º Encontro Nacional de Mães e Familiares de Vítimas do Terrorismo do Estado é realizado em Curitiba

Com mais de 80 participantes, encontro anual reafirma protagonismo da região Sul contra a violência de Estado. Evento discutiu estratégias de mobilização na luta por justiça, memória e reparação

Reportagem de Rodrigo Barbosa

Entre os dias 14 e 17 de maio de 2026, Curitiba foi palco de luta contra a violência do Estado. A capital paranaense sediou o 9º Encontro Nacional de Mães e Familiares de Vítimas de Terrorismo do Estado, que contou com a participação de cerca de 80 pessoas de todas as regiões do Brasil. 

O encontro é organizado anualmente pela Rede Nacional de Mães e Familiares de Vìtimas de Terrorismo do Estado. Formada em 2016, a Rede reúne centenas de militantes e movimentos sociais que perderam familiares para a mão armada do Estado, bem como de coletivos que militam pelos direitos de adolescentes do sistema socioeducativo e de pessoas que estão ou já passaram pelo sistema prisional. 

Trata-se de um encontro para partilhar experiências de diferentes territórios brasileiros na luta por justiça, memória e reparação. Foi a segunda vez que o encontro aconteceu na região Sul do país, evidenciando o crescente protagonismo de nossa região na luta contra o terrorismo de Estado – no ano passado, Florianópolis foi a cidade anfitriã.

Durante os três dias de evento, dezenas de temas acerca da Segurança Pública foram abordados: fortalecimento de instituições responsáveis por controle e investigação, melhoria de processos de perícia, proteção a famílias denunciantes, combate a tortura em ambientes de privação de liberdade, acesso a políticas previdenciárias e de saúde mental para familiares e desinvestimento das polícias.

O Desterro foi convidado pela organização para participar do Encontro e conversou com familiares de diversas partes do Brasil, trazendo relatos de como esses coletivos têm se organizado em seus territórios e evidenciando que a violência de Estado está presente em cada canto do país. 

Eu quero ser a mãe do meu filho por toda a minha vida. Nossos mortos têm voz, eu sou a voz do meu filho”. 

Da Baixada Fluminense ao Complexo da Penha

Dona Marise foi ao Encontro Nacional representando o Mães da Baixada, coletivo composto por cerca de 20 familiares de vítimas da Baixada Fluminense. Ansiosa pela primeira viagem para fora do Rio representando seu coletivo, estava com a mala pronta 15 dias antes do embarque. Há mais de seis anos, busca por respostas para a morte de seu único filho.

Aos 29 anos de idade, Antônio Carlos encontrava-se dentro do sistema prisional carioca. O jovem negro recebia a visita de sua mãe religiosamente todos os sábados, até o dia 16 de novembro de 2019. Naquela data, Dona Marise se esqueceu que o dia das visitas havia mudado. Se arrumou e foi para o presídio.

Cheguei lá na porta e o homem perguntou o que eu tava fazendo ali. Eu esqueci que tinha trocado o dia da visita. Por desencargo de consciência, perguntei se ele podia dar uma olhadinha na ficha do Antônio Carlos da Silva Ferreira. O homem olhou e disse que ele não tava ali não. Como que não tá ali, se eu larguei ele ali? Cheguei em casa e falei pra minha nora: Ele não tá lá mais não, mas a gente tem que ver onde ele tá. Ninguém some assim de repente”. 

Foram dois dias sem notícias do filho. Na segunda-feira, ligou para o presídio perguntando por Antônio. Ao identificar-se como mãe, logo recebeu a resposta do funcionário do Estado: “Olha só minha senhora, eu não tenho uma notícia boa pra te dar”.

Coração de mãe não se engana. Antes de receber a notícia, Dona Marise já sabia do que se tratava.

Falei: pronto, meu filho morreu. Mas por que eles não me falaram no dia 16, que eu estive lá? Pra que esperar esse tempo todo?

O corpo do filho de Dona Marise, na verdade, havia chegado ao Instituto Médico Legal (IML) no dia 12 de novembro, seis dias antes da ligação que fez sua mãe descobrir sobre o óbito; e quatro dias antes de ela ter ido ao presídio e perguntado pelo filho. O Estado ocultou a morte de Antônio a Dona Marise. O jovem vivia com ela, logo o endereço e os contatos telefônicos fornecidos por ele na prisão eram o da coroa.

Quando eles querem prender, eles vão na porta. Você nunca foi preso, mas se você fizer uma merda eles vão lá na sua porta. Como é que pra dar uma notícia eles não sabem? É uma coisa bizarra eles não avisarem, não sinalizarem pra mãe o que tá acontecendo. É triste, lamentável”.

Após perder o filho sob custódia do Estado, vários meses se passaram até que Dona Marise conseguisse se levantar para a luta. O pontapé inicial se deu quando uma comadre da igreja disse ter sonhado com Antônio Carlos, que havia pedido para a mãe parar de chorar pois ele estaria em paz. Como vários outros integrantes da rede, ela ainda convive com a depressão e a ansiedade e reclama da falta de políticas públicas para familiares de vítimas. Mas diz que, quando chora pelo filho, é pela saudade – e não mais pelo desespero.

“Quando parou meus movimentos e eu não tinha nada pra fazer, eu me vi perdida. O que me levantou foi a luta. Eu moro sozinha. O que você fala no grupo, sempre tem alguém que fala: Vamos! Tem coisa que você fala no grupo que não pode falar com um vizinho, é complicado. É por isso que eu tô na luta, só paro se Deus me levar”.

Dona Marise, representante do Mães da Baixada. Foto: Rodrigo Barbosa

Em um dos episódios mais recentes em que companheiras de luta da Baixada disseram “vamos” a um convite, uma dessas companheiras era a própria Dona Marise. Foi em 28 de outubro de 2025, quando a polícia do Rio cometeu a maior chacina policial da história do país – com mais de 120 vítimas fatais.

Eu tava em casa e as meninas botaram no grupo que tavam indo pra Penha. Falei: O que que eu vou ficar fazendo em casa? Eu vou também”!

Dona Marise morou na Penha por mais de 30 anos, mudando-se para São João do Meriti já na vida adulta. Quando viu no grupo do Whatsapp o que havia com a comunidade de sua juventude, não pensou duas vezes. Saiu sozinha de casa e passou mais de uma hora em dois ônibus diferentes. Ainda pela manhã, encontrou as amigas aos pés do Complexo. 

Portadora de fibromialgia, Marise deixou as dores que a acompanham diariamente e subiu o morro. Àquela altura, os corpos da maior parte das vítimas fatais do massacre já haviam sido resgatados pelos moradores da comunidade, sendo enfileirados em praça pública para escancarar o terror levado pelo Estado à favela. Mas a matriarca de luta foi responsável, ao lado de centenas de outras pessoas periféricas, por resgatar moradores da Penha que ainda tinham vida em meio à região de mata no topo da comunidade.

Eu subi. As meninas ficaram: Vai subir o morro, né novinha? No mesmo dia que chegou os corpos, a gente subiu o morro. Fomos no mesmo dia pra ver se achava mais corpos, se tinha mais gente viva… E tinha gente viva, graças a Deus”!

As três lutas de um pai

O coletivo Vozes de Mães e Familiares do Sistema Socioeducativo e Prisional do Ceará é um dos coletivos da Rede Nacional que denunciam a violência praticada pelo Estado nos sistemas socioeducativo e prisional.

O Vozes surgiu em 2013 num contexto de torturas dentro do socioeducativo masculino do Ceará. Em 2019, viram a necessidade de abraçar também a luta pelos direitos de adultos privados de liberdade. Além de denunciar violações e propor políticas para as áreas em que atua, o Vozes também realiza atividades de incidência, formação e milita sobre temas que antecedem as internações e prisões – como o racismo estrutural e a guerra às drogas. 

Hoje, o Vozes é um dos maiores e mais reconhecidos movimentos sociais que atuam pela garantia de direitos de pessoas que estão ou já passaram pelos sistemas socioeducativo e prisional no país. O grupo é formado por mais de 80 familiares – em sua enorme maioria, mulheres negras. Mas, no Encontro Nacional, como em muitas das atividades do Vozes em seu território, uma camisa destoava das demais: “Lute como um pai”.

Benedito entrou para o coletivo Vozes em 2015 quando seu filho Jonathan era um adolescente e frequentou o sistema socioeducativo. Entre idas e vindas do filho no sistema, Seu Bené tornou-se figurinha carimbada nas atividades do coletivo. Ao atingir a maioridade, Jonathan passou também pelo sistema prisional – evidenciando uma das denúncias que é base da atuação do Vozes: a de que o socioeducativo, na prática, não tem na educação um de seus objetivos. 

Desde então, Seu Benedito soube o que é ser um familiar das duas lutas que seu coletivo abraça. Sua presença no meio de um coletivo matriarcal chama a atenção até do próprio Estado. Em uma de suas passagens pelo sistema, Jonathan ouviu de um juiz:

Essas mulheres são guerreiras, brigam pelos seus direitos, dos seus filhos, por justiça. Aí ainda tem sempre um cabra lá no meio. E o único cabra que está lá no meio, eu já conversei com ele, e é um cabra gente boa para caralho. E o cabra faz isso porque tem amor por vocês. Se eu fosse tu, zelava muito por esse coroa“.

Negueba, como Jonathan era mais conhecido, seguiu o conselho do juiz. O pai se lembra com carinho especialmente dos domingos na companhia do filho. Negueba vivia com a esposa e dois filhos, mas ia para a casa de Seu Bené todos os fins de semana, fizesse chuva ou sol. Para ele, era Deus no Céu e o coroa na Terra. O amor do filho por Seu Bendito era tão grande que chegava a causar ciúmes na mãe. 

A senhora é a minha rainha, não fique com ciúmes“.

Em fevereiro de 2021, Jonathan tornou-se suspeito de ter participado de um roubo a uma loja de celulares que culminou com um policial militar morto, após uma troca de tiros. Segundo Seu Benedito, a prisão do filho aconteceu após uma sessão de tortura na qual ele foi espancado por quatro horas em uma favela da cidade de Fortaleza. A violência foi tamanha que Jonathan pegou a ponta do fuzil de um dos agentes e apontou para si mesmo.

Se vocês querem me matar, me mata logo”.

Seu Benedito acredita que seu filho e outros jovens que também foram apontados como suspeitos do crime só não morreram no dia de suas apreensões porque a comunidade percebeu as agressões e se revoltou. Acabaram sendo levados ao presídio. Foi a última vez de Jonathan atrás das grades. Ficou 9 meses por ali, até ser liberado pelo juiz do caso. O Estado não provou que ele era culpado das acusações.

Ao retornar às ruas, Jonathan disse à família que queria mudar de vida para, enfim, realizar o sonho de sua juventude: reformar a casa dos pais. Trabalhava no sinal lavando vidros de carros. Mas começou a sofrer ameaças de policiais quase imediatamente depois de deixar o sistema prisional. Segundo seu Benedito, escapou da morte várias vezes por andar quase sempre acompanhado do filho de 10 anos de idade. 

O dia da morte de Jonathan foi chuvoso e rendeu pouco no trabalho.

Fiz pouco dinheiro, vamos embora, vou mais ficar aqui não”.

Ao sair do trampo, Jonathan fumou um baseado com um amigo e resolveu que tentaria mais uns trocados no sinal. As ruas seguiam pouco movimentadas por conta da chuva. Foi alertado por uma amiga que também trabalhava nas redondezas: 

Ei, vai para casa, cara. Tu não pode tá aqui nesse sinal sozinho não. Não vacila não, não brinca com a sorte“.

Jonathan não deu ouvidos. Pouco depois, um carro sem caracterização da polícia passou em alta velocidade pelo jovem negro, que empurrava uma bicicleta. Na cola do carro, uma moto. A 200 metros de distância dali, Seu Benedito voltava para casa para almoçar. Ouviu o barulho dos tiros. 

Pou, pou, pou, pou, pou. E eu ainda falei assim pro meu cunhado: aquilo ali foi uma ponto 40 e o camarada ali não sobreviveu não. Não deu outra. Era meu filho, mas só que eu ainda não sabia”. 

Seu Benedito, integrante do Vozes de Mães, do Ceará. Foto: Rodrigo Barbosa

Um segundo filho de Seu Benedito saiu para comprar o refrigerante do almoço e ouviu de um vizinho que haviam derrubado o Negueba. Voltou para casa e o desespero tomou conta. Seu Benedito pegou o telefone e ligou para a esposa de Jonathan, que disse a ele que o rodo que o marido usava no trabalho não estava em casa. Pegou a bicicleta e foi para o sinal. 

O pai chegou à cena do crime cerca de meia hora após os disparos. Viu o corpo do filho, de 24 anos de idade, jogado no asfalto. Segundo ele, Jonathan foi atingido por tiros na cabeça e foi deixado ali, agonizando. Mesmo que os executores não usassem veículos caracterizados, o pai tem poucas dúvidas quanto à participação policial no crime que tirou a vida de seu filho. 

Não tinha prova, tava difícil do processo andar. O Ministério Público ainda recorreu, mas a polícia ficava amenizando dizendo que não tinha policial envolvido. Mas eles sabiam que foi a milícia que matou ele, entendeu? Eu não vou atrás desse processo mais não, não vai trazer meu filho de volta”. 

Quando Jonathan tombou, Seu Benedito – que militava pelos direitos de jovens vítimas do terrorismo do Estado nos sistemas socioeducativo e prisional – tornava-se familiar também de uma vítima fatal do Estado. Há quatro anos une as três frentes abraçadas pela Rede Nacional dentro de si e luta para que outros jovens não tenham o mesmo destino de seu filho.

Os nove que perdemos

Com apenas 16 anos de idade, Denys Henrique seguia a rotina de vários dos seus. Cria de quebrada, começou muito cedo a trabalhar para ajudar as contas de casa e tornar menos distantes os seus próprios sonhos. Trampava com limpeza de estofados em bairros nobres da capital paulista. 

Em 30 de novembro de 2019, saiu do trabalho e encontrou-se com amigos, todos jovens periféricos da Zona Norte de São Paulo, para o rolê de sábado à noite. O destino era a Zona Sul. Naquela noite, como em tantas outras, iriam para o baile na favela de Paraisópolis.

Naquela época, o Baile da 17 vivia o seu auge. Dezenas de milhares de jovens periféricos da capital paulista se reuniam pelos becos de Paraisópolis todos os fins de semana para celebrar a cultura do funk. Uniam-se a eles os próprios moradores do território e turistas de várias partes do planeta. O Baile da DZ7 consolidava-se como uma das maiores manifestações de cultura periférica do mundo.

Mas a potência da favela incomodou o Estado. Em 2019, a política de Segurança Pública do governo João Dória passava diretamente pela repressão aos bailes funk. Operações violentas para dispersar os eventos eram realizadas quase todos os fins de semana. O ápice da violência aconteceu justamente na madrugada de 1º de dezembro de 2019. Naquela data, Denys Henrique e outros oito jovens tornaram-se vítimas de um dos massacres policiais mais infames da história recente do Brasil. 

Massacre de Paraisópolis aconteceu durante o baile funk da DZ7. Foto: Rodrigo Barbosa

Na última noite da vida de Denys Henrique, a primeira batida policial aconteceu perto da meia noite. As mais de 5 mil pessoas que estavam pelas vielas de Paraisópolis dispersaram-se mas, pouco tempo depois, voltaram para o baile. Às 02h30, uma segunda batida e a cena se repetiu: dispersão e retorno ao baile. Pouco antes das 04h00, o caos tomou conta de vez da favela. 

Uma viatura tática da PMSP chegou a Paraisópolis, gerando enorme correria entre as milhares de pessoas presentes no baile. Os clarões que indicam os primeiros tiros e bombas contra a população aconteceram segundos depois da chegada desta viatura. A rua de entrada do baile fica vazia, momento em que a polícia ganha o reforço de cerca de dez outras viaturas. 

Nos vinte minutos seguintes, interrompeu-se a comunicação entre os policiais e a Central da PM, e o que se viu foi violência generalizada. Em diferentes pontos da comunidade, câmeras de segurança e de celulares de moradores registraram agressões físicas, tiros e bombas contra a população que corria desesperada.

Para quem não era cria do território, escapar da mão armada do Estado foi um desafio mais difícil. A polícia conhecia o território melhor que eles. Muitos foram ajudados por senhoras de Paraisópolis, que abriam as portas de suas casas para que as vítimas de violência pudessem se abrigar. Mas centenas de jovens acabaram concentrando-se em dois becos que foram cercados pela PM. Ao entrarem, eram agredidos por cassetetes e gás lacrimogêneo. Suas saídas daquelas vielas eram impedidas por policiais armados. 

Em vídeos feitos na região de um desses becos, é possível ouvir policiais gritando: “Vai morrer! Vai morrer”! A multidão acuada foi aumentando até que tornou-se impossível respirar. Oito das nove vítimas fatais daquela noite não morreram baleadas, mas sufocadas. 

Alguns sobreviventes dizem que haviam tantas pessoas espremidas nas vielas, que as pessoas começavam a serem levantadas pela pressão e toda turbulência que estava sendo provocada pela polícia”, conta Danylo Amílcar, irmão de Denys Henrique. 

A primeira reação da polícia à morte dos nove jovens foi abrir um Boletim de Ocorrência no qual era a própria polícia a vítima do caso. A corporação afirmava ter sido atacada por frequentadores do baile. A versão não encontra amparo nas imagens daquela noite. Também no documento, a PM de São Paulo indica que os jovens teriam sido vítimas de pisoteamento. A própria juventude que curtia o baile teria sido responsável pela morte dos seus. 

Quando eu peguei as roupas do meu irmão, eu percebi que não era verdade, porque as roupas dele ainda estavam molhadas e cheirosas com o perfume que ele tinha saído de casa. Se ele tivesse sido pisoteado, com certeza pelo menos marcas de pé, de alguma sujeira haveria. Como assim foi pisoteamento, sendo que as roupas do meu irmão voltaram cheirosas?”, questiona Danylo. 

Os questionamentos do irmão de Denys encontram amparo nos laudos de morte do irmão e dos outros jovens. Oito deles tiveram como causa de morte asfixiamento mecânico. Eles não tinham marcas em seus corpos que pudessem indicar um pisoteamento. 

Um terceiro aspecto central de discordância da versão policial diz respeito ao socorro prestado às vítimas. Os policiais envolvidos dizem que eles próprios teriam auxiliado no socorro dos jovens. Testemunhas relatam que a polícia, na verdade, teria impedido a ação do SAMU na madrugada do massacre. Todos os nove jovens já chegaram ao hospital sem vida.

Os três pontos principais denunciados pelas famílias levaram Maria Cristina Quirino, mãe de Denys Henrique, a estampar sua luta na pele. Na mão direita, leva consigo as mensagens “Não Foi Resistência”, “Não Foi Pisoteamento” e “Não Foi Socorro”. Um lembrete diário de uma batalha que vem sendo travada há quase sete anos. 

Luta marcada no corpo: a tatuagem de Maria Cristina. Foto: Rodrigo Barbosa

Maria Cristina e Danylo são dois dos integrantes do Movimento de Familiares das Vítimas do Massacre em Paraisópolis, que começou a tomar forma no mesmo dia da chacina. Uma manifestação pela vida dos jovens aconteceu em Paraisópolis horas após o crime. Desde então, as nove famílias seguem unidas na luta por justiça. 

Além de realizar manifestações por justiça e contra a violência, o Movimento de Familiares das Vítimas do Massacre em Paraisópolis é responsável direto pela articulação jurídica dos casos de homicídios de seus entes. A articulação dos familiares foi responsável por várias pequenas grandes vitórias durante o decorrer do processo, como a gratuidade para a exumação dos corpos das vítimas. Quase sete anos após o crime, estão atualmente no aguardo de uma decisão judicial que pode levar ao indiciamento dos policiais envolvidos por homicídio com dolo eventual em júri popular. 

Quando chegar a hora da nossa vitória, estaremos todas de mãos dadas”, disse Maria Cristina durante uma de suas falas no Encontro Nacional. Foi sua primeira participação e de seu coletivo no evento, do qual saíram pensando em como aplicar os novos conhecimentos em seu território e já planejando a viagem para o encontro do ano que vem.

A educação popular é mais uma frente abraçada pelo movimento de familiares do massacre de Paraisópolis. Maria Cristina e Danylo, além de mais uma companheira do movimento, tornaram-se pesquisadores do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense da Universidade de São Paulo (USP). A pesquisa começou através de uma investigação defensiva dos familiares e deu origem ao projeto Os Nove Que Perdemos. 

Os pesquisadores compartilham a verdadeira história do massacre de Paraisópolis com a sociedade. Movimentos sociais e as universidades são dois dos focos principais do projeto. O movimento conta com um site, onde são compartilhadas suas ações de mobilização e pesquisa. Além disso, há um memorial dedicado aos nove jovens, com fotografias, podcasts e documentários que relembram suas trajetórias e o massacre do qual foram vítimas.

A violência policial no estado de São Paulo não se resume à capital. Bauru está entre as 10 cidades mais violentas do estado, registrando 13 vítimas da polícia apenas no ano de 2024. Uma dessas vítimas era Luís Silvestre, cuja mãe também se fez presente no Encontro Nacional. 

Cida já convivia com a dor da perda há nove anos, quando sua filha não resistiu a uma pneumonia. Desde outubro de 2024, o luto é dobrado. Luís tinha 21 anos quando foi morto pela polícia ao lado do amigo Guilherme, de 18, no Jardim Vitória, periferia da cidade de Bauru. O crime foi cometido por uma guarnição do Batalhão de Ações Especiais da Polícia de São Paulo (BAEP).

O processo envolvendo o duplo homicídio segue em investigação. Denúncias do território dão conta de que houve omissão de socorro e colocam em dúvida a suposta troca de tiros no episódio que vitimou os dois jovens. Luís teria sido atingido já no chão por um projétil na cabeça, de um total de três que atingiram seu corpo. Ele morreu de hemorragia.

Pelo menos 27 tiros foram disparados pelos policiais envolvidos na operação. As câmeras corporais não fazem parte do fardamento das guarnições que atuam na cidade de Bauru. A revolta da comunidade foi imediata. 

O Luís nasceu e cresceu ali, todo mundo conhecia ele. A população se revoltou, começaram a gritar, e a polícia começou a jogar bomba em todo mundo. Levaram os corpos e acabou”, lembra Cida.

Mas a violência do Estado não teve seu fim na cena do crime. No dia seguinte, quatro viaturas da PM chegaram ao cemitério quase simultaneamente ao corpo de Guilherme. Invadiram a sala onde acontecia o velório e começaram a espancar o irmão da vítima com socos, estrangulamentos e golpes de cassetete. Sua mãe colocou-se na sua frente para defendê-lo e também sofreu violência. Foi agredida e empurrada contra uma pilastra, indo ao chão. 

O episódio violento durante o momento de luto da família foi filmado por vários presentes e culminou no indiciamento dos policiais envolvidos nas agressões no velório, em maio de 2026, poucos dias antes do Encontro Nacional. Como em vários outros casos de violência policial pelo país, a vitória das famílias no campo jurídico se deu muito por conta da mobilização das próprias famílias. 

A série de protestos que seguiram a morte dos jovens culminaram com a criação do coletivo Vozes das Periferias de Bauru. Em um ano e sete meses de atuação, o grupo já foi responsável por promover pelo menos 12 manifestações pela cidade. Além de protestos pedindo por justiça e pela instalação das câmeras corporais, realizaram o plantio de ipês pela cidade como forma de homenagear cada uma das vítimas. O local dos plantios foi escolhido pelas mães dos jovens.

O ano de 2026 marcou a primeira participação do Vozes das Periferias no Encontro Nacional de Familiares. No que depender de Cida, será o primeiro de muitos.

Para mim foi muito confortável, renovou minhas forças. Triste ao mesmo tempo, pela histórias de cada mãe, que eu não tinha noção de tudo isso, do tamanho do buraco, do tamanho da atrocidade que os governos dos estados cometem contra o povo negro, contra a periferia, contra família pobre, contra os adolescentes. Nossa luta é para que nenhuma mãe venha se juntar a nós porque perdeu um filho, mas sim se juntar para defender o que ela tem”.

Dois pedidos de socorro

Cleonice ouviu os disparos que vitimaram o seu filho do começo de sua rua. Os segundos seguintes foram de correria e desespero. Quando chegou em frente à sua casa, viu o corpo de Guilherme estirado no chão e seu marido, Jorge, em choque com o crime que havia presenciado. 

Guilherme foi assassinado no bairro do Rio Vermelho, em Florianópolis, em 17 de outubro de 2024. Passava por uma crise depressiva e ameaçava se matar com uma cartela de remédios controlados quando a família acionou o SAMU. Em seguida, foram aconselhados pelo serviço de emergência a acionar a Polícia Militar para supervisionar o atendimento. Foi o momento em que a própria família da vítima, na esperança de ajudar o filho, ligou para seu algoz. 

Sete segundos foi o tempo entre a chegada da viatura e o disparo que atingiu o peito de Guilherme, que estava desarmado e não ameaçou outras pessoas que não a si mesmo naquela manhã. O policial que dirigia a viatura sequer deixou o veículo para disparar diretamente no peito da vítima, que morreu no local, aos 31 anos de idade. 

O Ministério Público de Santa Catarina pediu o arquivamento do caso apenas 45 dias depois do crime – mesmo que este tenha sido filmado por câmeras de segurança da rua, gerando imagens que corroboram a versão da família. 

Desde então, Nice e sua família lutam por justiça. Sua primeira participação em um evento de familiares aconteceu cerca de seis meses depois do crime – quando, ao lado de outras mães de Florianópolis, participou da 8ª edição do Encontro Nacional de Mães e Familiares de Vitimas de Terrorismo do Estado, que aconteceu justamente na capital catarinense. Desde então, foi ao Rio e a Brasília junto das mães que conheceu em 2025. 

Quando eu voltei de Brasília, eu pensei: não vou nunca mais. Porque a gente escuta muitas histórias, muita violência. Aí junta com a nossa, é muito dolorido. Mas daí quando tá perto da outra, a gente quer vir, quer tá junto, porque uma acolhe a outra, né? Então, a gente vem por isso, pelo acolhimento. A gente pensa muito assim, porque nada vai trazer os nossos filhos de volta, mas a gente não queria que outras mães passassem por isso. Esse não querer para as outras é o que fortalece o grupo todo”.

Acolhida por mães que estavam há décadas na luta por justiça no ano passado, coube a Nice esse ano acolher uma das suas. No evento de 2026, estava quase sempre ao lado de Evolmara – que perdeu o filho em setembro de 2025. A velocidade em que a violência do Estado age não permite que se seja novata neste tipo de movimento social durante muito tempo. 

As duas se conheceram através de um contato realizado por Nice. A mãe de Floripa se identificou com a de Porto Alegre assim que soube do caso que vitimou Herick Vargas, filho de Evolmara. As similaridades entre as duas execuções chamou sua atenção. As duas mães enlutadas logo viraram amigas e, meses após a morte de Herick, Nice viajou para Porto Alegre para participar de uma manifestação feita por Evolmara.

Quando aconteceu o caso com o filho dela, eu que procurei ela.  Foi mais ou menos o mesmo caso do Guilherme, foi muito parecido. Então a gente se identificou muito e eu consegui fazer com que ela viesse também no encontro. Então a gente vai se unindo, né? Pegando outras mães que estão mais recentes, tentando costurar um caminho pra diminuir um pouquinho a nossa dor”, diz Nice.

Herick tinha diagnóstico de esquizofrenia e encontrava-se em surto quando sua família chamou a Brigada Militar do Rio Grande do Sul. Assim como a família de Guilherme, pensou que o Estado poderia ajudar seu filho durante uma crise de saúde mental. Enganou-se. 

O jovem de 29 anos estava sentado no chão de seu quarto, conversando com a mãe, quando a Brigada chegou ao local. Após dois minutos de conversa, um dos policiais pediu a Herick que colocasse as mãos na cabeça. O jovem se levantou e foi imediatamente atingido por uma arma de choque. Ele foi ao chão, quando foi amparado pela mãe. 

Policiais então mandaram ela se distanciar do filho. Dois agentes apontavam armas para o jovem caído no chão, desarmado e contido. Assim que Evolmara o largou, Herick tentou se levantar, mas foi atingido por múltiplos disparos de pistola. Ele morreu no local.

O desespero da mãe foi instantâneo: “Não precisava atirar! A gente chamou vocês pra ajudar, não pra matar o meu filho”!

O homicídio foi gravado pelas câmeras corporais da guarnição envolvida. Além do assassinato em si, também ficaram registradas imagens de dentro da viatura policial. 

Tem que fritar esse louco aí”, disse um dos policiais antes de chegar à casa da vítima.

Pedido de justiça por Herick Vargas no Encontro Nacional. Foto: Rodrigo Barbosa

Evolmara, para além de lutar por justiça pelo filho, tem atuado diretamente na denúncia do descaso público com a saúde mental. De acordo com ela, há atualmente um processo de contratação de profissionais especializados em atendimentos na área de saúde mental que está paralizado por decisão do prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo.

As similaridades entre os homicídios de Guilherme e Herick não se resumiram ao contexto e à dinâmica dos casos. Mesmo que ambos tenham sido gravados, a Polícia Militar de Santa Catarina e a Brigada Militar do Rio Grande do Sul alegaram que seus agentes agiram em legítima defesa. Os Ministérios Públicos dos dois estados concordaram com a versão dos executores e pediram o arquivamento dos inquéritos – no caso de Guilherme, 45 dias após a morte; no caso de Herick, cerca de três meses depois. Suas mães, entretanto, não irão desistir de buscar a justiça.

É desesperador, é difícil ter esperança de uma melhora na nossa polícia, que cada vez mais mata os nossos jovens. Eles querem acabar com a população pobre. Foi arquivado duas vezes e agora eu tô vendo se tem a possibilidade de desarquivar e a gente retomar”, conta Cleonice.

O protagonismo da região Sul na luta

A escolha de Curitiba, capital do Paraná, como sede do 9º Encontro Nacional evidenciou o protagonismo da região Sul do Brasil na luta por justiça, memória e reparação. Foi a segunda edição consecutiva em nossa região, após o 8º Encontro ter sido realizado em Florianópolis – capital de Santa Catarina, estado vizinho.

Além de Nice e Evolmara, a região Sul se fez presente no 9º Encontro em grande número. Anfitrião do evento, o estado do Paraná foi representado por pelo menos três coletivos. Juntos, os movimentos anfitriões compuseram a mesa de abertura. 

O Justiça por Almas foi criado em 2022, e luta pela memória das vítimas da polícia na região de Londrina. A cidade no norte do Paraná vive uma onda de violência policial – apenas em 2024 foram registrados 49 óbitos durante ações das forças de segurança. 

Além de participar de mesas durante o evento, o Justiça por Almas também marcou sua presença com uma faixa com os dizeres “Parem de Matar Nosso Jovens”, posicionada abaixo do telão do auditório. Ainda levaram fotos de dezenas de jovens mortos na região de Londrina nos últimos anos, ilustrando a enorme colcha de retalhos formada por fotos de vítimas de todo o Brasil no chão do evento. 

O coletivo Filhos Roubados, Mães Dizimadas (FRMD) foi mais um movimento paranaense presente no evento. Na mesa de abertura, o coletivo de familiares da região metropolitana de Curitiba foi responsável por contextualizar o cenário jurídico do estado. O advogado do FRMD denunciou que atualmente a violência policial é uma política de Estado no Paraná – que, como vários outros estados, não conta com um controle institucional eficiente para investigar as mortes decorrentes da ação da polícia. As atuações dos Ministérios Públicos foram bastante criticadas por vários militantes durante o encontro. 

A Rede Nenhuma Vida a Menos não é um coletivo exclusivamente de familiares, mas conta com parentes de vítimas e articuladores comunitários. Criado em 2019, a rede foi o primeiro movimento social criado na região metropolitana de Curitiba tendo a luta contra violência policial como sua principal bandeira. 

Lucas, um dos articuladores da Rede Nenhuma Vida a Menos, se lembra que a ação direta do movimento começou já no dia de seu lançamento. Foi em 27 de setembro de 2019, quando o Parolin – umas das maiores comunidades de Curitiba – viu quatro jovens tombarem pelas mãos da polícia. Eles tinham entre 14 e 21 anos.

A gente estava no nosso ato de lançamento, aí disseram: Ó, agora 4 meninos do Parolin foram assassinados pela polícia. Aí nesse mesmo dia teve um ato no Parolin, que a família organizou. Na hora, assim, no coração quente. E aí nós fomos ajudar no ato. E desde então foi isso também que configurou o que que a rede iria fazer. Porque daí já surgiu essa demanda, a gente tem que fazer isso aqui, temos que ajudar nesse caso”.

A chacina do Parolin foi o primeiro caso de acompanhamento jurídico da Rede – cujos membros já tinham atuação prévia na comunidade, através da cena do slam e batalhas de rap. Através de advogados parceiros e encaminhamentos com a Defensoria Pública, essa segue sendo uma frente ativa da Rede até hoje – bem como a realização de manifestações públicas. Segundo Lucas, nos últimos anos a atuação da Rede teve que se intensificar, para acompanhar a escalada de violência da polícia paranaense.

A gente vê pelos números mesmo e pela prática, que é uma escalada muito grande. Aqui em Curitiba o que a gente tem visto é isso, são execuções sempre no mesmo padrão. Estão matando a troco de nada e é sempre aquela coisa de alegar confronto, de justificar por ser alguém que já tinha passagem. O cenário que a gente vê é muito ruim, cara. É um cenário de escalada mesmo, a gente tá diariamente lutando contra um negócio muito grande, porque isso só cresce. Tá foda”.

O cenário de crescente violência teve influência direta para que o encontro deste ano fosse realizado no Paraná – bem como para que o do ano passado fosse realizado em Santa Catarina. No evento deste ano, a Rede Nenhuma Vida a Menos assumiu boa parte do apoio local à equipe que fica à frente da organização nacional do evento. Auxiliaram nos trâmites de estadia dos quase 70 participantes que se hospedaram no hotel do encontro e na captação de recursos para a realização do evento. Também foram os responsáveis por organizar a manifestação pública que aconteceria na sexta-feira – e que acabou não acontecendo por conta do ciclone que levou fortes chuvas à região Sul naquele fim de semana.

A Rede também tem uma frente dedicada à memória das vítimas da polícia na região metropolitana de Curitiba. Possuem uma aba em seu site dedicada a ser um memorial dos que partiram. Além disso, têm apostado na arte urbana como forma de manifesto: produzem murais de graffiti em homenagem a vítimas em comunidades e bairros periféricos, como o próprio Parolin e o Cajuru. 

A Rede ainda ainda tem colocado em discussão no Paraná o desinvestimento das polícias. A organização trabalha com levantamento de dados de violência e orçamento público. Durante o encontro nacional, participaram de uma mesa ao lado da Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial (IDMJR), organização de referência para esta discussão no país. Ambas organizações já haviam participado do encontro no ano passado, em Floripa. 

Além das organizações já citadas, a região Sul ainda marcou presença no 9º Encontro da Rede Nacional de Mães e Familiares de Vítimas do Terrorismo do Estado através da presença de Moisés Nascimento, liderança comunitária do Morro do Mocotó e representante da Frente da Juventude Voz da Favela, de Florianópolis; e da equipe responsável pela relatoria do evento, que era formada por integrantes do Laboratório Universitário de Políticas, Direitos, Conflitos e Antropologia (LUPA-UFSC) e da célula catarinense da Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas (RENFA-SC).

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